|
ARGUMENTAÇÃO
Desenvolvimento de
um raciocínio com o fim de defender ou repudiar uma tese ou ponto de
vista, para convencer um oponente, um interlocutor circunstancial ou a
nós próprios.
A
argumentação desenvolve-se em função de um destinatário, que influencia
directa ou indirectamente a forma como evoluem os argumentos propostos.
Argumentamos para persuadir alguém que, à partida, não partilha os
mesmos pontos de vista ou as mesmas convicções que nós possuímos. Sem
ferir a atenção do destinatário da argumentação, esta jamais poderá ser
efectiva. É, pois, condição necessária o estabelecimento de um acordo
que em nenhum caso pode ser tácito. A argumentação não é um acto de
persuasão meramente psicológica de um auditório. Não nos serve nem a
pretensão de eloquência de Isócrates nem a definição de Sócrates
referida à tradição sofística da retórica como uma psicogogia ou
"persuasão da alma" (Fedro, 261a). Fedro inicia o "Diálogo sobre
a Retórica" chamando a atenção para o seguinte: “Ouvi dizer que para
quem deseja tornar-se um orador consumado, não se torna necessário um
conhecimento perfeito do que é realmente justo, mas sim do que parece
justo aos olhos da maioria, que é quem decide, em última instância.
Tão-pouco precisa de saber realmente o que é bom ou belo, bastando-lhe
saber o que parece sê-lo, pois a persuasão se consegue não com a
verdade, mas com o que aparenta ser verdade.” (Fedro, 260a). A
estética da recepção de um discurso argumentativo exige uma outra
filosofia.
Na
retórica antiga, a questão da natureza e validade da argumentação era
central. Na sofística, a ênfase era colocada no argumentos
lógico-formais, mas deixava de oparte muitos que não entravam nessa
categoria. É Aristóteles quem chama a atenção para esse facto, por isso
vai tratar os argumentos estritamente lógicos nos Analíticos,
reservando os argumentos ditos “dialécticos” ou prováveis para os
Tópicos e a Retórica. Esta separação dos argumentos
levar-nos-á à distinção entre aquilo que é demonstrável (obedece a uma
lógica rigorosa) e aquilo que é arguível (não tem a obrigatoriedade de
ser logicamente rigoroso).
A
argumentação não se confunde com a demonstração: enquanto esta não exige
um auditório para ser concretizada ou construída, aquela depende dele
para se concretizar plenamente. A argumentação é, por definição, diálogo
de ideias entre dois sujeitos; a demonstração é, pelo contrário, um
exercício racional monologado ou impessoal. No primeiro caso, prevalece
uma relação entre um Eu e o Outro a quem se tenta influenciar de algum
modo; no segundo caso, subsiste a relação de um Eu com as leis da
lógica, sendo o próprio sujeito o primeiro a ter de ser convencido das
teses a demonstrar (só em circunstâncias especiais a demonstração exige
um auditório, como na defesa de uma tese académica, por exemplo).
Naturalmente, existem situações monodramáticas que não pressupõem a
existência física de um destinatário da argumentação, conquanto um
sujeito pode argumentar para si próprio, em qualquer processo de
autognose. (A díade Eu/Outro não deixa, pelo menos em termos
psicanalíticos, de se poder aplicar a esta situação do sujeito que
argumenta sem auditório em vista, sendo o Outro aquela entidade
abstracta que motiva a argumentação.) Na situação comum, quem
argumenta deve ter um certo conhecimento do auditório a quem se dirige.
Quanto maior for esse conhecimento maiores serão as probabilidades de
êxito das teses defendidas. O perfil do destinatário da argumentação tem
de ser previamente estudado ou ponderado, já que as qualidades oratórias
do arguente, por si só, não são suficientes, sobretudo se o discurso for
entendido de forma autotélica. Por esta razão, Aristóteles dedica o
segundo livro da Retórica à caracterização do perfil do auditório
na argumentação, segundo os critéros da idade, do nascimento, da fortuna
e do poder. Toda a argumentação pressupõe, portanto, um ajustamento às
características do seu destinatário último. Por exemplo, se o auditório
for composto por pessoas com uma formação cultural e literária geral e
não especializada, a melhor estratégia de comunicação será a de recorrer
a lugares-comuns que possam ser reconhecidos por todos. O senso comum,
nesta situação, é mais importante do que o alarde de erudição sem eco.
As homilias públicas utilizam muito este tipo de estratégia, apelando a
valores universais (o bem, a justiça, a liberdade, a fé,…) que todos
facilmente aceitam em qualquer argumentação. Este foi o chamado “método
português de pregar” do Padre António Vieira, que, seguindo a norma da
época, desenvolvia a argumentação dos seus sermões recorrendo a
“conceitos predicáveis”. Veja- se o clássico Sermão da Sexagésima
(1655), que se inicia com um conceito predicável depois desenvolvido:
Ecce exiit qui seminat, seminare. Diz Cristo, que saiu o Pregador
Evangélico a semear a palavra divina. Bem parece este texto dos livros
de Deus. (….)” (Sermões do Padre António Vieira, apres. de
Margarida Vieira Mendes, Comunicação, Lisboa, 1982, p.127). Esta é uma
técnica de argumentação que pressupõe uma estética da recepção
totalmente controlada pelo orador. Os argumentos utilizados e ilustrados
com lugares-comuns bíblicos só têm eficácia porque é suposto que o
auditório conheça e aceite pacificamente as verdades morais apresentadas
pelo orador. Se para os mesmos valores, estivermos a falar para um
auditório especializado, precisaremos de os definir com maior precisão e
contextualizá-los na história do pensamento, eventualmente comentando os
diferentes sentidos canonizados. Na situação de extrema exigência,
disse-o alegoricamente Platão, uma argumentação filosófica deve ser
capaz de convencer até os deuses.
A
argumentação não age sobre evidências. O que é evidente não necessita
nem de demonstração nem de apresentação de argumentos a favor ou contra.
A argumentação não pode ser a afirmação da verdade, porque todo o
verdadeiro diálogo nunca esgota a possibilidade de investigação da
verdade. Na crítica pós-estruturalista, assume-se que toda a leitura de
um texto é impossível de ser definitiva e que o sentido de um texto
jamais pode ser determinado ou fixo. Da mesma forma, a argumentação não
pode partir do pressuposto de que uma conclusão retórica seja, por
definição, a conquista de uma verdade universal. Argumentar é procurar
coerência onde existe dúvida, é descortinar sentido num paradoxo, mas
também pode ser dar sentido a uma absurdidade ou a uma contradição.
Nisto se distingue do dogmatismo, pois não parte para a discussão com a
certeza de verdades de facto e de razão. No discurso argumentativo, não
se pode assumir que uma verdade, seja contingente ou necessária, jamais
possua um oposto. A anulação do oposto de uma verdade pressupõe a
anulação da própria potencialidade da argumentação. Mas para que seja
convincente, a argumentação precisa de um elevado grau de credibilidade.
Tal é inexequível no discurso dogmático, onde apenas prevalecem as
verdades ditas universais e impossíveis de contrariar. A argumentação é,
por definição necessária, sobretudo contestação. Como afirma o
Padre António Vieira, no final do supracitado Sermão da Sexagésima,
em termos que se podem estender a toda a argumentação crítico-literária:
“A pregação que frutifica, a pregação que aproveita, não é aquela que dá
gosto ao ouvinte, é aquela que dá pena. (….) quando o ouvinte vai do
sermão para casa confuso e atónito, sem saber parte de si, então é a
pregação qual convém” (op. cit., p.173). Se nada houver para
contestar num texto, nada fica para argumentar. Hoje, todos os
quadrantes da crítica parecem concordar que não mais é possível governar
o sentido de um texto literário, pelo que dele não poderemos dizer que é
incontestável. Não devemos confundir contestação com destruição
arbitrária das ideias de um texto. Se as premissas da argumentação
estiverem erradas, ela será sempre falaciosa.
Se na
argumentação não se pode garantir a certeza absoluta de uma tese, nada
nos impede de tentar convencer um auditório do contrário. Essa é uma
estratégia retórica que vem desde a antiga sofística. Contudo, toda a
argumentação deve fundar-se no razoável e não admitir a
arbitrariedade das posições. A determinação do que é razoável numa
argumentação é tanto da responsabilidade do arguente como do auditório,
cabendo a este a confirmação final de toda a razoabilidade das teses
propostas. Além disso, exige-se que a razoabilidade seja combinada com a
total coesão dos argumentos. Terá sempre de existir uma grande
solidariedade entre esses argumentos razoáveis e as convicções do
auditório. Para atingir o fim da razoabilidade pode, em qualquer caso, o
arguente utilizar figuras de retórica ou outros artifícios de linguagem
e composição que acompanham, regra geral, todo o texto argumentativo. A
diversidade dos argumentos apresentados é essencial para o mesmo fim.
Pode, neste caso, o arguente socorrer-se de argumentos analógicos, de
argumentos de autoridade, de argumentos a pari (com proposições
semelhantes), de argumentos a fortiori (de uma proposição já
validada para uma outra ainda mais evidente),ou de argumentos a
contrario (de uma proposição já validada para a rejeição do seu
contrário).
Diversos
tipos de texto podem ser classificados como argumentativos.
Simplificando, podemos distinguir o científico, o filosófico e o
crítico-literário. O texto argumentativo científico depende fortemente
da validade epistemológica da argumentação. O objectivo de toda a
investigação científica é o de apresentar argumentos que possam
sujeitar-se à demonstração. A argumentação intervém neste processo como
forma de reconhecimento da concordância desses argumentos entre si e
para o fim a que se destinam. Este tipo de texto tem sempre um modus
operandi investigativo.
Um facto
inevitável do discurso argumentativo é a sua abertura para a demagogia.
O discurso demagógico define-se pelo excesso e pela ansiedade de
protagonismo. A história deste tipo de expressão começa na sofística e é
consabido que Platão desencadeou a primeira e a mais violenta crítica a
tal abertura da argumentação para a demagogia. Quando tal se verifica, a
argumentação não pode ser considerada uma arte (techne), mas
apenas uma simples capacidade de persuasão de um auditório que é
manipulado até lhe se lhe arrancar um aplauso gratuito. No método
demagógico da argumentação, não há lugar a qualquer tipo de reflexão
filosófica, porque apenas se aplaude e não se pergunta nada. Por isso, é
pura adulação. O antídoto para a argumentação demagógica é a
argumentação dita socrática.
A
argumentação no texto filosófico pode ser dedutiva, se partir de
proposições gerais para as quais se exige uma refutação. Esta é tida por
inesgotável: uma afirmação há-de sempre corresponder a uma
contra-afirmação. Um texto filosófico só pode ter validade se tiver sido
objecto de investigação por todos os prismas possíveis, se todas as suas
premissas tiverem sido sujeitas à máxima confrontação com as ideias
correlatas e adversárias. Uma argumentação filosófica forte precisa de
uma confrontação de força idêntica. Em filosofia, só os cépticos não
aceitam que a concordância de pontos de vista seja improvável. Neste
tipo de argumentação, devemos partir do pressuposto de que é provável
chegar a um acordo de pontos de vista, sem o que todo o debate será
inconclusivo, pois jamais algum ponto de vista será considerado
aceitável. A argumentação socrática é essencialmente refutação (elenchos),
e exige que o interlocutor fique desarmado nas suas mais profundas
convicções. Não se trata de argumentar para destruir outra argumentação,
não se trata de uma pura dialéctica negativa, mas de um processo de
persuasão epistemológica, que deixa em aberto a continuação do inquérito
realizado sobre uma suposta verdade ou convicção. A argumentação
socrática requer um acordo final entre as partes envolvidas no diálogo:
o arguente A tem de convencer o arguente B de que a sua posição inicial
era falaciosa, portanto, a argumentação de A tem que ser mais sólida e
convincente do que a de B. O fim último da argumentação socrática não é
o da simples contradição das ideias pré-concebidas por outrem, mas o de
mostrar a este Outro como é que se deve construir uma argumentação.
O texto
crítico-literário argumentativo deve trabalhar com dilemas, ou seja,
deve partir sempre da deliberação entre duas possibilidades de escolha,
apresentando ambas consequências que contradizem os interesses
partidários. Este é o trabalho de leitura crítica de um texto literário
em condições ideais. Se assumirmos que todo o texto é um labirinto de
sentidos com duas saídas únicas - a do leitor e a do texto em si mesmo
-, a leitura crítica desse texto devia consistir unicamente na
descoberta dessas duas saídas difíceis. Através de raciocínios cujas
premissas sejam sempre colocadas em alternativa, de sorte que qualquer
dos seus termos conduza à mesma consequência, podemos realizar o acto
crítico, que assim pode ser entendido como um acto de argumentação.
A diferença entre o tipo de argumentação crítica que normalmente vemos
fazer nos jornais, no ensaísmo e nas aulas de literatura e a
argumentação crítica nascida de uma verdadeira retórica textual reside
no facto de a primeira ser essencialmente dirigida para o interesse
pessoal do sujeito ou de um público especializado, ao passo que a
segunda desconhece o valor de interesse pessoal ou esotérico para
substituí-lo pelo de persuasão razoável pública. Por outras
palavras, o arguente que queira apenas mostrar-se à opinião pública não
precisará nunca de tentar compreender sequer a essência dos dilemas do
texto, pois basta-lhe dizer que o texto do autor que a sua leitura
argumentativa privilegiou jamais comportaria qualquer espécie de
impasse; o arguente de um texto que acredite em algo mais do que a
certeza da sua erudição, pode aproximar-se da verdade do texto se
aceitar participar no gozo da descoberta e resolução dos embaraços da
linguagem. O primeiro julga-se um arguente credível; o segundo prefere
antes tentar provar a credibilidade do objecto de argumentação, jogando
ironicamente com a verdade. O arguente que autodetermina a sua
credibilidade foge desde logo à premissa básica da retórica de que todo
o discurso é feito com intenção de alterar uma situação determinada,
pois ele nada quer mudar para além do reforço da sua autoridade quase
sempre mais à custa dos autores do que dos textos; o arguente submetido
aos limites da sua autoridade sabe que depende exclusivamente do texto e
está consciente de que a sua missão se pode enquadrar nessa tarefa
penosa de contribuir para que um dado texto não permaneça num estado
falacioso de pureza.
A
argumentação crítica visa hoje inverter os termos da retórica clássica
dos oradores gregos e romanos: o encantamento da opinião pública deve
ser substituído pelo encantamento do leitor perante o texto; o poder do
discurso oral, pelo poder significante do logos inscrito no texto
autoral, ao qual sucede o poder significante do texto crítico; à verdade
aparente detida pelo rhetor, o jogo aberto da verdade que o
leitor vai procurando. Este tipo de argumentação que privilegiamos no
estudo teórico-crítico da literatura é apenas o estudo prévio do
funcionamento interno do texto, pelo que será sempre um estudo limitado,
não constituindo um princípio em si. A mão aberta da retórica tem que se
fechar e desferir golpes mais profundos sobre esse texto do qual se
descobriu a engrenagem. Uma leitura retórica permite identificar
literalmente os dilemas de construção do texto, porém ficamos indefesos
perante a forma como tais dilemas ou aporias resistem às crenças do
autor, por exemplo. Uma vez dentro, para os enfrentar é
necessário recorrer a outra forma de actuação, que é fundamentalmente
dialéctica. A retórica é a faculdade de dizer quais os caminhos a
percorrer, mas não tem força para realizar a tarefa concreta de
esquadrinhamento desses caminhos. Por outro lado, porque a arte
dialéctica também pode conhecer diversos estilos ou formas de actuação,
de alguma forma a retórica não fica totalmente para trás.
A
organização do texto argumentativo exige uma interacção premeditada dos
argumentos que fundamentam o discurso. Na retórica clássica, um discurso
tipicamente argumentativo, por exemplo um sermão, obedece a regras
fixas, que pressupõem, nesse caso, diversas partes fixas: um exórdio
sobre o tema escolhido, uma proposição (ou dúvida apresentada), uma
divisão, uma argumentação propriamente dita, uma confirmação (com
conceitos predicáveis dos Evangelhos), e uma peroração (reforçando a
persuasão do auditório). A uma organização rigorosamente premeditada
devemos acrescentar duas condições ideais: todo o texto argumentativo
deve procurar a originalidade e uma certa veemência dos argumentos. Um
argumento que não seja novo, não acolherá solidariedade e admiração mas
simples anuência; um argumento que não seja veemente terá maiores
dificuldades em se impor e em despertar a atenção crítica do auditório.
Estas duas condições aceitam-se como norma geral, se a argumentação for
entendida no seu sentido tradicional de acto de persuasão de um
auditório. Também é verdade que será sempre mais fácil dizer que um dado
texto argumentativo não é original na sua formulação nem tem veemência
de argumentos do que o contrário. Porque não estamos no domínio do texto
científico, cujos argumentos são demonstráveis de forma a não permitir a
contestação imediata, o texto argumentativo só se concretiza
verdadeiramente quando a sua recepção é polémica, isto é, quando
desperta no auditório sentimentos contrários que ajudarão a pesar a
validade dos argumentos originais.
Não está
provado que a acumulação de argumentos seja directamente proporcional à
eficácia da argumentação, nem mesmo o contrário. Em primeiro lugar,
devemos atender não só à formação literária e à composição do auditório
a que nos dirigimos. A duração e/ou extensão do texto a apresentar,
incluindo a forma de apresentação (texto lido na íntegra, texto-base
lido diagonalmente para privilegiar a exposição oral, texto-guia para
privilegiar a improvisão, etc.), pode ser determinante. A leitura de um
texto longo durante uma hora pode não ter o mesmo impacte que uma
exposição oral dos argumentos com a mesma duração. O perfil oratório do
arguente define, em regra, não só a veemência do discurso oral como a
adesão do auditório. Este costuma deslumbrar-se mais com um bom
comunicador do que com uma boa comunicação - naturalmente, as duas
circunstâncias constituem, no mesmo indivíduo, a situação modelo.
Porque
nem todos os argumentos têm a mesma veemência, é necessário
distribuí-los gradativamente no discurso. Podemos optar por uma de três
soluções: por ordem decrescente, por ordem crescente ou por ordem
nestoriana (Nestor, rei de Pilos, símbolo clássico da sabedoria e da
experiência, costumava colocar no meio as suas tropas mais frágeis),
abrindo e fechando com os argumentos mais fortes. Esta é a prática
privilegiada pelos antigos retóricos. Podemos ilustrar com o seguinte
texto argumentativo de Eça de Queirós: “[1a]
O que são há 20 anos os partidos em Portugal? (….) Que pensamentos
traduzem? Que grande facto social querem realizar? Formam-se,
desagregam-se, dissolvem-se, passam, esquecem, sem que deles fique uma
edificação aproveitável, uma criação fecunda. (….)
[2]
Isto é uma política superficial. Superficial, porque atende à questão de
forma e de aparência, e não discute os princípios. Superficial, porque
se ocupa tenazmente em recompor velhos erros. (…)
[1b]
Toda a política há 20 anos tem sido assim; todos desesperam já de ver
correr um sangue puro e uma vida enérgica e fecunda neste corpo
consumido.(…)” (Textos do Distrito de Évora 2, Obras Completas,
vol.XII, Círculo de Leitores, Lisboa, 1980, pp.101-102).
[1a]
introduz a questão em debate com questões retóricas veementes;
[2]
desenvolve anaforicamente o argumento principal (“a política é
superficial”), com a análise crítica de todas as suas aplicações;
[1b]
retoma o sentido da interrogação inicial, concluindo com o argumento
mais forte para sustentar a tese da superficialidade, precisamente com
referência àquilo que fica de fora nesse cenário político comentado:
“Por isso, aqueles que não se prenderam a partidos (….) só pedem aos que
vêm de novo (….) que atendam a estas coisas divinas que são as únicas
que elevam, enobrecem e fazem a grandeza duma nação - a instrução, a
dignidade, o sentimento popular, a inteira liberdade, a profunda razão e
a verdadeira justiça.” (p.102). É importante não aceitar que a veemência
de um argumento seja uma classificação apriorística e definitiva. Tal
classificação é muitas vezes intuitiva e não deve cegar a capacidade de
contestação do auditório nem a capacidade de auto-crítica do arguente. A
rigor, não há uma ordem prioritária de organização dos argumentos,
porque o efeito produzido é sempre variável de auditório para auditório.
Apenas uma excepção: a ordem cronológica dos argumentos, se se aplicar,
é fundamental que seja respeitada.
RETÓRICA
Bib.: A.
Berrendonner (ed.): Logique, argumentation, conversation (Actes
du Colloque de Pragmatique, Fribourg, 1981) (1983); Albert F. Herbig:
“Argumentieren: Zur Theorie und Didaktik argumentativen Handelns”,
Jahrbuch Deutsch als Fremdsprache , 18 (1992); Ana Luiza Marcondes
Garcia: “Argumento e Redação Escolar”, Trabalhos em Linguística
Aplicada, 16 (Campinas SP, Brasil, 1990); Barbara Sandig e Ulrich
Puschel (eds.): Stilistik, III: Argumentationsstile (1993); Chaïm
Perelman e Lucie Olbrechts-Tyteca: Tratado da Argumentação: A Nova
Retórica (São Paulo, 1996; 1ªed., 1958); Chaïm Perelman: Élements
d’une théorie de l’argumentation (1968); id., O Império Retórico:
Retórica e Argumentação (Porto, 1993; 1ª ed., 1977); David Cratis
Williams e Michael David Hazen (eds.): Argumentation Theory and the
Rhetoric of Assent (1990); David S. Kaufer e Cheryl Geisler: “A
Scheme for Representing Written Argument”, JAC: A Journal of
Composition Theory, 11, 1 (1991); Elisabeth Rudolph: “Argumentative
Strukturen in literarischen Dialogen”, in Elisabeth Feldbusch et al.
(eds.): Neue Fragen der Linguistik: Akten des 25.
Linguistischen Kolloquiums,
Paderborn 1990, I: Bestand und Entwicklung; II: Innovation und
Anwendung (1991); Eike von Savigny: Argumentation in der
Literaturwissenschaft: Wissenschaftstheoretische Untersuchungen zu
Lyrikinterpretationen (1976); E. M. Barth e J. L. Martens (eds.):
Argumentation: Approaches to Theory Formation (Incl. Contribs. to
Groningen Conf. on Theory of Argumentation, October 1978) (1982); Frans
H. van Eemeren et al.: Reconstructing Argumentative Discourse
(1993); Frans H. van Eemeren et al. (eds.): Argumentation: Across
the Lines of Discipline (1987); id., Argumentation: Perspectives
and Approaches (1987); id., Handbook of Argumentation Theory
(1987); Gilberte Pieraut Le Bonniec e M. Valette: “The Development of
Argumentative Discourse”, in Gilberte Pieraut Le Bonniec e Marlene
Dolitsky (eds.): Language Bases . . . Discourse Bases: Some Aspects
of Contemporary French Language Psycholinguistic Research (1991);
Gunther Grewendorf: Argumentation und Interpretation:
Wissenschaftstheoretische Untersuchungen am Beispiel germanistischer
Lyrikinterpretationen (1975); Jaakko Hintikka: “Strategic Thinking
in Argumentation and Argumentation Theory”, Revue Internationale de
Philosophie, 50, 2 (1996); James Crosswhite: “Mood in
Argumentation: Heidegger and the Exordium”, Philosophy and Rhetoric,
22, 1 (1989); Jean Blaise Grize: “L'Argumentation du dialogue”, in
Pierre R. Leon e Paul Perron (eds.): Le Dialogue (1985); Jean
Claude Anscombre e O. Ducrot: L’argumentation dans la langue
(1983); Jean-Pierre Cometti: “Argumentação e legitimação”, Crítica:
Revista do Pensamento Contemporâneo, 8: “Retórica” (1992); J. Robert
Cox e Charles Arthur Willard(eds.): Advances in Argumentation Theory
and Research (1982); Manfred Kienpointner: “Rhetoric and
Argumentation: Relativism and Beyond”, Philosophy and Rhetoric,
24, 1 (1991); Marc Angenot: “Argumentation et discours”, Discours
Social Social Discourse: Analyse du Discours et Sociocritique des Textes
/ Discourse Analysis and Sociocriticism of Texts, 2, 3 (Montreal,
1989); Marie Jeanne Borel: “Theory of Argumentation”, in Janos S. Petofi:
Logic and the Formal Theory of Natural Language: Selective
Bibliography (1978); Marion Carel: “L'Argumentation dans le discours:
Argumenter n'est pas justifier”, Langage et Société, 70 (Paris,
1994); Michel Meyer: “Argumentation in the Light of a Theory of
Questioning”, Philosophy and Rhetoric, 15, 2 (1982); Michel
Meyer: “Rhetoric and the Theory of Argument”, Revue Internationale de
Philosophie, 50, 2 (1996); Oswald Ducrot: Les échelles
argumentatives (1980); Pierre Yves Raccah: “Modelling Argumentation
and Modelling with Argumentation”, Argumentation, 4, 4 (1990);
René Rivara: “Information et argumentation”, Sigma: Linguistique
Anglaise Linguistique Générale, 8 (1984); Robert C. Rowland: “On
Defining Argument”, Philosophy and Rhetoric, 20, 3 (1987); Rui
Alexandre Grácio: “Historicidade, interpretação e argumentação”,
Crítica: Revista do Pensamento Contemporâneo, 8: “Retórica” (1992);
Sebastian McEvoy: “Littérature et argumentation: De L'Intertexte a
l'intention”, Tropismes, 6 (1993); Thomas A. Perry (eds.): Evidence
and Argumentation in Linguistics (1979; Trudy Govier: Problems in
Argument Analysis and Evaluation (1987); Wolfgang Klein:
“Argumentation und Argument”, LiLi: Zeitschrift fur
Literaturwissenschaft und Linguistik, 38-39 (1980).
Carlos Ceia |