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História da Eternidade
I
Na passagem das
Enéadas
que pretende interrogar e
definir a natureza do tempo, afirma-se que é indispensável
conhecer previamente a eternidade, que — conforme todos
sabem — é o modelo e arquétipo daquele. Esta advertência
preliminar, tanto mais grave se a julgarmos sincera, parece
aniquilar toda a esperança de nos entendermos com o homem
que a escreveu. O tempo é um problema para nós, um tremendo
e exigente problema, porventura o mais vital da metafísica;
a eternidade, um jogo ou uma fatigada esperança. Lemos no
Timeu
de Platão que o tempo
é
uma imagem móvel da
eternidade; e isso é apenas um registo que a ninguém
distrai da convicção de que a eternidade é uma imagem feita
com substância de tempo. É esta imagem, esta tosca palavra
enriquecida pelos desacordos humanos, que me proponho
historiar.
Invertendo o método de
Plotino (única maneira de aproveitá-lo) começarei por
recordar as obscuridades inerentes ao tempo: mistério
metafísico, natural, que tem de anteceder a eternidade, que
é
filha dos homens. Uma destas
obscuridades, não a mais árdua, mas também não a menos bela,
é a que nos impede de precisar a direcção do tempo. Que ..ui
do passado para o porvir é a crença comum, mas de modo
nenhum
é
mais ilógica a sua
contrária, a que foi fixada em verso espanhol por Miguel de
Unamuno:
Nocturno el rio de ias horas
fluye
desde su manantial que es el
mañana eterno...
Ambas são igualmente verosímeis — e igualmente
inverificáveis. Bradley nega as duas e avança uma hipótese
pessoal: excluir o futuro, que é uma simples constrição da
nossa esperança, e reduzir o «actual» à agonia o momento
presente desintegrando-se no passado. Esta regressão
temporal costuma corresponder aos estados decrescentes ou
insípidos, enquanto qualquer intensidade nos parece marchar
sobre o porvir... Bradley nega o futuro; uma das escolas
filosóficas da Índia nega o presente, por considerá-lo
incaptável. «A laranja está para cair do ramo, ou já está no
chão», afirmam esses estranhos simplificadores. «Ninguém a
vê cair.»
Outras dificuldades propõe o tempo. Uma, porventura a maior,
a de sincronizar o tempo individual de cada pessoa com o
tempo geral das matemáticas, tem sido largamente apregoada
pelo recente alarme relativista, e todos se lembram dela —
ou lembram-se de a ter lembrado até há pouquíssimo tempo.
(Eu recupero-a assim, deformando-a: Se o tempo é um
processo mental, como podem compartilhá-lo milhares de
homens ou mesmo dois homens diferentes?) Outra é a
dedicada pelos Eleatas a refutar o movimento. Pode caber
nestas palavras: «É impossível que em oitocentos anos de
tempo decorra um prazo de catorze minutos, porque antes é
obrigatório que tenham passado sete, e antes de sete, três
minutos e meio, e antes de três e meio, um minuto e três
quartos, e assim infinitamente, de maneira que os catorze
minutos nunca se cumprem.» Russell rebate este argumento,
afirmando a realidade e até vulgaridade de números
infinitos, mas que se dão de uma vez, por definição, e não
como termo «final» de um processo de enumeração sem fim.
Estes cálculos anormais de Russell são uma boa antecipação
da eternidade, que também não se deixa definir pela
enumeração das suas partes.
Nenhuma das
várias eternidades que planearam os homens — a do
nominalismo, a de Ireneu, a de Platão — é uma
agregação mecânica do passado, do presente e do futuro. É
uma coisa mais simples e mais mágica: é a simultaneidade
desses tempos. O idioma comum e o dicionário espantoso «dont
chague édition fait regretter la précédente» parecem
ignorá-lo, mas assim pensaram os metafísicos. «Os objectos
da alma são sucessivos, agora Sócrates e depois um cavalo»,
leio no quinto livro das Enéadas, «sempre uma coisa
isolada que se concebe e milhares que se perdem; mas a
Inteligência Divina abarca juntamente todas as coisas. O
passado está no seu presente, assim como também o futuro.
Nada decorre neste mundo, em que persistem todas as coisas,
quietas na felicidade da sua condição.»
Passo a
considerar esta eternidade de que derivaram as subsequentes.
É verdade que Platão não a inaugura — num livro especial,
fala dos «antigos e sagrados filósofos» que o antecederam
—, mas amplia e resume com brilho o que imaginaram os
anteriores. Deussen compara-o ao crepúsculo: luz apaixonada
e final. Convergem nos seus livros todas as concepções
gregas de eternidade quer rejeitadas, quer adornadas
tragicamente.
Por isso o faço anteceder Ireneu, que ordena a segunda
eternidade: a coroada pelas três diferentes, mas
inextricáveis pessoas.
Diz Plotino
com notório fervor: «Toda a coisa no céu inteligível também
é céu, e aí a terra é céu, como também o são os
animais, as plantas, os homens e o mar. Cada um revê-se nos
outros. Não há nada nesse reino que não seja diáfano. Nada
é impenetrável, nada é opaco e a luz encontra a luz.
Todos estão em toda a parte, e tudo é tudo. Cada coisa é
todas as coisas. O Sol é todas as estrelas, e cada
estrela é todas as estrelas e o Sol. Ninguém anda ali como
em terra estrangeira.» Este universo unânime, esta apoteose
da assimilação e do intercâmbio, contudo, não é ainda
a eternidade; é um céu limítrofe, não emancipado
completamente do número e do espaço. À contemplação da
eternidade, ao mundo das formas universais pretende exortar
esta passagem do quinto livro: «Que os homens a quem
maravilha este mundo — a sua capacidade, a sua beleza, a
ordem do seu movimento contínuo, os deuses manifestos ou
invisíveis que o percorrem, os demónios, árvores e animais
— elevem o pensamento a esta Realidade de que tudo é
a cópia. Verão aí as formas inteligíveis, não com emprestada
eternidade mas sim eternas, e verão também o seu capitão, a
Inteligência pura, e a Sabedoria inalcançável, e a idade
genuína de Cronos, cujo nome é a Plenitude. É nele que estão
todas as coisas imortais. Todos os intelectos, todos os
deuses e todas as almas. Todos os lugares lhe são
presentes, para onde irá? Está na ventura, para quê
experimentar a mudança e a vicissitude? Não careceu ao
princípio desse estado ganhando-o depois. Numa só
eternidade as coisas não são suas: a eternidade que o tempo
imita ao girar em torno da alma, sempre desertor de um
passado, sempre cobiçoso de um porvir.»
As repetidas
afirmações de pluralidade que fornecem os parágrafos
anteriores, podem induzir-nos em erro. O universo ideal para
que nos convida Plotino é menos propenso à variedade do que
à plenitude; é um repertório selecto, que não tolera
a repetição e o pleonasmo. É o imóvel e terrível museu dos
arquétipos platónicos. Não sei se o viram olhos mortais
(fora da intuição visionária ou do pesadelo) ou se o grego
remoto que o ideou o representou alguma vez, mas algo de
museu pressinto nele: quieto, monstruoso e classificado...
Trata-se de uma imaginação pessoal de que pode prescindir o
leitor; do que não convém que prescinda é de uma notícia
geral desses arquétipos platónicos, ou causas primordiais
ou ideias, que povoam e compõem a eternidade.
É impossível
aqui uma discussão prolixa do sistema platónico, mas não
certas advertências de intenção propedêutica. Para nós, a
última e
firme realidade das coisas é
a matéria — os electrões giratórios que percorrem
distâncias estelares na solidão dos átomos; para os capazes
de platonizar, é a espécie, a forma. No terceiro livro das
Enéadas, lemos que a matéria é irreal: é uma
simples e vazia passividade que recebe as formas universais
como as receberá um espelho; estas agitam-na e povoam-na
sem a alterar. A sua plenitude é precisamente a de um
espelho, que simula estar cheio e está vazio; é um
fantasma que nem sequer desaparece, porque não tem nem a
capacidade de cessar. O fundamental são as formas. Delas,
repetindo Plotino, disse Pedro Malón de Chaide muito depois:
«Faz Deus como se tivéssemos um selo oitavo de ouro que numa
das partes tivesse um leão esculpido; noutra, um cavalo;
noutra, uma águia, e assim por diante; e num bocado de cera
imprimíssemos o leão; noutro, a águia; noutro, o cavalo; é
certo que tudo o que está na cera está no ouro, e não
podemos imprimir senão o que lá tivermos esculpido. Mas há
uma diferença, que é que a cera afinal é cera, e vale pouco;
mas o ouro é ouro, e vale muito. Nas criaturas estão estas
perfeições finitas e de pouco valor: em Deus são de ouro,
são o próprio Deus.» Daqui podemos inferir que a matéria
não é nada.
Damos por
errado este critério e até inconcebível, e apesar disso
aplicamo-lo continuamente. Um capítulo de Schopenhauer não
é o papel nas oficinas de Leipzig nem a impressão, nem as
delicadezas e perfis da escrita gótica, nem a enumeração
dos sons que o compõem, nem sequer a opinião que temos dele;
Miriam Hopkins é feita de Miriam Hopkins, não dos princípios
nitrogenados ou minerais, hidratos de carbono, alcalóides e
gorduras neutras, que formam a substância transitória desse
fino espectro de prata ou essência inteligível de Hollywood.
Estas ilustrações ou sofismas de bom grado podem exortar-nos
a tolerar a tese platónica. Vamos formulá-la assim: «Os
indivíduos e as coisas existem enquanto participam da
espécie que os inclui, que é a sua realidade
permanente.» Vou buscar o exemplo mais favorável: o de um
pássaro. O hábito dos bandos, a pequenez, a identidade de
características, a antiga conexão com os dois crepúsculos, o
do princípio dos dias e o do seu termo, a circunstância de
serem mais frequentes ao ouvido do que à vista — tudo isto
nos move a admitir o primado da espécie e a quase perfeita
nulidade dos indivíduos.
Keats, alheio ao erro, pode pensar que o rouxinol que o
encanta é o mesmo que ouviu Ruth nos trigais de Belém de
Judá; Stevenson
eleva um só pássaro que consome os séculos: «o rouxinol
devorador do tempo». Schopenhauer, o apaixonado e lúcido
Schopenhauer, dá uma razão: a pura actualidade corporal em
que vivem os animais, o seu desconhecimento da morte e das
memórias. E acrescenta logo, não sem um sorriso: «Quem me
ouvir assegurar que o gato cinzento que está a brincar no
pátio é o mesmo que brincava e fazia travessuras há
quinhentos anos, pensará de mim o que quiser, mas loucura`
mais estranha é imaginar que fundamentalmente é
outro.» E a seguir: «Destino e vida de leões requer a
leonidade que, considerada no tempo, é um leão
imortal que se mantém por meio da infinita reposição dos
indivíduos, cuja geração e cuja morte formam o pulso desta
imperecível figura.» E antes: «Uma infinita duração precedeu
o meu nascimento; o que fui eu entretanto? Metafisicamente,
poderia talvez responder-me: "Eu fui sempre eu; quer dizer,
os outros que disseram eu durante esse tempo todo, não eram
senão eu”»
Presumo que a eterna Leonidade
pode ser aprovada pelo meu leitor, que sentirá um alívio
majestoso perante esse único Leão, multiplicado nos espelhos
do tempo. Do conceito de eterna Humanidade não espero o
mesmo: sei que o nosso eu o rejeita, e que prefere
derramá-lo sem medo no eu dos outros. Mau sinal; formas
universais muito mais árduas nos propõe Platão. Por exemplo,
a Mesidade, ou Mesa Inteligível que está nos céus:
arquétipo quadrúpede que perseguem, condenados ao devaneio
e à frustração, todos os marceneiros do mundo. (Não posso
negá-la completamente: sem uma mesa ideal, nunca poderíamos
ter chegado a mesas concretas.) Por exemplo, a
Triangularidade: eminente polígono de de três lados que não
está no espaço e que não quer rebaixar-se à condição de
equilátero, escaleno ou isósceles. (Também não o repudio; é
o dos manuais de geometria.) Por exemplo: a Necessidade, a
Razão, a Preterição, a Relação, a Consideração, o Tamanho,
a Ordem, a Lentidão, a Posição, a Declaração, a Desordem.
Destas comodidades do pensamento elevadas a formas já não
sei o que julgar; penso que nenhum homem as poderá intuir
sem o auxílio da morte, da febre, ou da loucura. Já me
esquecia de outro arquétipo que os compreende a todos e os
exalta: a Eternidade, cuja fragmentada cópia é o tempo.
Ignoro se o
meu leitor precisa de argumentos para descrer da doutrina
platónica. Posso fornecer-lhe muitos: um, a incompatível
agregação de termos genéricos e de termos abstractos que
coabitam sans gêne na dotação do mundo arquétipo;
outro, a reserva do seu inventor sobre o
procedimento
que usam as coisas para participar nas formas universais;
outro, a
conjectura de que esses mesmos arquétipos assépticos padecem
de mistura e de variedade. Não são irresolúveis: são tão
confusos
como as
criaturas do tempo. Fabricados à imagem das criaturas,
repetem essas próprias anomalias que pretendem resolver. A
Leonidade, digamos, como prescindiria da Soberba e da
Rubidez, da Jubidade e da Garridade? Para esta pergunta não
há resposta nem pode haver: não esperemos do termo
leonidade
uma virtude
muito superior à que tem esta palavra sem o sufixo.
Volto à eternidade de
Plotino. O quinto livro das
Enéadas
inclui um inventário muito
geral das peças que a compõem. A Justiça lá está, assim como
os Números (até qual?) e as Virtudes e os Actos e o
Movimento, mas não os erros e os estragos, que são doenças
de uma matéria em que se modelou uma Forma. Não é enquanto
melodia, mas sim enquanto é Harmonia e é Ritmo que lá está a
Música. Da patologia e da agricultura não há arquétipos,
porque não são precisos. Ficam excluídas igualmente a
fazenda, a estratégia, a retórica e a arte de governar —
embora, no tempo, derivem um pouco da Beleza e do Número.
Não há indivíduos, não há uma forma primordial de Sócrates
nem sequer de Homem Alto ou de Imperador; há, geralmente, o
Homem. Em contrapartida, estão lá todas as figuras
geométricas. Das cores só estão as primárias: não há
Cinzento nem Púrpura, nem Verde nesta eternidade. Por ordem
ascendente, os seus mais antigos arquétipos são estes: a
Diferença, a Igualdade, a Moção, a Quietude e o Ser.
Examinámos uma eternidade
que é mais pobre que o mundo. Resta ver como a adoptou a
nossa Igreja e lhe confiou um caudal que
é
superior ao que os anos
transportam.
II
O melhor documento da
primeira eternidade é o quinto livro das
Enéadas;
o da segunda ou cristã, o
décimo primeiro livro das
Confissões
de Santo Agostinho. A
primeira não se pode conceber fora da tese platónica; a
segunda, sem o mistério profissional da Trindade e sem as
discussões levantadas pela predestinação e pela reprovação.
Quinhentas páginas in-fólio não esgotariam o tema: espero
que estas duas ou três em oitavo não pareçam excessivas.
Pode afirmar-se, com
suficiente margem de erro, que a «nossa» eternidade foi
decretada poucos anos após a doença crónica intestinal que
matou Marco Aurélio, e que o lugar desse vertiginoso mandado
foi o desfiladeiro de Fourvière, que antes se chamou
Forum vetus,
e célebre agora pelo elevador e
pela basílica. Apesar da autoridade de quem a ordenou — o
bispo Ireneu —, esta eternidade coerciva foi muito mais que
um vão parâmetro sacerdotal ou um luxo eclesiástico: foi uma
resolução e foi uma arma. O Verbo
é
engendrado pelo Pai, o Espírito
Santo é produzido pelo Pai e pelo Verbo, os gnósticos
costumavam inferir destas duas inegáveis operações que o Pai
era anterior ao Verbo, e os dois ao Espírito. Esta
inferência dissolvia a Trindade. Ireneu esclareceu que o
duplo processo — geração do Filho pelo Pai, emissão do
Espírito pelos dois — não aconteceu no tempo, mas sim esgota
de uma vez o passado, o presente e o porvir. O
esclarecimento prevaleceu e agora é dogma. Assim foi
promulgada a eternidade, antes apenas consentida na sombra
de algum desautorizado texto platónico. A boa conexão e
distinção das três hipóstases do Senhor, agora é um problema
inverosímil, e esta futilidade parece contaminar a resposta;
mas não há dúvidas da grandeza do resultado, pelo menos
para alimentar a esperança:
«Aeternitas est merum hodie,
est immediata et lucida friutio rerum infinitarum.»
Nem da importância
emocional e polémica da Trindade.
Agora, os católicos laicos
consideram-na um corpo colegiado infinitamente correcto,
mas também infinitamente aborrecido; os
liberais
um vão cão Cérbero
teológico, uma superstição que os muitos avanços da
República já se encarregaram de abolir. A Trindade, é claro,
excede estas fórmulas. Imaginada toda de uma vez, a sua
concepção de um pai, um filho e um espectro, articulados
num único organismo, parece um caso de teratologia
intelectual, uma deformação que só o horror de um pesadelo
conseguiu parir. O inferno
é
uma mera violência física, mas
as três inextricáveis Pessoas implicam um horror
intelectual, uma infinidade asfixia‑
da,
enganadora, como de contrários espelhos. Dante pretendeu
denotá-las com o signo de uma sobreposição de círculos
diáfanos, de diferente cor; Donne, pelo de complicadas
serpentes, graciosas e indissolúveis.
«Toto
coruscat trinitas mysterio»,
escreveu São
Paulino; «Brilha no pleno mistério da Trindade».
Desligada do
conceito de redenção, a distinção das três pessoas numa tem
de parecer arbitrária. Considerada como uma necessidade da
fé, o seu mistério fundamental não se atenua, mas sobressaem
a sua intenção e o seu emprego. Entendemos que renunciar à
Trindade — à Dualidade, pelo menos, é fazer de Jesus um
delegado ocasional do Senhor, um acidente da história, e
não o auditor
imorredouro,
contínuo, da
nossa devoção. Se o filho não for também a redenção não
é
obra directa
divina; se não for eterno, também não o será o sacrifício de
se ter rebaixado à condição de homem e ter morrido na Cruz.
«Nada menos que uma infinita excelência pôde satisfazer por
uma alma perdida para infinitas idades», insistiu Jeremias
Taylor. Assim se pode explicar o dogma, embora os conceitos
da geração de um Filho pelo Pai e do seguimento do Espírito
pelos dois continuem a insinuar uma prioridade, sem contar
com a sua culpada condição de simples metáforas. A teologia,
empenhada em diferenciá-las, resolve que não há motivo para
confusões, visto que o resultado de uma é o Filho e da
outra o Espírito. Geração eterna do Filho, procissão eterna
do Espírito, é a soberba decisão de Ireneu: invenção de um
acto sem tempo, de um mutilado
zeitloses
Zeitwort,
que podemos
desdenhar ou venerar, mas não discutir. Assim se propôs
Ireneu salvar o monstro e conseguiu-o. Sabemos que era
inimigo dos filósofos; apoderar-se de uma das suas armas e
voltá-la contra eles, deve ter-lhe causado um belicoso
prazer.
Para o
cristão, o primeiro segundo do tempo coincide com o primeiro
segundo da Criação — facto que nos poupa o espectáculo
(reconstruído
recentemente
por Valéry)
de um Deus ocioso que vai dobando séculos errantes na
eternidade «anterior». Emanuel Swedenborg
(Vera
Christiana Religio,
1771) viu
num confim do mundo espiritual uma estátua alucinatória
pela qual se imaginam devorados todos os «que deliberam
insensata e esterilmente sobre a condição do Senhor antes de
fazer o Mundo».
Desde que
Ireneu a inaugurou, a eternidade cristã começou a diferir da
alexandrina. Sendo ao princípio um mundo à parte,
acomodou-se a ser um dos dezanove atributos da mente de
Deus. Entregues à veneração popular, os arquétipos ofereciam
o perigo de se transformarem em divindades ou em anjos; por
conseguinte, não negou a sua realidade — sempre maior que a
das simples criaturas —, mas foram reduzidos a ideias
eternas no Verbo fazedor. A este conceito dos
universalia
ante res
veio parar
Alberto Magno: considera-os eternos e anteriores às coisas
da Criação,
mas só à
maneira de inspirações e formas. Trata muito bem de
separá-lo s dos universalia in rebus, que são as
mesmas concepções divinas já concretizadas variamente no
tempo, e — sobretudo — dos universalia postres, que
são as concepções redescobertas pelo pensamento indutivo.
As temporais distinguem-se das divinas pelo facto de
carecerem da eficácia criadora, mas não noutra coisa: a
suspeita de que as categorias de Deus podem não ser
precisamente as do latim não cabe na escolástica... Mas
advirto que me adianto.
Os manuais
de teologia não se detêm com dedicação especial na
eternidade. Reduzem-se a prevenir que
é
a intuição
contemporânea e total de todas as fracções do tempo, e a
fatigar as Escrituras hebraicas depois de fraudulentas
confirmações, onde parece que o Espírito Santo diz muito
mal o que diz bem o comentador. Costumam agitar com esse
propósito esta declaração de ilustre desdém ou de mera
longevidade: «Um dia perante o Senhor é como mil anos, e mil
anos são como um dia», ou as grandes palavras que ouviu
Moisés e que são o nome de Deus: «Sou Aquele que Sou», ou as
que ouviu São João,
o Teólogo,
em Patmos,
antes e depois do mar de cristal e da besta de cor
escarlate e das aves que comem carne de capitães: «Eu sou o
A e o Z, o princípio e o fim.»
Costumam copiar também esta definição de Boécio (concebida
no cárcere, porventura em vésperas de morrer pela espada):
«Aeternitas
est interminabilis vitae tota et perfecta possessio»,
e que me
agrada mais na quase voluptuosa repetição de Hans Lassen
Martensen:
«Aeternitas
est merum hodie, est immediata et lucida fruitio rerum
infinitarum.»
Em
contrapartida, parecem desprezar o obscuro juramento do
anjo que estava de pé sobre o mar e sobre a terra
(Revelação, X, 6): «e jurou por Aquele que viverá para
sempre, que criou o céu e as coisas que nele estão, e a
terra e as coisas que nela estão, e o mar e as coisas que
nele estão, que o tempo deixará de ser». É verdade que o
tempo
neste
versículo deve equivaler a «demora».
A eternidade ficou como
atributo da ilimitada mente de Deus, e sabe-se muito bem
que gerações de teólogos têm vindo a trabalhar essa mente, à
sua imagem e semelhança. Não há nenhum estímulo tão vivo
como o debate da predestinação
ab aeterno.
Quatrocentos anos depois da
Cruz, o frade inglês Pelágio incorreu no escândalo de pensar
que os inocentes que morrem sem o baptismo alcançam a glória.
Agostinho, bispo de Hipona, refutou-o com uma indignação que
os seus editores aclamam. Anotou as heresias nesta doutrina,
aborrecida dos justos e dos mártires: a sua negação de que
no homem Adão já pecámos e perecemos todos os homens, o seu
esquecimento abominável de que esta morte se transmite de
pai para filho pela geração carnal, o seu desprezo do
sangrento suor, da agonia sobrenatural e do grito de Quem
morreu na Cruz, a sua repulsa dos secretos favores do
Espírito Santo, a sua restrição da liberdade do Senhor. O
britânico temera a ousadia de invocar a justiça; o Santo —
sempre sensacional e forense — concede que, de acordo com a
justiça, todos os homens merecemos o fogo sem perdão, mas
que Deus determinou salvar alguns, «segundo o seu arbítrio»,
ou como diria Calvino, muito depois, e não sem uma certa
brutalidade: «porque sim»
(«guia voluit»).
Eles são os predestinados. A
hipocrisia ou o pudor dos teólogos reservou o uso desta
palavra para os predestinados ao céu. Predestinados ao
tormento não pode haver: é verdade que os não favorecidos
passam ao fogo eterno, mas trata-se de uma preterição do
Senhor, não de um acto especial... Este recurso renovou a
concepção da eternidade.
Gerações de homens idolátricos
haviam habitado a Terra, sem ocasião de rejeitar ou abraçar
a palavra de Deus; era tão insolente imaginar que pudessem
salvar-se sem esse meio como negar que alguns dos seus
varões, de famosa virtude, seriam excluídos da glória. (Zuínglio,
1523, declarou a sua esperança pessoal de compartilhar o céu
com Hércules, com Teseu, com Sócrates, com Aristides, com
Aristóteles e com Séneca.) Uma amplificação do nono atributo
do Senhor (que é o de omnisciência) bastou para esconjurar a
dificuldade. Promulgou-se que esta implicava o conhecimento
de todas as coisas: quer dizer, não só das reais, mas das
possíveis também. Procurou-se um lugar nas Escrituras que
permitisse este complemento infinito, e encontraram-se dois:
um, o do
Primeiro Livro dos Reis
em que o
Senhor diz a David que os homens de Kenlah irão entregá-lo
se ele não se for embora da cidade, e ele vai; o outro, o do
Evangelho
segundo São Mateus,
que impreca
duas cidades: «Ai de ti, Karazin! Ai de ti, Betsaida! porque
se em Tiro e em Sídon se houvessem feito as maravilhas que
em vós se fizeram, há muito tempo que se teriam transformado
em mar e em cinza.» Com este repentino apoio, puderam
ingressar na eternidade os modos potenciais do verbo:
Hércules convive no céu com Ulrich Zuínglio porque Deus sabe
que teria observado o ano eclesiástico, a Hidra de Lema fica
relegada para as trevas externas porque lhe consta que
rejeitaria o baptismo. Nós percebemos os factos reais e
imaginamos os possíveis (e os futuros); no Senhor não tem
lugar esta distinção, que pertence ao desconhecimento e ao
tempo. A sua eternidade regista de uma vez
(uno intelligendi actu)
não só todos os instantes deste
repleto mundo como também os que teriam lugar se o mais
evanescente deles se alterasse — e os impossíveis, também.
A sua eternidade combinatória e pontual é muito mais copiosa
que o universo.
Ao contrário das eternidades
platónicas, cujo aspecto principal
é
a insipidez, esta corre o
risco de se assemelhar às últimas páginas do
Ulisses, e até
ao capítulo anterior, o do
enorme interrogatório. Um majestoso escrúpulo de Agostinho
moderou essa prolixidade. A sua doutrina, até mesmo
verbalmente, rejeita a condenação; o Senhor fixa-se nos
eleitos e passa por alto os réprobos. Sabe tudo, mas prefere
demorar a sua atenção nas vidas virtuosas. João Escoto
Erígeno, mestre palatino de Carlos,
o Calvo,
deformou gloriosamente esta
ideia. Predicou um Deus indeterminável; ensinou um ror de
arquétipos platónicos; ensinou um Deus que não percebe o
pecado nem as formas do mal; ensinou a deificação, a
reconversão final das criaturas (inclusivamente o tempo e o
demónio) à unidade primeira de Deus.
«Divina bonitas consummabit
malitiam, aeterna vita absorbebit mortem, beatitudo
miseriam.»
Esta mesclada eternidade (que
ao contrário das eternidades platónicas inclui os destinos
individuais; que ao contrário da instituição ortodoxa
rejeita toda a imperfeição e miséria) foi condenada pelo
sínodo de Valência e pelo de Langres.
De divisione naturae, libri
V, a controversa obra que a
pregava, ardeu na fogueira pública. Acertada medida que
despertou o favor dos bibliófilos, e permitiu que o livro do
Erígeno chegasse aos nossos tempos.
O universo requer a eternidade.
Os teólogos não ignoram que se a
atenção do Senhor se desviasse um só segundo da minha mão
direita que escreve, esta recairia no nada, como se a
fulminasse um fogo sem lua. Por isso afirmam que a
conservação deste mundo é uma perpétua criação e que os
verbos
conservar
e
criar,
tão inimizados aqui, são
sinónimos no Céu.
III
Temos até
aqui, na sua ordem cronológica, a história geral da
eternidade. Das eternidades, melhor dizendo, visto que o
desejo humano sonhou dois sonhos sucessivos e hostis com
esse nome: um, o realista, que anseia com estranho amor os
quietos arquétipos das criaturas; outro, o nominalista, que
nega a verdade dos arquétipos e pretende congregar num
segundo os pormenores do universo. Aquele baseia-se no
realismo, doutrina tão afastada do nosso ser que descreio de
todas as interpretações, inclusivamente da minha; este no
que determina o seu conteúdo, o nominalismo, que afirma a
verdade dos indivíduos e o convencional dos géneros. Agora,
semelhantes ao espontâneo e palerma prosista da comédia,
todos fazemos nominalismo
sans le
savoir:
é como uma
premissa geral do nosso pensamento, um axioma adquirido.
Daí a inutilidade de comentá-lo.
Temos até
aqui, na sua ordem cronológica, o desenvolvimento debatido
e curial da eternidade. Conceberam-na homens remotos, homens
barbudos e mitrados, publicamente para confundir heresias e
para reabilitar a distinção das três pessoas numa,
secretamente para deter de qualquer modo o decorrer das
horas. «Viver é perder tempo: nada podemos recuperar nem
conservar senão sob a forma de eternidade», leio no
espanhol emersonizado Jorge Santayana. Ao qual basta
justapor aquela terrível passagem de Lucrécio, sobre a
falácia do coito: «Como o sequioso que no sonho queria
beber, e esgota formas de água que não se sacia e morre
abrasado pela sede no meio de um rio: assim Vénus engana os
amantes com simulacros, e a visão de um corpo não lhes dá
fartura, e nada podem soltar ou guardar, embora as mãos
indecisas e mútuas percorram todo o corpo. Por fim, quando
nos corpos há presságio de venturas e Vénus está a ponto de
semear os campos da mulher, os amantes apertam-se com
ansiedade, dente amoroso contra dente; absolutamente
em
vão, dado
que não chegam a perder-se no outro nem a ser um mesmo ser.»
Os arquétipos e a eternidade — duas palavras — prometem
possessões mais firmes. A verdade
é
que a
sucessão é uma intolerável miséria e que os apetites
magnânimos cobiçam todos os minutos do tempo e toda a
variedade do espaço.
Sabe-se que
a identidade pessoal reside na memória e que a anulação
desta faculdade implica a idiotia. Pode-se pensar o mesmo do
universo. Sem uma eternidade, sem um espelho delicado e
secreto do que passou pelas almas, a história universal é
tempo perdido, e nela a nossa história pessoal — que nos
envaidece incomodamente. Não basta o disco gramo-fónico de
Berliner ou o perspícuo cinematógrafo, meras imagens de
imagens, ídolos de outros ídolos. A eternidade
é
uma invenção
mais copiosa. É verdade que não
é
concebível,
mas o humilde tempo sucessivo também não o
é.
Negar a
eternidade, supor a vasta aniquilação dos anos carregados
de cidades, de rios e de júbilos, não é menos incrível do
que imaginar o seu total salvamento.
Como foi incoada a eternidade?
Santo Agostinho ignora o problema, mas assinala um facto que
parece permitir uma solução: os elementos de passado e de
futuro que há em todo o presente. Alega um caso
determinado: a rememoração de um poema. «Antes de começar,
o poema está na minha antecipação; assim que o acabei, na
minha memória; mas enquanto o digo, está a estender-se na
memória, pelo que tenho dito; na antecipação, pelo que me
falta dizer. O que sucede com a totalidade do poema, sucede
com cada verso e com cada sílaba. Digo o mesmo da acção
mais longa de que faz parte o poema, e do destino
individual, que se compõe de uma série de acções, e da
humanidade, que é uma série de destinos individuais.» Esta
verificação da íntima ligação dos diversos tempos do tempo,
no entanto, inclui a sucessão, facto que não condiz com um
modelo de unânime eternidade.
Penso que esse modelo foi a
nostalgia. O homem enternecido e desterrado que rememora
possibilidades felizes, vê-as
sub specie aeternitatis,
com o
esquecimento total de que a execução de uma delas exclui ou
adia as outras. Na paixão, a recordação inclina-se para o
intemporal. Reunimos as venturas de um passado numa única
imagem; os poentes diferentemente vermelhos que vejo em
cada tarde serão na lembrança um único poente. Com a
previsão passa-se a mesma coisa: podem conviver sem
obstáculos as mais incompatíveis esperanças. Por outras
palavras: o estilo do desejo é a eternidade (É verosímil que
esteja na insinuação do eterno
— da immediata et lucida
fruitio rerum infinitarum —
a causa do agrado especial
que
as enumerações provocam.)
IV
Só me resta
referir ao leitor a minha teoria pessoal da eternidade. uma
pobre eternidade já sem Deus, e ainda sem outro possuidor e
sem arquétipos. Formulei-a no livro Idioma dos
Argentinos, em 1928. Passo a transcrever o que então
publiquei; a página intitulava-se «Sentir-se na morte».
«Desejo
registar aqui uma experiência que tive há umas noites:
ninharia demasiado evanescente e estática para lhe chamar
aventura; demasiado irrazoável e sentimental para
pensamento. Trata-se de uma cena e da sua palavra: palavra
já antes dita por mim, mas não vivida até então com total
dedicação do meu eu. Passo a historiá-la, com os acidentes
de tempo e de lugar que a declararam.
Rememoro-a assim. Na tarde que
antecedeu essa noite, estive em Barracas: localidade que não
visito por hábito e cuja distância das que depois percorri
já deu um estranho sabor a esse dia. Nessa noite não tinha
destino algum; como estava bom tempo saí para caminhar e
recordar, depois de jantar. Não quis determinar rumo a essa
caminhada; procurei uma máxima latitude de probabilidades
para não cansar a expectativa com a obrigatória antevisão de
uma única delas. Realizei apenas na medida do possível isso
a que chamam caminhar ao acaso; aceitei, sem outro
consciente preconceito para além do de olhar de soslaio as
avenidas ou ruas largas, os mais obscuros convites da
casualidade. Contudo, uma espécie de gravitação familiar
afastou-me para uns bairros, de cujo nome quero sempre
lembrar-me e que exigem reverência ao meu peito. Não quero
com isto significar o meu bairro, o preciso âmbito da
infância, mas sim no entanto as suas misteriosas imediações;
confim que possuí inteiro em palavras e pouco na realidade,
vizinho e mitológico ao mesmo tempo. O reverso do conhecido,
as suas costas são para mim essas ruas penúltimas, quase
tão efectivamente ignoradas como os soterrados alicerces da
nossa casa ou o nosso invísivel esqueleto. A marcha
deixou-me numa esquina. Aspirei a noite, em sereníssimo
ócio de pensar. A visão, nada complicada certamente, parecia
simplificada pelo meu cansaço. Irrealizava-a a sua própria
tipicidade. A rua era de casas baixas, e embora o seu
primeiro significado fosse de pobreza, o segundo era
certamente de ventura. Era do mais pobre e dos mais belo
que havia. Nenhuma casa estava animada na rua; a figueira
escurecia sobre um quintal; as cancelas — mais altas que as
linhas estiradas das paredes — pareciam feitas da mesma
substância que a noite. A vereda era escarpada sobre a rua;
a rua era de barro elementar, barro da América ainda não
conquistado. Ao
fundo, a rua grande,
já descampada, desmoronava-se para o Maldonado. Sobre a
terra turva e caótica, uma cerca rosada parecia não
hospedar a luz do luar, mas sim derramar uma luz íntima.
Não haverá melhor maneira de definir a ternura que este tom
rosado.
Fiquei a
observar esta simplicidade. Pensei, com segurança, em voz
alta: Isto é o mesmo de há trinta anos... Conjecturei
esta data: época recente noutros países, mas já remota
neste inconstante lado do mundo. Talvez cantasse um pássaro
e senti por ele um carinho infantil, e de tamanho de
pássaro; mas o mais seguro é que neste já vertiginoso
silêncio não houve outro ruído para além do também
intemporal dos grilos. O fácil pensamento: «Estou em mil
oitocentos e tantos» deixou de ser umas quantas
aproximativas palavras e aprofundou-se até à realidade.
Senti-me morto, senti-me percebedor abstracto do mundo:
indefinido temor imbuído de ciência que é a melhor
clareza da metafísica. Não acreditei, não, ter remontado as
presumíveis águas do Tempo; antes me suspeitei possuidor do
sentido reticente ou ausente da inconcebível palavra
eternidade. Só depois consegui definir esta imaginação.
Escrevo-a,
agora, assim: Esta pura representação de factos homogéneos
— noite em serenidade, ar límpido, cheiro provinciano da
madressilva, barro fundamental — não simplesmente idêntica à
que houve nessa mesma esquina há tantos anos; sem
parecenças nem repetições, é a mesma. O tempo, se pudermos
intuir esta identidade é uma desilusão: bastam para
o desintegrar a indiferença e inseparabilidade de um momento
do seu aparente ontem e de outro momento do seu aparente
hoje.
É evidente
que o número destes momentos humanos não é infinito. Os
elementares — os de sofrimento físico e de gozo físico, os
de aproximação do sonho, os da audição de uma música, os de
muita intensidade ou grande apatia — são mais impessoais
ainda. Faço derivar de antemão esta conclusão: a vida é
demasiado pobre para não ser também imortal. Mas nem sequer
temos a segurança da nossa pobreza, visto que o tempo,
facilmente refutável no sensitivo, não o é também no
intelectual, de cuja essência parece inseparável o conceito
de sucessão. Fique portanto em anedota emocional a
vislumbrada ideia e na confessada irresolução desta folha de
papel o momento verdadeiro de êxtase e a insinuação possível
de eternidade de que essa noite não me foi avara.»
O propósito de dar interesse
dramático a esta biografia da eternidade obrigou-me a certas
deformações: por exemplo, a resumir em cinco ou seis nomes
uma gestação secular.
Trabalhei ao acaso da minha
biblioteca. Entre outras obras que mais úteis me foram,
tenho de mencionar as seguintes:
Der Philosophie der Griechen,
von Dr. Paul Deussen, Leipzig,
1919. Works of Plotinus. Translated by Thomas Taylor,
London, 1817.
Passages Illustrating
Neoplatonism.
Translated with an introduction
by E. R.
Dodds, London, 1932.
La philosophie de Platon,
par Alfred Fouillé, Paris,
1869.
Die Welt ais Wille und
Vorstellung,
von Arthur Schopenhauer.
Herausgegeben von Eduard Grisebach, Leipzig, 1892.
Die Philosophie des
Mittelalters,
von Dr. Paul Deussen, Leipzig,
1920.
Las confesiones de San Agustín.
Versión
literal por el P. Ángel C. Vega, Madrid, 1932.
A Monument to Saint Augustine,
London, 1930.
Dogmatik,
von Dr. R. Rothe, Heidelberg,
1870.
Ensayos
de crítica filosófica,
de Menéndez y Pelayo, Madrid,
1892.
 
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