No seguimento do trabalho de produção elaborado nos últimos cinco anos nos ciclos de cinema Buster Keaton, Yasujiro Ozu, Westerns de John Ford, Sonhos e Visões e Os Filmes da Nossa Casa, o
Núcleo de Programação Cinematográfica a Mediateca da FCSH apresentam este ano, entre 9 a 28 de Junho, o Ciclo de Cinema italiano «A Prova do Real».
Nele se reúnem alguns dos momentos essenciais que marcaram, desde o pós-guerra, o confronto do cinema com a realidade, passada a época de ouro dos estúdios americanos e desfeitas as ilusões humanistas da primeira metade do século XX.
De Visconti a Rossellini, de Fellini a Antonioni, este «cinema do encontro», como lhe chamou Cesare Zavattini, assumiu múltiplas formas e materializou-se em vocabulários formais e dramáticos muito distintos. Apesar disso, porém, permanece constante o que André Bazin designou pelo «primado da representação» sobre as leis e regras da dramaturgia clássica, o que muito bem fica expresso pelo antagonismo entre os dois filmes de abertura deste programa:
Obsessão, de Luchino Visconti e
The Postman Always Rings Twice, de Tay Garnett, ambos adaptados do mesmo romance de James M. Cain, sendo o primeiro percursor «autorizado» do neo-realismo italiano e o segundo exemplo típico das convenções do estúdio e da sua respectiva dramaturgia.
A influência da proposta italiana na modernidade do cinema foi extrema. Dela -- e da coragem dos seus realizadores -- derivam todas as «Novas Vagas» que marcaram o início da década de 60 -- da França à Alemanha, de Portugal ao Brasil -- e cujos efeitos são ainda retumbantes no cinema contemporâneo. Deleuze apelidou-a de «revolução semiótica», chamando a atenção para o modo como o cinema italiano do pós-guerra materializou um novo tipo de signos («cristalinos» e não mais «orgânicos») que possibilitou à arte e à linguagem continuar a falar da vida, depois da barbárie e da pulverização holocáustica dos mitos do progressismo civilizacional. Como Miguel Ângelo -- que falava da escultura como a arte de extrair da pedra a estátua que «já lá está» --, também os cineastas italianos procuraram, simplesmente, extrair da vida, os filmes que o próprio real já continha. É um cinema da «revelação» e não da produção; um cinema de combate, que se materializou em filmes únicos e irrepetíveis, chamem-se eles
Roma, Cidade Aberta ou
O Eclipse,
Noites de Cabíria ou
Caro Diário,
Ladrões de Bicicletas ou
Blow-Up.
Como habitual, será editado um catálogo relativo ao ciclo com as respectivas fichas técnicas, sinopses e ensaios críticos. O catálogo estará disponível para venda nas sessões do ciclo, assim como as edições publicadas anteriormente.
Programação do Ciclo
Segunda-feira 16 de Junho, 18h30, Aud. 1
Ossessione, de Luchino Visconti
Sessão apresentada por David Santos (Director do Museu do Neo-realismo).
Segunda-feira 16 de Junho, 21h30, Aud. 1
The Postman Always Rings Twice, de Tay Garnett
Sessão apresentada por João Mário Grilo (Realizador).
Terça-feira 17 de Junho, 21h30, Aud. 1
Roma, città aperta, de Roberto Rossellini
Sessão apresentada por Luís Miguel Oliveira (Crítico).
Quarta-feira 18 de Junho, 21h30, Aud. 1
Cronaca di un amore, de Michelangelo Antonioni
Sessão apresentada por Fernando Matos Silva (Realizador).
Quinta-feira 19 de Junho, 22h, Aud. 1
Stromboli, de Roberto Rossellini
Sessão apresentada por Alberto Seixas Santos (Realizador).
Sexta-feira 20 de Junho, 18h30, Aud. 3
Ladri di biciclette, de Vittorio De Sica
Sessão apresentada por António Escudeiro (Realizador).
Sexta-feira 20 de Junho, 21h30, Aud. 3
Umberto D., de Vittorio De Sica
Sessão apresentada por Vasco Câmara (Crítico).
Sábado 21 de Junho, 18h30, Aud. 1
I Vitelloni, de Federico Fellini
Sessão apresentada por Raquel Freire (Realizadora).
Sábado 21 de Junho, 21h30, Aud. 1
Le Notti di Cabiria, de Federico Fellini
Sessão apresentada por Rui Zink (Escritor).
Segunda-feira 23 de Junho, 21h30, Aud. 1
Viaggio in Italia, de Roberto Rossellini
Sessão apresentada por Catarina Alves Costa (Documentarista).
Terça-feira 24 de Junho, 21h30, Aud. 1
La Strada, de Federico Fellini
Sessão apresentada por Paula Moura Pinheiro (Jornalista).
Quarta-feira 25 de Junho, 21h30, Aud. 3
Mamma Roma, de Pier Paolo Pasolini
Sessão apresentada por João Botelho (Realizador).
Quinta-feira 26 de Junho, 18h30, Aud. 3
L'Eclisse, de Michelangelo Antonioni
Sessão apresentada por Maria Filomena Molder (Filósofa), com a presença de José Fonseca e Costa (Realizador; estagiário no filme).
Quinta-feira 26 de Junho, 21h30, Aud. 3
Blow-up, de Michelangelo Antonioni
Sessão apresentada por Pedro Sena Nunes (Realizador).
Sábado 28 de Junho, 18h30, Aud. 1
Amarcord, de Federico Fellini
Sessão apresentada por António Fernando Cascais (Professor Universitário).
Sábado 28 de Junho, 21h30, Aud. 1
Caro diario, de Nanni Moretti
Sessão apresentada por Miguel Valverde (Programador).
Mesa redonda com Miguel Valverde, João Mário Grilo, e José Pedro Ribeiro (Director do ICA)
Vídeos:
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Núcleo de Programação CinematográficaLocal: Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.
Entrada: Livre