|
ALEGORIA
Aquilo que
representa uma coisa para dar a ideia de outra através de uma ilação
moral. Um bom exemplo em português é-nos apresentado pelo Padre António
Vieira: “Notai uma alegoria própria da nossa língua. O trigo do
semeador, ainda que caiu quatro vezes, só de três nasceu; para o sermão
vir nascendo, há-de ter três modos do cair: há-de cair com queda, há-de
cair com cadência, há-de cair com caso. A queda é para as coisas, a
cadência para as palavras, o caso para a disposição. A queda é para as
coisas, porque hão-de vir bem trazidas e em seu lugar hão-de ter queda;
a cadência é para as palavras, porque não hão-de ser escabrosas, nem
dissonantes, hão-de ter cadência; o caso é para a disposição, porque
há-de ser tão natural e tão desafectado que pareça caso e não estudo:
Cecidit, cecidit, cecidit.”
(Sermão da
Sexagésima, V, Obras Escolhidas, vol.XI, Sá da Costa, Lisboa, 1954,
p.222).
Etimologicamente, o grego allegoría significa “dizer o outro”,
“dizer alguma coisa diferente do sentido literal”, e veio substituir ao
tempo de Plutarco (c.46-120 d.C.) um termo mais antigo: hypónoia,
que queria dizer “significação oculta” e que era utilizado para
interpretar, por exemplo, os mitos de Homero como personificações de
princípios morais ou forças sobrenaturais, método que teve como foi
especialista Aristarco de Samotrácia (c.215-143 a.C.). A alegoria
distingue-se do símbolo pelo seu carácter moral e por tomar a realidade
representada elemento a elemento e não no seu conjunto. Muitas vezes
definida como uma metáfora ampliada, ou, como dizia Quintiliano, no
Institutio oratoria, uma “metáfora continuada que mostra uma coisa
pelas palavras e outra pelo sentido”, a alegoria é um dos recursos
retóricos mais discutidos teoricamente ao longo dos tempos. A mesma
correlação é estabelecida por Cícero no De Oratore, onde a
alegoria é vista como um sistema de metáforas. Uma forma de distinguir
metáfora e alegoria é a proposta pelos retóricos antigos: a primeira
considera apenas termos isolados; a segunda, amplia-se a expressões ou
textos inteiros.
Na tradição
grega mais antiga, uma aplicação possível da proto-ideia de alegoria é o
ensino dos pitagóricos, cujo sistema filosófico, apoiado em relações
numéricas simbólicas, contém associações de natureza alegórica. Tal
acontece, por exemplo, na doutrina do dualismo essencial entre limite e
ilimitado, que se funda na composição de dez pares de opostos, alguns
alegóricos como Luz/Trevas e Bom/Mau.
Regra geral,
a alegoria reporta-se a uma história ou a uma situação que joga com
sentidos duplos e figurados, sem limites textuais (pode ocorrer num
simples poema como num romance inteiro), pelo que também tem afinidades
com a parábola e a fábula. Seja o exemplo seguinte de uma fábula de
Esopo: “O leão e a rã”: Certa vez, um leão, ao passar perto de um
pântano, ouviu uma rã coaxar muito alto e com muita força. Dirigiu-se
então na direcção do som, supondo que ia encontrar um animal grande e
possante, correspondente ao barulho que fazia. Por isso, ao avançar, nem
reparou na pequena rã e pôs-lhe a pata em cima. “Vê lá onde pões os
pés!”, gritou a rã. O leão olhou, admirado, e disse: “Se és assim tão
pequena, porque é que fazes tanto barulho?” Se substituirmos a rã
por “o Orgulho” e o leão por “o Poder”, transformamos a fábula numa
alegoria; se em vez da rã colocássemos “o Ministro Sem Pasta” e em vez
do leão “o Pai Severo”, teríamos uma parábola, que esconde personagens
reais por detrás de uma máscara alegórica. De notar que é usual na
alegoria o recurso a personificações ou prosopopeias, em especial de
noções abstractas, prática muito comum sobretudo na literatura medieval.
A
decifração de um alegoria depende sempre de uma leitura intertextual,
que permita identificar num sentido abstracto um sentido mais profundo,
sempre de carácter moral. Dizer que a alegoria é um desenvolvimento de
uma fábula pode não ser suficiente. Vejamos, por exemplo, o enigma da
Esfinge, no mito de Édipo. A questão central é esta: «Qual é o ser que,
tendo uma única voz, ora caminha com dois pés, ora com três, ou ainda
com quatro, e que é tanto mais fraco quantos mais pés tiver?» Quando
Édipo chega a Tebas, resolve o enigma, respondendo: «É o homem, que
gatinha a quatro patas enquanto é criança, caminha erecto nas suas duas
pernas quando é jovem, e se encosta a uma bengala na velhice.», a
Esfinge, derrotada, suicida-se. O desenvolvimento da fábula da Esfinge
grega depende de duas condições essenciais para se constituir como
alegoria: não estar limitada a um fim didáctico, como todas as fábulas
(sem a conclusão do enigma, a tragédia de Sófocles não poderia
progredir); não jogar com a significação metafórica, isto é, não
produzir mais do que uma leitura do sentido abstraído, porque é próprio
da alegoria não fazer uso da ambiguidade ou da plurissignificação, sob
pena de se perder a ilação moral procurada. Uma alegoria necessita de um
certo imobilismo do sentido, facto que será utilizado, pelo menos até ao
Romantismo, para governar de alguma forma certas interpretações de
textos clássicos, estando em primeiro lugar a Bíblia. As primeiras
exegeses alegóricas concentraram-se nas epístolas de S.Paulo, onde se
compara a Igreja a uma noiva. Santo Agostinho contribuiu decisivamente
para esta interpretação, na sua A Cidade de Deus (XVII, 20). A
fábula da Esfinge torna-se alegórica apenas no acto hermenêutico, como
acontece, aliás, com os textos bíblicos. Este tipo de hermenêutica levou
um poeta como Boccaccio a comparar a teologia à poesia, precisamente por
intermédio da alegoria. No seu tratado sobre mitologia, De Genealogia
Deorum, Boccaccio defende que teologia e poesia são a mesma coisa ou
têm a mesma natureza: “Afirmo que teologia e poesia podem ser quase
consideradas como a mesma coisa, quando o assunto é o mesmo; digo até
que a teologia não é outra coisa senão a poesia de Deus. Que é ela
senão uma ficção poética, quando, na Escritura, chama a Cristo ora leão,
ora cordeiro, ora verme, e ainda por vezes dragão ou rocha, e ainda
muitas outras coisas que omito por uma questão de brevidade? Que vêm a
ser as palavras do Salvador nos Evangelhos senão um sermão que não
significa aquilo que parece significar? É o que nós chamamos, para
empregar um termo bem conhecido - alegoria.”
Numa alegoria, é também necessário que as abstracções que determinam o
sentido alegórico procurado sejam de imediata compreensão: o enigma da
Esfinge é a história do drama existencial humano. Se introduzíssemos
algum dado que pudesse desviar o leitor desta conclusão, construiríamos
uma metáfora e não uma alegoria. A linguagem alegórica não possui o
mesmo dinamismo que a linguagem metafórica, que é susceptível de
variações semânticas mais profundas, ao ponto de não suportar a
repetição de um mesmo significado nem depender de significados
pré-fixados. Em todas as alegorias das
narrativas clássicas, podemos encontrar sentidos mais ou menos fixos em
certas representações como os hieróglifos, por exemplo, cujas figuras
obedecem sempre a um processo inalterável de descodificação: um olho
simbolizará sempre Deus e um abutre designará a Natureza. Por outro
lado, o entendimento das possibilidades significativas da alegoria só
poderá ser alargado quando as exegeses não estiverem ao serviço de
colégios hermenêuticos, mas sim do poder criativo de leitores
descomprometidos. A longa história da literatura alegórica é também
paralela à história das interpretações dessa literatura, que sempre
tentaram fixar um sentido único. A abertura do sentido da alegoria é uma
conquista apenas da teoria da literatura do século XX.
Entre os
exemplos clássicos de grandes alegorias, podemos apontar o mito de Orfeu
e Eurídice como alegorias da redenção e da salvação; o mito da caverna
na República de Platão, que, por um processo alegórico, mostra
como a alma passa da ignorância à verdade (embora deva ser notado que
Platão sempre se opôs às interpretações alegóricas dos mitos antigos
como parte da educação dos jovens, porque “quem é novo não é capaz de
distinguir o que é alegórico do que não é.” (República, II:
378d); as parábolas do semeador e do joio (Mateus, 13:1ss), que contêm
matéria alegórica; O Asno de Oiro, de Apuleio, que recupera os
mitos de Cupido e Psique; a Psicomaquia, de Prudêncio, que mostra
o conflito entre a virtude e o vício na alma do crente, num texto que
será estudado e imitado na Idade Média em toda a literatura teológica,
numa época em que predominam as moralidades que se servem da alegoria
para lições edificantes; a alegoria erótica que será recuperada
pós-modernamente por Umberto Eco, Le Roman de la rose, começado
por Guillaume de Lorris e concluído por Jean de Meung em c.1277, que
personifica o Amor, a Virtude, o Vício, etc.; a Divina Comédia de
Dante, a obra-prima das alegorias teológicas; Os Triunfos de
Petrarca, que especula filosoficamente sobre o Amor, a Castidade, a
Morte, a Fama, etc.; o Horto do Esposo, que apresenta a Sagrada
Escritura através da imagem alegórica de um jardim maravilhoso; o
Boosco Deleitoso, que narra a peregrinação da alma desterrada no
mundo dos homens até Deus a chamar a si; todas as moralités
francesas e as morality plays inglesas do século XV, a que
podemos juntar o Auto da Alma de Gil Vicente, que recorre à
alegoria para recontar a parábola do Samaritano em tom moralista; o
Pilgrim’s Progress, de John Bunyan, alegoria da salvação de Cristo
para traduzir a peregrinação terrestre do homem sujeito a provações para
poder conquistar um lugar no Céu; The Faerie Queene, de Edmund
Spenser, uma glorificação da rainha Elizabeth I; Absalom and
Achitopel, de John Dryden, que usa personagens bíblicas para fazer
sátira política; todas as figuras do Sermão de Santo António aos
Peixes, de António Vieira, que incluem, por exemplo, o polvo como
alegoria da hipocrisia e da traição; o Endymion, de John Keats e
o Prometheus Unbound, de Shelley, embora sejam textos românticos
de matéria simbólica, podem ser lidos como alegorias sobre o destino do
poeta no mundo e a luta do homem pela sua própria liberdade,
respectivamente; O Mandarim, de Eça de Queirós, que é inspirado
nas alegorias renascentistas; O Doido e Morte, de Teixeira de
Pascoaes, Jacob e o Anjo e O Príncipe com Orelhas de Burro,
de José Régio e o Render dos Heróis, de José Cardoso Pires, são
exemplos na literatura portuguesa do século XX; Between the Acts,
de Virginia Woolf, Animal Farm, de George Orwell, Watership
Down, de Richard Adam, O Processo e O Castelo, de
Kafka são exemplos na literatura universal contemporânea.
Até à Idade
Média inclusive, a alegoria serviu de instrumento de defesa de teólogos,
que recorreram às interpretações alegóricas da Bíblia para superarem
todas as dúvidas heréticas. A própria Igreja foi muitas vezes
referenciada na literatura teológica com nomes alegóricos como Cidade,
Arca ou Aurora. Santo Agostinho ensinou que a Bíblia devia ser lida de
forma alegórica: “No Velho Testamento, o Novo Testamento está
dissimulado; no Novo Testamento, o Velho Testamento é revelado.”. Para
o Autor de A Cidade de Deus, a alegoria não está nas palavras,
mas deve ser encontrada nos acontecimentos históricos. Ao homem não é
permitido o conhecimento literal e imediato das Escrituras, pois só por
um sentido segundo o homem se poderá aproximar (mas nunca chegar
totalmente) da Verdade divina. S. Tomás de Aquino estabeleceu uma
distinção importante entre a alegoria teológica, que não é vista como um
artifício retórico mas como uma visão do Universo, e a alegoria secular
ou literária. Depois da escolástica, a teologia opta gradualmente por
proceder a interpretações bíblicas que privilegiem o sentido literal das
Escrituras. Mesmo na arte medieval, o processo de construção das grandes
catedrais, como a de Chartres, por exemplo, obedece também a complicados
esquemas alegóricos, pois acredita-se que tudo na Natureza significa
algo mais do que o simplesmente observável.
A distinção
fundamental entre a alegoria e o símbolo foi estabelecida durante o
Romantismo, em Coleridge no Statesman’s Manual (1816 ) e em
especial com Goethe e Schlegel. Ao princípio de Schlegel que defendia
que toda a obra de arte devia ser uma alegoria, começou Hegel por
contrapor: “Isso só será assim se significar que toda a obra de arte
deve representar uma ideia geral e implicar uma significação verdadeira.
Ora, pelo contrário, o que nós aqui designamos com o nome de alegoria é
um modo de representação secundária tanto no conteúdo como na forma e só
de um modo imperfeito corresponde ao conceito de arte.” (Estética,
trad. de Álvaro Ribeiro e Orlando Vitorino, Guimarães Eds., Lisboa,
1993, p. 226). De uma forma geral, podemos dizer que a crítica romântica
da alegoria não é de carácter rigorosamente científico e rege-se mais
por critérios de gosto de escola, embora tenha sido recebida com tal
entusiasmo que ainda hoje a desconfiança com que se olha a alegoria como
processo criativo pode dever-se a essa tradição. Goethe distinguiu assim
os dois procedimentos retóricos: “A simbólica [die
Symbolik]
transforma o fenómeno em ideia, a ideia em imagem, e de tal modo que na
imagem a ideia permanece sempre infinitamente eficaz e inatingível e,
ainda que pronunciada em todas línguas, continuaria a ser indizível. A
alegoria transforma o fenómeno num conceito, o conceito em imagem, mas
de tal modo que na imagem o conceito permanece limitado e susceptível de
ser completamente apreendido e usado, e pronto para ser expresso por
essa mesma imagem.” (Máximas e Reflexões, trad. de José M. Justo,
in Obras Escolhidas de Goethe, vol.5, Círculo de Leitores,
Lisboa, 1992, pp.188-189). Goethe entende que o símbolo é dotado de
maior amplitude de significação em relação à alegoria e chega mesmo a
defender a tese de que a distinção entre ambos é a prova de fogo para
qualquer aspirante a poeta. Esta posição está de acordo com o princípio
geral romântico que vê a alegoria como uma mera tradução de ideias
abstractas, ao passo que o símbolo parte sempre de imagens poéticas para
construir a sua significação final. É assim que Coleridge coloca a
questão em Statesman’s Manual: “Hoje a alegoria não é mais do que
uma tradução de noções abstractas para um quadro linguístico que em si
próprio não é mais do que uma abstracção de objectos sensíveis; (…) Por
outro lado, um símbolo (…) caracteriza-se por uma diafaneidade do
particular no indivíduo, ou do geral no particular, ou do universal no
geral. Acima de tudo, pela diafaneidade do eterno através do e no
temporal.”
(Samuel Taylor Coleridge, ed. por H. J. Jackson, Oxford
University Press, Oxford, 1985, p.661).
A discussão
sobre as diferenças entre símbolo e alegoria continua no século XX,
salientando-se as reflexões de Walter Benjamin, Martin Heidegger,
Hans-Georg Gadamer e Paul de Man. Todos tentam, de uma forma ou de
outra, estabelecer a conciliação de ambos os conceitos, que está negada
pelos românticos.
Walter
Benjamin,
em
Ursprung des deutschen Trauerspiels (Origens do Drama Trágico
Alemão, 1928), traz a alegoria para o campo exclusivo da
estética. Partindo do sentido etimológico do termo, Benjamin viu a
alegoria como a revelação de uma verdade oculta. Uma alegoria não
representa as coisas tal como elas são, mas pretende antes dar-nos uma
versão de como foram ou podem ser, por isso Benjamin se distancia da
retórica clássica e assegura que a alegoria se encontra “entre as ideias
como as ruínas estão entre as coisas”. Por isso Benjamin fala da
alegoria como expressão da melancolia: “Quando o objecto se torna
alegórico sob o olhar da melancolia, deixa escapar a vida, fica como
morto, fixado para a eternidade. Assim se depara ao artista alegórico, a
ele destinado para a glória ou infortúnio; quer dizer, o objecto é
totalmente incapaz de irradiar sentido ou significado, apenas lhe
cabendo como sentido aquele que o alegórico lhe conceda.”
(Ursprung
des deutschen Trauerspiels, R.Tiedemann, Frankfurt, 1963, p.204).
O
filósofo alemão distinguiu dois tipos de alegoria: a “cristã”, que se
atesta no drama barroco e que nos dá a visão da finitude do homem na
absurdidade do mundo, e a “moderna”, atestada na obra de Baudelaire,
colocada ao serviço da representação da degenerescência e da alienação
humanas. É importante a distinção que Benjamin faz entre alegoria e
símbolo, recuperando a oposição romântica: a primeira, enquanto
revelação de uma verdade oculta - ou “uma verdade escondida sob bela
mentira”, na célebre definição de Dante, no Convívio -, é
temporal e aparece como um fragmento arrancado à totalidade do contexto
social; o símbolo é essencialmente orgânico. O exame da relação entre o
simbólico e o alegórico no Romantismo alemão será continuado por Lukács,
na sua Estética, em diálogo distanciado com Benjamin,
investigando o conceito de alegoria à luz de um dos paradigmas
marxistas: a ideologia.
Heidegger
estudou a natureza da obra de arte como sendo constitutiva de uma
realidade alegórico-simbólica indivisível: “A obra de arte é, com
efeito, uma coisa, uma coisa fabricada, mas ela diz ainda algo de
diferente do que a simples coisa é, ‘allo agoreuei’. A obra dá
publicamente a conhecer outra coisa, revela-nos outra coisa: ela é
alegoria. À coisa fabricada reúne-se ainda, na obra de arte, algo de
outro. Reunir-se diz-se em grego symballein. A obra é símbolo.” (A
Origem da Obra de Arte, Edições 70, Lisboa, 1992, p.13). Na sua
magnum opus, Wahreit und Methode (1960), Hans-Georg Gadamer
estabelece as semelhanças entre alegoria e símbolo: ambos se referem a
algo cujo sentido não consiste na respectiva aparência externa ou imagem
acústica, mas numa significação que os supera; em ambos, uma coisa quer
dizer outra. E conclui que a principal diferença reside no facto de o
símbolo se opor à alegoria da mesma forma que a arte se opõe à não-arte.
Paul de Man
reapreciou também o debate romântico sobre a alegoria e o símbolo e, em
Allegories of Reading (1979), apresentou as suas próprias
leituras como alegorias, observando que o exemplo de Rousseau pode
contrariar o senso comum que vê o Romantismo como a afirmação do símbolo
em detrimento da alegoria. Paul de Man expõe a diferença entre ambos os
termos desta forma: “Enquanto o símbolo postula a possibilidade de uma
identidade ou identificação, a alegoria designa acima de tudo uma
distância em relação à sua própria origem, e, renunciando à nostalgia e
ao desejo de coincidência, fixa a sua linguagem no vazio desta diferença
temporal.”
(“The Rhetoric of Temporality”, in Blindness and Insight, 2ª ed.,
Routledge, Londres, 1989, p. 207).
O próprio
exercício da teoria e da crítica literária se tem servido de processos
alegóricos: Ruskin escreveu o tratado clássico Queen of the Air
(1869), onde define o mito como uma história alegórica; as obras de
Freud e Jung fizeram escola na interpretação alegórica de sonhos e
mitos; os doze volumes do estudo comparado de religiões Golden Bough
(1911-15), de James Frazer, fornece interpretações alegóricas
de mitos primitivos que se tornaram referências fundamentais no género;
Walter Benjamin, no ensaio “O narrador” (in Illuminationen,
1969), distingue alegoricamente dois tipos ideais de narrador: o marujo,
que nos permite aproximar de lugares distantes e exóticos, e o velho
camponês, que conta histórias antigas; Cleanth Brooks, em The Well
Wrought Urn (1947), alegorizou todos os poemas que leu de forma a
transformá-los em parábolas para a própria natureza da poesia; a chamada
crítica arquetípica defende, como o faz Northrop Frye em The Anatomy
of Criticism (1957), que toda a análise literária deve ser
alegórica.
ANAGOGIA;
APÓLOGO; BESTIÁRIO;
CRÍTICA ARQUETÍPICA; EMBLEMA; EXEMPLUM;
METÁFORA; MITO; SÍMBOLO
Bib.:
A. D. Nutall: Two Concepts of Allegory (1967); A.
Katzenellenbogen: Allegories of the Virtues and Vices in Medieval Art
(1939); Angus Fletcher: Allegory: The Theory of a Symbolic Mode
(1964); C. S. Lewis: The Allegory of Love: A Study in the Medieval
Tradition (1936); Charles Hayes: “Symbol and Allegory: A Problem in
Literary Theory”, Germanic Review, 44 (Nova Iorque, 1969); David
Adams Leeming: Encyclopedia of Allegorical Literature (1996);
Deborah L. Madsen: Rereading Allegory: A Narrative Approach to Genre
(1994) e Allegory in America: From Puritanism to Postmodernism
(1996); Dinko Cvitanovic et al.: Estudios sobre la expresion
alegorica en España y America (1983); E. D. Leyburn: Satiric
Allegory: Mirror of Man (1956); Edwin Honig: Dark Conceit: The
Making of Allegory (1959); Flávio R. Kothe: A Alegoria
(1986); Francis Fergusson: Trope and Allegory: Themes Common to Dante
and Shakespeare (1977); Friedrich Gaede: “Allegorie”, in Dieter
Borchmeyer e Viktor Zmegac (eds.): Moderne Literatur in
Grundbegriffen (1994); G. Lukács: Ästhetic I. Die Eigenart des
Äesthetischen (1963); G. P. Caprettini: “Alegoria”, in
Enciclopédia (Einaudi), vol.31 (1994); Gerhard Kurz: Metapher,
Allegorie, Symbol (1982); H. R.Jauss: Genèse de la poésie
allégorique française au Moyen Âge (1180 à 1246) (1962); Hans-Georg
Gadamer: “The Limits of Erlebniskunst and the Rehabilitation of
Allegory”, in Truth and Method (2ª ed., 1993); Jean Charles Payen:
“Genèse et finalités de la pensée allégorique au moyen âge”, Revue de
Metaphysique et de Morale, 78 (1973); Jean Pépin: Mythe et
allégorie: Les origines grecques et les contestations judéo-chrétiennes
(1958); John Jr. Gatta: “Coleridge and Allegory”, Modern Language
Quarterly, 38 (1977); John MacQueen: Allegory (1970); Jon
Whitman: Allegory: The Dynamics of an Ancient and Medieval Technique
(1987); Joseph-A. Mazzeo: “Allegorical Interpretation and History”,
Comparative Literature, 30 (1978); Kevin Matthew Gavin: «Toward a
Theory of Epic Forms: Mimesis, Symbol, and Allegory», Tese de
Doutoramento, Univ. de Michigan (1994); Manuel Frias Martins: “Para uma
compreensão e fundamentação teórica do conceito de ‘alegoria literária’
”, Colóquio-Letras, 79 (1984); Mark L. Caldwell: “Allegory: The
Renaissance Mode”, ELH, 44 (Baltimore, 1977); Marlies Kronegger e
Anna Teresa Tymieniecka (eds.): Allegory Old and New in Literature,
the Fine Arts, Music and Theatre and Its Continuity in Culture
(1994); Martin Heidegger: A Origem da Obra de Arte (1950);
Maureen Quilligan: The Language of Allegory: Defining the Genre
(1979); Michael Murrin: The Allegorical Epic: Essays in Its Rise and
Decline (1980); Morton W. Bloomfield (ed.): Allegory, Myth,
Symbol (1981); N. A. Halmi: “From Hierarchy to Opposition: Allegory
and the Sublime”, Comparative Literature, 44, 4 (1994); Norbert
Hopster: “Allegorie und Allegorisieren”, Der Deutschunterricht:
Beitrage zu Seiner Praxis und Wissenschaftlichen Grundlegung, 23, 6
(1971); P. M. Bitsilli: “The Revival of Allegory”, TriQuarterly,
17 (Evanston, IL, 1970); Paul de Man: Allegories of Reading: Figural
Language in Rousseau, Nietzsche, Rilke and Proust (1979) e “The
Rhetoric of Temporality”, in Blindness and Insight: Essays in the
Rhetoric of Contemporary Criticism (2ª ed., 1983); R. Hinks: Myth
and Allegory in Ancient Art (1939); Robert Hill: “Pascal, de Man,
and the Question of Allegory”, Cahiers du dix-septième, 6, 1
(Athens, 1992); Rosemond Tuve: Allegorical Imagery (1967);
Stephen A. Barney: Allegories of History, Allegories of Love
(1979); Stephen J. Greenblatt (ed.): Allegory and Representation
(1981); Walter Benjamin: Ursprung des deutschen Trauerspiels
(1928); Willi Erzgraber: “Zum Allegorie Problem”, LiLi: Zeitschrift
fur Literaturwissenschaft und Linguistik, 30-31, (1978); William J.
Kennedy: “Irony, Allegoresis, and Allegory in Virgil, Ovid and Dante”,
Arcadia: Zeitschrift fur Vergleichende Literaturwissenschaft, 7
(1972); W. T. H. Jackson: “Allegory and Allegorization“, Research
Studies, 32 (Pullman, WA, 1965).
Carlos Ceia |