Gravatas, tampões, talheres de plástico, faróis de automóvel ou estatuetas da Nossa Senhora de Fátima, tudo pode ser um ponto de partida para a obra desta artista plástica. Reciclando objectos da sociedade de consumo contemporânea, Joana cria jogos irónicos e críticos da actualidade.
De personalidade forte e extrovertida, Joana passeia-se de trotineta pelo armazém da Fundição de Oeiras, onde trabalha diariamente nas suas obras. Já foi segurança de uma discoteca, também já praticou artes marciais. Agora, com 33 anos e uma gargalhada aberta, procura apenas afirmar-se como artista.
A escolha das peças para a exposição de Paris, teve em conta «o espaço, que exigia peças de grandes dimensões, e a procura de um discurso coerente entre elas», afirma Joana. O seu trabalho é versátil: «por exemplo, A Noiva já esteve em espaços tão diferentes quanto o Lux (uma discoteca em Lisboa) e um antigo salão de congressos na Corunha».
A Noiva, obra emblemática de Joana Vasconcelos, é um lustre com 4,7 metros de altura, feito com 14 mil tampões. A obra assenta na fusão de dois símbolos de ostentação burguesa: o lustre e a noiva – «a mulher transformada em bibelot», esclarece a artista.
O toque de contemporaneidade advém do material usado na construção do lustre. Os tampões apelam à «decadência do conceito de perfeição imaculada do branco; apontam a hipocrisia da imagem da noiva pura», no entender de Joana Vasconcelos.
O mesmo princípio pode ser encontrado em Coração Independente, obra destinada a um restaurante em que a artista está actualmente a trabalhar. É um coração feito à imagem do coração de Viana, peça de joalharia tipicamente portuguesa. «É feito de talheres, mas os talheres já não são de prata; o coração é amarelo, mas já não é de ouro», conta Joana. Para esta peça a artista está a utilizar milhares de talheres de plástico, pois o coração «é enorme», conta.
O trabalho desta artista saída das escolas do Ar.Co. evidencia-se pela utilização de materiais pouco convencionais. Desde a primeira obra, realizada em 1994, que Joana surpreende. Ainda recorda quando pediu ao pai 48 contos, para comprar 280 espanadores para produzir Flores do meu desejo – peça que marcou a entrada da artista no mercado da arte contemporânea. «Vivemos numa sociedade de consumo, que é horrorosa mas também fantástica porque cria uma estética; hoje em dia há de tudo, então porque é que a arte não pode ser feita de tudo?», questiona Joana.
João Pinharanda, crítico de arte, destaca o recurso permanente à repetição dos motivos: «A Joana recusa duas vezes a originalidade – e uma dupla negação é, como se sabe, uma afirmação».
Cama Valium é um exemplo da constante repetição. É forrada a comprimidos valium de 5 e 10mg, «assume-se como monumento ao sono, a um sono assistido que pode, inclusivamente aproximar-nos da morte», explica Pinharanda.
Rolos de papel higiénico, colants ou espelhos, tudo se repete incessantemente, criando a «estética de supermercado» de que fala a artista. Mas porque a sociedade industrial não é só a banalização dos objectos, o movimento é outro dos constituintes de algumas das obras de Joana Vasconcelos.
«O movimento não é um adereço, é parte integrante da obra», afirma a artista. Jorge Lima Barreto faz igualmente notar a presença da técnica para desencadear o movimento: «um motor de baixa rotação para activar o disco das bonecas em Fashion victims, motores de antigas máquinas de lavar a roupa impulsionam a rotação dos dois cilindros de collants em Wash and Go», entre outros. «A animação por regimes mecânicos simplistas» é uma espécie de «bricolage low tech», como explica Jorge Barreto.
Joana Vasconcelos afirma-se como artista cujo percurso está em permanente construção: «há uma descoberta de um caminho e o que se faz ao longo do caminho é que nos torna artistas.»
Descubra mais sobre Joana Vasconcelos em http://www.galeria111.pt/index.php?id=6
Ana Cachola e Margarida Peixoto