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BEST-SELLER
Termo inglês
(literalmente: “o mais vendável”) para o livro que atingiu um elevado
número de vendas, superando todos os outros do seu género e durante um
determinado período de tempo. Actualmente, elaboram-se listas ou top
de vendas, que registam os livros mais vendidos ou best-sellers
num país .
A rigor,
podemos falar de best-sellers a partir da invenção da imprensa.
Assim, a título de exemplo, no século XVI, Virgílio teve 385 edições, a
que correspondem cerca de 300 000 exemplares vendidos. Mas a primeira
lista de best-sellers só será apresentada em 1895, na revista
literária norte-americana The Bookman. A prática estendeu-se de
imediato a todo o país, constituindo ainda hoje referências mundiais as
listas do Publishers Weekly (desde 1912) e do The New York
Times. Na Europa, a lista do The Sunday Times , que o
Bookseller reedita, é uma referência para o mundo literário. Ficam
de fora destas listas periódicas as edições de clássicos, como as obras
de Shakespeare (já no século XIX era o maior best-seller de
sempre em língua em inglesa) ou a Bíblia, por exemplo, bem como as
vendas de clubes comerciais de livros e os livros de venda permanente (steady-sellers),
onde se incluem as colecções de clássicos e as adaptações para crianças.
À excepção da Bíblia, de longe o maior best-seller de todos os
tempos com mais de mil traduções, pode-se considerar a Imitatio
Christi (1473), que conheceu até ao final do século 99 edições, o
primeiro best-seller impresso, que deve contar hoje já com mais
de 3000 edições. Dois dos primeiros romances de êxito mundial foram o
Robinson Crusoe (1719), de Daniel Dafoe, e Gulliver’s Travels
(1726), de Jonathan Swift. O século XIX assiste ao êxito de uma nova
forma de ficção - o romance folhetinesco (roman-feuilleton ou
newspaper serial -, distinguindo-se, na primeira metade do século,
Eugène Sue, que contribuiu para uma maior popularidade do jornal como
grande meio de divulgação de textos literários.
O facto
de um dado livro poder ser classificado como best-seller não é
directamente proporcional à qualidade desse livro. Os factores que
concorrem para o êxito comercial de um livro são vários. Fábio Lucas
apresenta uma explicação coerente: “O best-seller contém soluções
narrativas e conteudísticas que atraem o grande público e auxiliam a
vendagem. A própria publicidade, quer a externa, nos anúncios directos
ou indirectos, quer a interna, nas orelhas do livro, na quarta capa ou
nos resumos dos catálogos, cuida de dar ênfase às virtudes míticas da
obra. Promete um entretenimento ou uma excitação da mente, acompanhada
de uma solução. O idela do best-seller será o mundo não
problemático e o fim feliz.” Fabio Lucas: "O best-seller e a teologia da
comunicação de massa", Minas Gerais - Suplemento Literário,
22:1057 (1987). Quer dizer, o facto de um livro vender muito não é
suficiente para ganhar um lugar de destaque na história literária. Esta
está cheia de exemplos de best-sellers que depois o tempo
posterior ignorou. No seu tempo, Guerra Junqueiro, por exemplo, vendeu
muitos mais livros do que Antero de Quental, mas a história
encarregou-se de não olhar a tal circunstância para situar Antero como
um dos maiores poetas portugueses de sempre, ao lado de Luís de Camões e
de Fernando Pessoa. Em termos internacionais, a classificação de uma
obra como best-seller é ainda mais relativa. Depende sempre de
factores demográficos (com o mesmo número de vendas, um best-seller
em Portugal não o seria no Brasil, por exemplo, pois raramente se
ultrapassam as poucas dezenas de milhares de cópias vendidas, número
insignificante no mercado brasileiro; por outro lado, para termos uma
ideia das diferenças, um livro que em Portugal venda 50 000 exemplares
pode ser considerado um best-seller, exactamente o número de
vendas necessário nos Estados Unidos em 1870, ao tempo de Eça de
Queirós, portanto), de factores linguísticos (um livro editado em inglês
tem hoje um público potencial largamente mais numeroso do que nas
restantes línguas) e de factores económicos (naturalmente, o nível de
vida de uma comunidade condiciona o seu poder de compra tanto das
necessidades básicas como das culturais, onde se inclui a compra de
livros). Hoje, no mundo literário lusófono, podemos considerar como
best-sellers autores como Jorge Amado, Paulo Coelho, José Saramago
ou António Lobo Antunes, o que não significa que todos estes autores
ocupem o mesmo lugar nos respectivos cânones nacionais.
O
best-seller também não está isento de ser determinado pela
propaganda política de uma nação, como nos milhões de exemplares que as
obras de Marx, Lenine e Estaline venderam na ex-União Soviética, que o
Mein Kampf, de Hitler, vendeu na Alemanha ou o Pequeno Livro
Vermelho, de Mao, vendeu na China comunista. Hoje não são apenas os
livros de ficção aqueles que acabam como best-sellers, porque o
gosto também evolui (ou regride, depende certamente do ponto de vista) e
livros de culinária, manuais práticos do tipo Do It Yourself,
memórias de figuras públicas, obras de referência clássicas ou
multimédia, etc. podem facilmente atingir essa categoria. Para tal, e
segundo as regras das sociedades de consumo de hoje, um bom trabalho de
divulgação promocional pode ser a chave para que um dado livro venha a
ser um best-seller, independentemente da sua qualidade literária.
É que o best-seller envolve hoje uma grande grande máquina
promocional, comprometendo agentes literários, editores, publicitários,
patrocinadores, etc. Em certos círculos literários, entende-se inclusive
que um autor que atinja a categoria de best-seller perde a
categoria de verdadeiro escritor.
LIVRO
Bib.:
Alice Payne Hackett: 80 Years of Best Sellers: 1895-1977 (1977);
Carlos J. F. Jorge: “O best-seller: o popular e o kitsch
do objecto literário”, Vértice, 23 (1990); Claire Bruyère: "Le
Best Seller", Magazine Littéraire, 281 (1990); F. de Closets:
“Existe-t-il un art du best-seller?”, Le Débat, 34 (1985);
Fabio Lucas: "O best-seller e a teologia da comunicação de massa",
Minas Gerais - Suplemento Literário, 22:1057 (1987); Muniz Sodré:
Best-seller: A Literatura de Mercado (1988); Robert Escarpit
(org.): Le Littéraire et le social (1970).
Carlos Ceia |