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      Esculturas feitas com tampões, comprimidos ou gravatas
Um lustre gigante feito com tampões e uma cama forrada a valiums são das peças preferidas da artista plástica Joana Vasconcelos


 
Galeria 111 

A Noiva, 2001 aço inox e tampões OB, 470 x 220 x 220 cm


Em Janeiro, Joana Vasconcelos vai quebrar um jejum de 15 anos em que nenhuma escultora portuguesa expôs em Paris e apresenta na capital francesa uma exposição individual com 14 peças.
 

Gravatas, tampões, talheres de plástico, faróis de automóvel ou estatuetas da Nossa Senhora de Fátima, tudo pode ser um ponto de partida para a obra desta artista plástica. Reciclando objectos da sociedade de consumo contemporânea, Joana cria jogos irónicos e críticos da actualidade.

De personalidade forte e extrovertida, Joana passeia-se de trotineta pelo armazém da Fundição de Oeiras, onde trabalha diariamente nas suas obras. Já foi segurança de uma discoteca, também já praticou artes marciais. Agora, com 33 anos e uma gargalhada aberta, procura apenas afirmar-se como artista.

A escolha das peças para a exposição de Paris, teve em conta «o espaço, que exigia peças de grandes dimensões, e a procura de um discurso coerente entre elas», afirma Joana. O seu trabalho é versátil: «por exemplo, A Noiva já esteve em espaços tão diferentes quanto o Lux (uma discoteca em Lisboa) e um antigo salão de congressos na Corunha».

A Noiva, obra emblemática de Joana Vasconcelos, é um lustre com 4,7 metros de altura, feito com 14 mil tampões. A obra assenta na fusão de dois símbolos de ostentação burguesa: o lustre e a noiva – «a mulher transformada em bibelot», esclarece a artista.

O toque de contemporaneidade advém do material usado na construção do lustre. Os tampões apelam à «decadência do conceito de perfeição imaculada do branco; apontam a hipocrisia da imagem da noiva pura», no entender de Joana Vasconcelos.

O mesmo princípio pode ser encontrado em Coração Independente, obra destinada a um restaurante em que a artista está actualmente a trabalhar. É um coração feito à imagem do coração de Viana, peça de joalharia tipicamente portuguesa. «É feito de talheres, mas os talheres já não são de prata; o coração é amarelo, mas já não é de ouro», conta Joana. Para esta peça a artista está a utilizar milhares de talheres de plástico, pois o coração «é enorme», conta.

O trabalho desta artista saída das escolas do Ar.Co. evidencia-se pela utilização de materiais pouco convencionais. Desde a primeira obra, realizada em 1994, que Joana surpreende. Ainda recorda quando pediu ao pai 48 contos, para comprar 280 espanadores para produzir Flores do meu desejo – peça que marcou a entrada da artista no mercado da arte contemporânea. «Vivemos numa sociedade de consumo, que é horrorosa mas também fantástica porque cria uma estética; hoje em dia há de tudo, então porque é que a arte não pode ser feita de tudo?», questiona Joana.

João Pinharanda, crítico de arte, destaca o recurso permanente à repetição dos motivos: «A Joana recusa duas vezes a originalidade – e uma dupla negação é, como se sabe, uma afirmação».

Cama Valium é um exemplo da constante repetição. É forrada a comprimidos valium de 5 e 10mg, «assume-se como monumento ao sono, a um sono assistido que pode, inclusivamente aproximar-nos da morte», explica Pinharanda.

Rolos de papel higiénico, colants ou espelhos, tudo se repete incessantemente, criando a «estética de supermercado» de que fala a artista. Mas porque a sociedade industrial não é só a banalização dos objectos, o movimento é outro dos constituintes de algumas das obras de Joana Vasconcelos.

«O movimento não é um adereço, é parte integrante da obra», afirma a artista. Jorge Lima Barreto faz igualmente notar a presença da técnica para desencadear o movimento: «um motor de baixa rotação para activar o disco das bonecas em Fashion victims, motores de antigas máquinas de lavar a roupa impulsionam a rotação dos dois cilindros de collants em Wash and Go», entre outros. «A animação por regimes mecânicos simplistas» é uma espécie de «bricolage low tech», como explica Jorge Barreto.

Joana Vasconcelos afirma-se como artista cujo percurso está em permanente construção: «há uma descoberta de um caminho e o que se faz ao longo do caminho é que nos torna artistas.»

Descubra mais sobre Joana Vasconcelos em http://www.galeria111.pt/index.php?id=6

Ana Cachola e Margarida Peixoto

     
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Margarida Peixoto
ana.peixoto@netcabo.pt