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      As entrelinhas do fado
“Sou do fado/ Como sei/ Vivo um poema cantado/ De um fado que eu inventei” , canta-se na Tasca do Chico. Mas, afinal, o que é o fado, essa canção típica de Lisboa?


 
A.L. Henriques 

Detalhe da guitarra portuguesa
  Uma “canção popular de Portugal, de carácter lamentoso, sempre acompanhada pela guitarra portuguesa” , responde o dicionário. Mas a descrição parece insuficiente face ao sucesso que o fado ganha como representante de Portugal.

Cuca Roseta, de 25 anos, é fadista residente no Clube de Fado, perto da Sé de Lisboa. De roupa moderna e cinto largo vermelho na cintura, apressa-se a dizer “o fado é uma entrega” . Cuca hesita, mas continua. “É uma maneira das pessoas, no dia-a-dia, exprimirem os seus sentimentos ou as emoções. Ou contar histórias, ou falar de amor”.

A ideia presente é a de uma entrega, de um sentir o que é cantado. Nisto os fadistas são unânimes. António Grou, fadista e anfitrião na Esplanada da Mouraria enfatiza, “se não houver sentimento perde-se a tradição”. A sua afilhada nas lides do fado, Cândida de Castro, de maquilhagem carregada e voz sumida, corrobora o que Carlos diz. “Fado é fado, é destino. É preciso sofrer muito para cantar o fado. O fado é sofrimento, é dor.”

Cândida apressa-se a dizer que ama o fado, sim, mas não é fadista, não é profissional. Ela faz questão de afirmar “não se devia chamar o fado de vadio. Não há fado vadio, há fado amador. As pessoas é que são vadias”. Num mesmo pensamento, António Paiva, 56 anos e sapato preto impecavelmente engraxado, chega mesmo a erguer a voz “Não lhe chame vadio, o fado é espontâneo, não é vadio. Vadias são as pessoas que vão lá cantar”. António é o porteiro da casa de fados “Caldo Verde”, numa rua perpendicular à da Tasca do Chico. E não resiste a dar lá uma espreitadela e brincar com o anfitrião: “A Tasca diz ‘Fado Vadio’ à entrada, mas o fado não é vadio”.

Na Severa, casa típica de Lisboa, o fado é apresentado como “a expressão cantada de um estado de alma, melancólico ou alegre, de elogio ou de sátira”. Mas é Sara Reis, fadista bairrista da Mouraria, com um xaile bem posto entre os ombros, quem resume, com ironia, “Quando o fado for para o conservatório deixa de ser fado”.

     
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Marisa Figueiredo
marisa.fig@gmail.com