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Viajantes Anglófonos em Portugal - Séculos XVIII e XIX

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Cartas sobre a Sociedade e os Costumes de Portugal 1778-1779
Tradução: Augusto Reis Machado

Portugal, 1989
Lisóptima Edições, Lda.
Língua da tradução: Português
Língua obra original: Inglês

 Edição principal:  COSTIGAN, Arthur William, Sketches of Society and Manners in Portugal, s/d [1787]

 Traduções:  Cartas de Portugal 1778-1779, Portugal, 1946
Lettres sur le gouvernement, les moeurs et les usages en Portugal, França, 1810
Cartas sobre a Sociedade e os Costumes de Portugal 1778-1779, Portugal, 1989
Cartas de Portugal sobre a sociedade e os costumes 1778-1779, Portugal, 1989
Retratos de Portugal. Sociedade e Costumes, Portugal, 2007

 Edição 
Editora:Lisóptima Edições, Lda.
Volume:I e II
Endereço do editor:Rua da Graça, 140-2º 1100 Lisboa
Local de impressão:Eurolito
 Notas e informações 
 Referência 
Cota:U. 26.1 e .2
ISBN/ISMN:972-9394-01-6
 Autor 

 Notas gerais 

Prefácio e Notas de Augusto Reis Machado

APRESENTAÇÃO

Importantes por nos revelarem o modo como Portugal surgiu outrora aos olhos de estrangeirados, os relatos de viagem possuem também o valor de em muito contribuirem para a reconstituição da história social portuguesa, dada a produsão e heterogeneidade das informações que veiculam sobre a vida da época. Ao contrário de outros países em que se tem procedido ao estudo do quotidiano através dos tempos, não existe praticamente entre nós uma bibliografia versando em exclusivo essa temática. Com efeito, os livros de viagens constituem, a bem dizer, as únicas descrições do 'modus vivendi' de séculos passados, uma vez que aos estrangeiros interessou registar as constantes novidades que se lhes deparavam, as quais não passavam, para os naturais, de mera rotina.
Tendo em conta esta carência, torna-se óbvia a relevância dos relatos que forasteiros de visita a Portugal nos deixaram, pois que esses depoimentos encerram uma imagem do nosso país muito útil para a caracterização da sociedade portuguesa, como os próprios historiadores reconhecem.
"Sketches of Society and Manners in Portugal", cuja tradução «Lisóptima Edições» agora reedita, ocupa um lugar importante no contexto da literatura de viagens sobre Portugal. Publicada pela primeira vez em Londres, em 1787, esta obra conheceu no ano seguinte uma outra edição em língua inglesa, e ainda antes do final do século (1796-97) foi lançada, igualmente em Londres, uma versão abreviada, da autoria de William Fordyce Mavor, com o novo título de "Travels in Portugal, chiefly relative to society and manners in that country".
Também em França, pátria de muitos viajantes que nos visitaram e, posteriormente, fizeram descrições do nosso país que ficaram famosas, o livro de Costigan foi divulgado, concretamente através de duas edições sucessivas, uma de 1810 e a outra de 1811, ambas com o mesmo título: "Lettres sur le gouvernement, les moeurs et les usages en Portugal".
No caso português, embora desde o século XIX tenham sido vários os estudiosos que se debruçaram sobre a obra de Costigan, só no século XX este relato de viagem foi vertido para a nossa língua por Augusto Reis Machado (1887-1966), conceituado investigador e ensaísta que dedicou muito do seu trabalho ao estudo sistemático dos livros estrangeiros sobre Portugal. Autor da tradução, feita a partir da edição inglesa de 1787, Reis Machado deu a conhecer ao público português, em 1946, a narrativa de Costigan na íntegra: "Cartas de Portugal (1778-1779).
Quase meio século volvido após essa data, eis que surge a oportunidade de reeditar a tradução, introduzindo-lhe agora correcções ao prefácio e ao texto que o próprio Reis Machado deixou inéditas e que ficam assim acessíveis ao público. Através desta publicação, enriquecida com iconografia relacionada com o conteúdo da obra, os leitores poderão tomar contacto comum saboroso relato setecentista sobre Portugal, célebre pelas apreciações profundamente negativas que o seu autor faz relativamente à sociedade portuguesa.
Na época em que este livro, assinado pelo militar Arthur William Costigan, foi dado à estampa, Portugal passara a constar frequentemente dos roteiros dos viajantes britânicos, quer aqueles que se movimentavam pelas já antigas razões de ordem política, militar ou comercial, quer os que, dispondo de tempos e de dinheiro, se deslocavam agora pelo valor educativo e pelo simples entretenimento que as viagens sempre possuem e proporcionam. Vários destes forasteiros deixaram para a posteridade descrições de Portugal, as quais se enquadravam numa vasta produção de relatos de viagem que já tinha uma importante tradição na Grã-Bretnha, mas que contava ainda com poucos títulos no que dizia respeito a este país da Península Ibérica.
É certo que o Terramoto de 1755 desempenhou um papel decisivo no sentido de despertar o interesse da Europa pela realidade portuguesa. Na Grã-Bretanha, antes da obra de Costigan, foram editados relatos como "Travels through Portugal and Spain, in 1772 and 1773" (1775), de Richard Twiss, e "Travels through Spain and Portugal in 1774, with a short account of the Spanish Expedition against Algiers in 1775 (1777), do major William Dalrymple, este último semelhante ao de Costigan na dureza dos juízos feitos em relação a Portugal. Mas estes livros de viagens, apesar de constituirem passos significativos para a divulgação de Portugal além da Mancha, não foram grandes êxitos editoriais, nem os nomes destes viajantes se tornaram conhecidos do grande público. Seria necessário mais algum tempo para o surgimento de figuras de proa neste domínio, como James Cavanah Murphy, William Beckford e Robert Southey - isto para nos cingirmos apenas ao século XVIII - todas elas responsáveis por obras importantes e que exerceram uma influência digna de nota nas gerações posteriores de viajantes.
"Sketches of Society and Manners in Portugal", de Costigan, tem relevância neste historial da literatura de viagens sobre Portugal de autoria britânica por se ter tornado em leitura frequente entre todos aqueles que, após a data da sua publicação, aqui vieram. Era costumeos viajantes documentarem-se sobre os países que estavam prestes a visitar, através da consulta de livros de viagens acerca desses mesmos lugares. Robert Southey, o primeiro lusófilo inglês, que esteve em Portugal, pela primeira vez, entre 1795 e 1796, pode ser encarado como testemunha desta prática. Com efeito, na sua obra de 1797, "Letters Written During a Short Residence in Spain and Portugal", considera o relato de Costigan como «[...] um livro aparentemente tão romântico - na realidade tão verdadeiro!», querendo com estas palavras corroborar a má imagem sobre Portugal e os portugueses que aquele militar transmitira. Este seu brave apontamento alerta-nos para dois aspectos a reter: por um lado, que a obra de Costigan circulou efectivamente entre o público viajante da época e, por outro, que contribuiu decisivamente para a formação de pré-conceitos nas mentes daqueles que mais tarde aqui se deslocaram.
Tomando ainda Southey como exemplo, temos de reconhecer que o factp de "Sketches of Society and Manners in Portugal" ser um dos livros mais detractores de Portugal teve influência no modo como este lusófilo veio a 'olhar' o nosso país. O relato de viagem é fruto da relação EU (viajante) versus OUTRO (realidade estrangeira), mas é preciso não esquecer que a visão do forasteiro não se baseia só no contacto directo que estabelece com um espaço desconhecido, é também condicionada pelas ideias que construiu a priori, nomeadamente por intermédio da assimilação de opiniões de autores lidos. Fica assim sublinhada a repercussão da obra de Costigan, citada em variados relatos (ao de Southey podemos acrescentar, como exemplos, os de Heinrich Link, Marianne Baillie e William Kingston), e igualmente o seu papel na consolidação de uma imagem desfavorável de Portugal que outros viajantes de setecentos e de oitocentos herdaram, partilhando-a ou desdizendo-a.
O modo como o autor de "Sketches of Society and Manners in Portugal" nos apresenta a sua visão de Portugal - através de cartas endereçadas ao irmão residente na Grã-Bretanha - merece também algum destaque. Assim, é de salientar a forma epistolar escolhida por Costigan para estruturar a sua narrativa, processo este especialmente eficaz como meio de conferir autenticidade ao relato e que, no presente caso, é reforçado pela introdução de pequenas histórias e reproduções de conversas envolvendo diversas personagens que o autor diz ter conhecido enquanto permaneceu neste país peninsular.
A relativa escassez de informações de utilidade prática, como distâncias, preços, etc... É outro aspecto que merece ser apontado. Não nos devemos esquecer que os livros de viagens setecentistas tendiam para a descrição, o mais objectiva possível, do que fora dado observar aos seus autores, os quais procuravam abarcar um vasto leque de áreas - a história, a geografia, a política, as instituições, os costumes, a arte, etc. - numa tentativa de evidenciar um saber de cariz enciclopédico, típico deste período. Com os alvores do Romantismo, os escritores de livros de viagens começaram a desviar-se desta orientação primordialmente descritiva e optaram por uma posição mais pessoal, interpretando a nova realidade que os cervava de acordo com as suas maneiras de ver e tornando-se eles próprios as figuras centrais das narrativas.
Atendendo a este contexto, o relato de Costigan surge como uma obra de transição, pois não só pretende informar sobre a sociedade e os costumes de Portugal, como o faz de uma forma peculiar, instituindo-se o seu autor como personagem, uma vezes participando activamente nos acontecimentos, outras sendo apenas espectador, mas não se coibindo nunca de emitir as suas opiniões.

Junho de 1989.

Maria Zulmira de Sousa

(Assistente da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas
da Universidade Nova de Lisboa
Departamento de Estudos Anglo-Portugueses)

PREFÁCIO

Nenhuma coisa desta vida humana é tão
aproveitável aos viventes que lembrança e memória
dos bens e males passados, para do mal
nos guardarmos, regendo a vida para neles não
cairmos segundo os bons fizeram.

Gaspar Correia

Não é das menores curiosidades que, sendo
Portugal tão bem conhecido no estrangeiro, o
próprio povo não reconheça os seus hábitos,
costumes e tendências, a génese de cada um deles,
os que se torna mister suprimir e os que se torna
necessário aperfeiçoar.

Pedro de Azevedo

O PRESENTE trabalho constitui a primeira tradução portuguesa [existe um resumo manuscrito em português na Colecção pombalina da Biblioteca Nacional de Lisboa, com o título de "Cartas Noticiosas"] da obra intitulada "Sketches of Society and Manners in Portugal", de Arthur William Costigan. José Maria Latino Coelho, na sua "História Política e Militar de Portugal", aponta o autor como «notável pela sua causticidade e algumas vezes pela eacção dos seus juízos». (T. 1º, cap. I). A feição cáustica das obras estrangeiras sobre a sociedade portuguesa, especialmente no século XVIII, é muito vulgar; a sua exacção entra no âmbito da relatividade que caracteriza toda e qualquer ciência, mas, por forma muito mais acentuada ainda, a História.
O conhecimento científico, não imutável, é um conjunto de aproximações que lentamente avança no meio de dados que vão deixando de ser aceites para dar lugar a outros, é uma conquista sem fim. É uma aspiração de unidade que vai sendo quebrada para novamente e sob uma forma nova se reconstituir. E por vezes até velhos dados repelidos como falsos voltam a ser outra vez aceites e entram numa nova construção.
Vastíssimo é o domínio da História, a sua complexidade é extrema e tem por centro toda a acção humana, resultado de necessidades, interesses, aspirações, paixões, ideias, geradores da vida das sociedades. Essa acção apenas a conhecemos por meio de vestígios que deixou; esses vestígios são os documentos. Ora os documentos constituem os únicos dados que se deparam ao estudo do historiador, muito reduzidos, insignificantes perante a grandeza da acção humana efectuada. E esses poucos dados têm de ser submetidos a um cuidadoso, paciente exame, a fim de se apurar a sua autenticidade, a sua proveniência, e, seguidamente, conhecer o seu autor , saber o que ele quis dizer, se acreditava no que disse, e se tinha fundamento para acreditar no que acreditava. Trabalho difícil e imenso. E, realizado ele, senhor desses dados colhidos e analisados, o historiador tem de imaginar os factos cuja existência os documentos revelam. O documento é o ponto de partida, o facto o ponto de chegada. Depois tem de agrupar os factos e, agrupados eles, ampliá-los numa construção sintética, numa visão de conjunto. Os documentos foram os dados estranhos, múltiplos, a que o historiador imprimiu uma unidade sua, produto de uma intuição e muitas vezes de uma doutrina, unidade inconfirmável. E nessa unidade influem o espírito, as correntes e as tendências da época em que o historiador vive. No entanto estabelecem-se contrastes, notam-se balizas a marcar avanços, no meio de recuos vislumbram-se directrizes, obtêm-se ensinamentos, conhecem-se as abomináveis paixões geradoras de guerras, os vociosos costumes corruptores das sociedades, mas também as fortes afirmações de santidade e heroísmo que incitam a Humanidade a crer em si mesma. E, assim, com a História a Humanidade aprende e, ainda que ziguezagueamente, caminha.
Os "Sketches of Society and Manners in Portugal" é um documento histórico. Qual a sua exactidão, qual a sua exacção? Latino considerou o autor notável «algumas vezes pela exacção dos seus juízos». Apenas algumas vezes; doutras, com efetio, apresenta juízos que poderão ser contraditados com argumentos de peso e faz afirmações que, em bastantes casos, parecem ser puramente fantasiosas, outras vezes falsas em certos pormenores, atendendo ao que se conhece doutras informações históricas. No entanto, o autor certifica a veracidade do que afirma.
A filha de um oficial francês, o qual figura em várias páginas da obra, Louise de Valleré, num apêndice da sua edição bilingue do "Elogio Histórico" de Guillaume-Louis-Antoine de Valleré, por Garção Stockler (Paris, 1808) escreve o seguinte, referindo-se às cartas que constituem os "Sketches":
«Ninguém hoje ignora que o brigadeiro F... É o verdadeiro autor das sobreditas cartas, o qual pelo seu mau carácter moral e opiniões religiosas, foi constrangido a largar o comando do regimento de artilharia do Minho e a sair de Portugal, no primeiro ano do reinado de Sua Majestade que Deus guarde. Este homem, para exalar o veneno que lhe roía o coração contra o governo e a nação portuguesa, dos quais se considerava ofendido, serviu-se de um nome suposto para merecer mais crença e soltar livremente as rédeas à sua maledicência, escrevendo um amontoado de calúnias e vitupérios contra a nação em geral, e, em particular, contra todos aqueles que tiveram tinção viajando em Portugal e, nas conversações que os faz ter com diversas pessoas, não hesita um só momento em comprometer nomes respeitáveis, contanto que satisfaça a sua raiva e o desejo insaciável que tem de dizer mal, tando a baixeza e infâmia de atribuir às pessoas, com quem supõe falatr, o que somente escreveu a sua pena, sugerido pela sua imaginação. Uma delas foi meu pai, e por esta razão me propus mostrar a falsidade de tudo o que lhe fez dizer.
«Lembro-me muito bem do brigadeiro F... ter estado em Elvas, e ser aí hospedado por meu pai, que o recebeu com aquela afabilidade e franqueza que lhe eram naturais, e com que recebia todas as pessoas; duvido porém muito que ele lhe contasse alguns dos sucessos da sua vida, e, se o fez, o brigadeiro F... Os alterou de maneira que posso afirmar não haver uma só verdade em toda a sua narração.»
Louise de Valleré publica a seguir ao apêndice uma carta do pai, datada de 1774, com que identifica o brigadeiro F... como sendo um oficial chamado Ferriere.
Trata-se, evidentemente, de Diogo ou James Ferriere (aliás Ferrier) que, em 1762, entre outros oficiais estrangeiros acompanhou a Portugal o conde de Schaumburg-Lippe. Segundo Louise de Valleré, seria portanto Diogo Ferrier o autor dos "Sketches", não passando de um pseudónimo com que quis ocultar-se o nome de Arthur William Costigan. A não ser que fosse este o nome verdadeiro e o de Diogo Ferrier o pseudónimo. O mercenarismo era vulgar na época, a ele recorriam aventureiros, nobres arruinados, foragidos, indivíduos sem eira nem beira, em busca de situações de artilharia, a afluência daquela gente era enorme. E muitos não se apresentavam com os seus verdadeiros nomes. Seria este o caso de Costigan? Não é de crer.
Diogo Ferrier é dado com nascido na cidade de Santo André, na Escócia, em 1734. E a ajuizar pelo nome e pelas ideias religiosas, devia ser de origem francesa, filho de um huguenote que, pela revogação do Édito de Nantes (1685), se teria acolhido à Inglaterra e aí permanecido. Entrou ao serviço de Portugal em Agosto de 1762, na qualidade de capitão de infantaria, com exercício de engenheiro, e nessa qualidade construiu a ponte de Ortiga. Foi rápida a sua carreira: sargento-mor de infantaria em Março de 1763, ano em que os organizou o regimento de artilharia de Lagos [exigiu então do governador da praça, segundo parece, que mandasse retirar de uma determinada casa seus moradores, para nela se alojar, exigência que não foi atendida], coronel no regimento de artilharia do Porto, com sede em Valença do Minho, em Agosto de 1765. Desde esse ano até 1780, em que pediu a demissão e regressou a Inglaterra, foi comandante desse regimento, salvo nos espaços de tempo em que, mediante licença, esteve seis meses na Alemanha, onde foi instruir-se junto do conde de Lippe no serviço de artilharia (1773) e em que permaneceu em Faro (1774-1775) a organizar o regimento de artilharia. Teria então estado em Elvas, onde conheceu Valleré, conforme testemunho da filha. Nesse mesmo ano de 1775, em Junho, foi elevado ao posto de brigadeiro. Em Valença foi encarregado dos trabalhos de fortificação, para pôr a praça em estado de resistir a um cerco formal, e de leccionar na Aula Real de Artilharia, escola profissional para formar graduados na teoria e na prática daquela arma.
Havia em Valença, além de Ferrier, trinta e seis oficiais, treze dos quais eram estrangeiros (dois ingleses, dois escoceses, um irlandês, dois franceses, um alemão, um suíço, três italianos e um espanhol). Entre os oficiais portugueses figurava o tenente José Anastácio da Cunha, futuro lente de matemática na Universidade de Coimbra e futuro autor da "Carta Físico-Matemática, dos Princípios da Matemática" e de várias "Memórias" sobre mecânica, trabalhos de mérito. Igualmente tem o seu nome ligado à literatura pelas muitas poesias que deixou. Em 1778, já em Coimbra, foi denunciado à Inquisição por defender ideias contrárias à religião católica. Preso, confessou as culpas de que o arguiam, acusou a influência de vários oficiais estrangeiros da guarnição de Valença, entre os quais Diogo Ferrier, e mostrou-se contrito. Condenado, teve como pena o sair em auto-de-fé, ser recluso por três anos numa casa da Congregação do Oratório, ser degredado quatro anos para Évora, ficando-lhe defeso o nunca mais voltar a Coimbra e Valença. Cumprido o triénio na casa dos congregados, foi-lhe remitida a restante expiação e veio a ser escolhido por Pina Manique para professor de matemática na Casa Pia.
Os oficiais da guarnição de Valença ocupavam com efeito os seus ócios em discussões foliosóficas em que a Igreja era rudemente atacada; lia-se Hobbes, Voltaire, Rousseau... Chegaram a achincalhar o cerimonial católico, celebrando as exéquias fúnebres de um cão do capitão inglês Richard Müller nos fossos da praça. Além de discussões filosóficas : jogo, vinho e mulheres e questões de intrigas. De uma dessas questões resultou ter sido Diogo Ferrier acusado por um sargento-mor, António Soromenho, de culpas graves, como: livrar do serviço muitas praças fazendo-as passar por mortas; não mandar fazer conselho de guerra a vários criminosos do regimento, dar licença de cinco meses e mais a alguns oficiais com o pretexto de estarem em diligência; indo a Valença uns comerciantes ingleses, ter mandado, para os obsequiar, fazer um exercício pelo regimento, o qual durara desde a alvorada até o recolher, gastando nisto muita pólvora e fazendo lançar muitas bombas de noite, só para ver o efeito que faziam no ar; de aplicar em seu proveito muitas madeiras, ferro, etc., que eram destinados ao laboratório do regimento.
Seriam aleivosas ou exageradas estas acusações? O facto é que destas desavenças resultou a prisão por seis anos de Soromenho, findos os quais foi restituído à liberdade e ao mesmo regimento (acabava de subir ao trono D. Maria I). Já em 1767, em resultado de uma inspecção feita por um oficial inglês [o coronel de artilharia e inspector dos corpos da arma John Macbean], foi escrito um relatório em que era severamente censurada a administração do regimento. Ferrier continuou, todavia, no posto de comando.
Em 1 de Junho de 1775, tendo Ferrier regressado ao regimento depois da ausência de um ano no Algarve e persuadido vários oficiais inferiores de que ele não era amigo de Jean Python, francês e comandante interino, nem de Miron de Sabionne, tenente-coronel suíço, mascararam-se para festejar a chegada do brigadeiro e para o lisonjear foram recitar em frente da janela do tenente-coronel a trova seguinte:

Já lá vai Python
Viva Ferrier e morra Miron

O brigadeiro, em vez de reprimir o desacato, mandou oferecer aos sargentos, já então à ordem do governador da praça, garrafas de vinho. Miron veio a tomar o comando do regimento em 1780, quando Ferrier se retirou.
Sob nenhum aspecto corria, segundo parece, muito bem a vida da guarnição de Valença. Em 1777, com o falecimento do rei D. José, abandonava o poder o Marquês de Pombal, tomava conta do governo a devota rainha D. Maria I e, pouco depois, procedeu-se a uma devassa inquisitorial na importante praça nortenha, considerada como um foco de pestilência mental devido à influência dos oficiais estrangeiros. Foram presos vários oficiais (alguns estrangeiros), que vieram a figurar no auto-de-fé em que saiu José Anastácio da Cunha. Não tocaram nos oficiais estrangeiros de patente superior por estarem ao abrigo da alçada inquisitorial. Por isso as acusações de José Anastácio da Cunha, e ele naturalmente o sabia, não podiam ter seguimento. Atingido, no entanto, por esses sucessos, Diogo Ferrier pediu a demissão e regressou a Inglaterra. Diz Louise de Valleré: ter sido «constrangido a largar o comando do regimento de artilharia do Minho e a sair de Portugal», e data esse facto de 1777.
Não repugna admitir, perante a composição dos "Sketches" e os depoimentos da época, que o carácter de Ferrier deixasse bastante a desejar aos seus adversários, assim como a sua imparcialidade. Ultrapassa bastante os limites que uma crítica elevada estabelece para ajuizar dos homens e das instituições, e que Ferrier parece admitir, invocando a Razão e a Filosofia, mas que contradiz, por vezes, nos seus relatos, e também, segundo parece, na própria vida. Aliás, a Razão e a Filosofia não revestiram, na maioria dos espíritos contemporâneos de Ferrier, a feição verdadeiramente racionalista e filosófica, peculiar aos grandes pensadores; eram uma Razão e uma Filosofia fechadas, apesar das suas pretensões, eram objectos de culto, feitiços de si mesmas. Os chamados filósofos constituíam, de facto, uma seita, um partido. Uma decidida submissão ao dado e à razão, simultaneamente conjugados num esforço imparcial de compreensão progressiva, era neles mais aparente do que real. Demasiadamente abstractos no meio dos seus intuitos concretos, intolerantes no meio da sua tolerância, poucas vezes se colocaram num plano superior largamente humano e rigorosamente críticos. Ferrier enfileira-se mais no grupo dos primeiros autores, a que se refere a Carta XX, do que no daqueles em que pretende figurar.
Notificar os costumes considerados maus e atacá-los na intenção de os modificar, é uma atitude nobre; reduzir um ser humano, uma dinastia, uma classe, uma instituição a um amontoado de vícios e de defeitos constitui uma visão acanhada e estreitamente apaixonada. Há sempre que ressalvar o lado bom da natureza humana, ainda que se ataque, e mesmo vigorosamente, o mau. Há, porém, que ter dó da miséria alheia e não rancor, há que combater com generosidade e não com mesquinhez. Há que ser superiormente verdadeiro. E Ferrier poucas vezes toma esta atitude. As suas figuras são artificiais, caricaturais. Os "Sketches" apresentam a feição de um romance (por vezes humorístico, outras dramático) e de um panfleto político e religioso. No entanto, apresentam grande utilidade histórica. Já vimos quanto relativo é o valor de toda a produção humana. Em toda ela há romance, manifestações panfletárias, desde qualquer trabalho filosófico, com os seus deslumbrantes songos explicativos e disposições combativas, até qualquer obra de História, instrumento de uma doutrina. Nos romances, no meio de uma manifesta fantasia, há, no entanto, profundas intuições da realidade. Há uma profunda vida real na obra de um Shakespeare ou de um Dostoiewski, mais viva e real, vasta e profunda do que em muitas obras históricas ou tratados de Psicologia. O homem é um animal que essencialmente imagina. Enorme valor possui a sua imaginação: sem ela nem mesmo a matemática existiria.
O rigor crítico é uma aproximação, um ideal, como já foi dito; importa, no entanto, desejá-lo fortemente e esforçar-se cada um por o atingir tanto quanto possível, sempre numa atitude de sobreaviso acerca das fraquezas da natureza do homem e de respeito perante o desconhecido, perante o mistério que fundamentalmente tudo envolve.
Nos "Sketches" há fantasia, há erros, há exageros, há má vontade, há incoerência, há até personagens com nomes históricos de mistura com outros que não axistem no onomástico português, há transposição de casos passados com o autor como sendo passados com outros. Por toda a parte se infiltra e, apaixonadamente, a doutrina política e religiosa do autor, o que testemunha o motivo da sua saída de Portugal, a que se refere Louise de Valleré, dada a intolerância que presidia à pública governação. Ferrier era partidário das novas ideias filosóficas que, então, irrompiam por toda a parte, e contra as quais o intendente Pina Manique tentou levantar uma intransponível barreira.
Assim Ferrier arremete contra a Igreja católica e contra o seu clero. A Igreja era um dos principais alvos dos ataques dos chamados 'filósofos'. Ataca igualmente os judeus. E aos judeus, à Igreja e ao absolutismo atribui, numa estreita visão explicativa, todos os males de Portugal.
Nos "Sketches" há, no entanto, muito justas considerações, pensamentos altamente generosos, aspirações de uma Humanidade melhor, ideia aliás vulgar na sua época. E nos "Sketches" encontra-se o sentimento de um estrangeiro (aventureiro ou não, pouco importa) vindo do seio de uma Civilização em marcha, perante uma sociedade fundamentalmente estagnada: a sociedade portuguesa do século XVIII. Civilização não isenta de vícios e defeitos, muito longe disso; porém, em luta permanente e intensa contra eles, desmascarando-os, vituperando-os, modificando as condições sociais e económicas facilitadoras da sua existência. Luta resultante da recíproca acção e reacção entre os seus literatos, artistas, filósofos, sábios, inventores, economistas, políticos, religiosos... E o século XVIII vinha afirmando-se fecundo. Apresentava nomes como os de Watt, Franklin, Berkeley, Adam Smith, Pitt, Rousseau, Mozart, Kant, Wesley e tantos outros. Bastantes portugueses sentiam o atraso nacional, reconheciam os vícios de pensamento e de acção de que estava eivada a sociedade portuguesa e queriam dar-lhe remédio. Eram os chamados 'estrangeirados': D. Luís da Cunha, António Ribeiro Sanches, Luís António de Verney, Francisco de Lemos, Correia da Serra, duque de Lafões, Frei Manuel do Cenáculo, Gomes de Avelar... Alguns deles foram colaboradores do Marquês de Pombal, que em parte também pertenceu a essa família, mas que, devido ao seu temperamento violento, ligado a uma estreita visão política, falseou por completo a obra que se impusera. António Sérgio, intitulando aqueles 'estrangeirados' de «plêiade brilhantíssima», acrescentou: «cuja obra Pombal não fez mais do que deturpar, caricaturar e comprometer» (revista "Pela Grei, 1918). A alguns deles se deve a Academia das Ciências de Lisboa, fundada no reinado da rainha D. Maria I, e que se tornou notável não só pela publicação de trabalhos de reconhecido valor, mas abriu anualmente concursos para importantes questões de Física, Química, Biologia, Agricultura, Indústria e Comércio, distribuiu aos lavradores prémios de cultura, espalhoou instruções tendentes a melhorar o cultivo dos campos, etc. Constituiu a primeira tentativa séria de renascimento no Portugal moderno.
Ferrier pertenceu à família mental dos 'estrangeirados'. Frisa o contraste entre o Portugal antigo e o Portugal moderno e, numa lúcida visão, salienta os defeitos dominantes: a ausência de uma forte preocupação moral, uma sensualidade avassaladora, uma graça torpe e soez, uma linguagem desregrada, uma enorme falta de cultura, práticas supersticiosas em vez de verdadeiro sentimento religioso, um acentuado relaxamento de costumes, uma excessiva indulgência perante os próprios defeitos e os defeitos das pessoas amigas. E perante os abusos, a sinjustiças, nota rigor, sim, mas apenas quando se trata de interesses pessoais feridos ou de ameaças à política reinante. Ataca especialmente os dirigentes representados pelo clero e pela nobreza. Salienta, por outro lado, as qualidades do povo (omitindo os seus defeitos), representado pelos camponeses e pelos soldados. Observação esta feita por outros viajantes estrangeiros que vieram a Portugal e corroborada, em pleno regime liberal (falseador igualmente, como o absolutismo pombalino, da obra que planeara), por afirmações de portugueses contemporâneos, como Adolfo Coelho, referentes às boas qualidades do povo português «que contrastam por vezes singularmente com as dos chamados dirigentes» (revista "Portugalia", 1905).
Os 'estrangeirados' tiveram continuadores. Assim, Alexandre Herculano, Antero de Quental, Oliveira Martins, Eça de Queirós e outros altos espíritos lançaram directrizes para uma vida nova que reintegrasse Portugal no mundo civilizado, a que ele plenamente pertenceu nos séculos XV e XVI e que com tanto brilho ajudou a formar. Com eles surgiu uma maior consciência dos defeitos nacionais e o conhecimento dos próprios defeitos é a base primeira para uma radical transformação.
A corrente criada pelos 'estrangeirados' e por eles não se perdeu; para triunfar, porém, tem de assentar numa visão mental mais vasta e profunda, mais em conformidade com o espírito da Civilização, espírito que tem ido buscar, através dos séculos, ao helenismo, aos cristianismo e à ciência experimental, fecundos elementos de vida e de progresso. Tem de assentar num íntimo contacto com o povo, suas necessidades, no intuito de o elevar a uma existência de maior espiritualidade e também no intuito de a ele ir colher energia e fé. E repudiando nefastas tradições de sensualidade e parasitismo, gerar tradições novas, «tradições fortes, próprias a dar ao carácter de um grande número de indivíduos uma propensão natural para a iniciativa, o trabalho produtivo, o empreendimento audacioso, a independência pessoal combinada com o espírito de disciplina voluntára», como recomenda aos portugueses Léon Poinsard no volume 2º do seu "Portugal Desconhecido".
Nas boas qualidades da grande massa popular, nos seus sentimentos de generosidade, afabilidade, delicadeza e resistência, na cultura renovada dos dirigentes em combinação com processos eficazes e técnicas reflectidas de uma educação estimulante e sã e com um modo de ser económico mais equitativo e que melhor permita o desenvolvimento da personalidade, pode assentar a esperança de uma completa renovação de Portugal. De Portugal, não província espanhola, como preconizou Diogo Ferrier - mostrando assim desconhecer Portugal e Espanha, nas suas realidades profundas - mas Portugal independente.

Augusto Reis Machado

 

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