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CANTE JONDO
Mais do que um símbolo
musical da multimilenária cultura andaluza, o cante jondo
(«canto fundo»), tal como o seu epíteto indica, exprime -
através de uma ambiência sonora cristalizada ao longo de séculos
e assimilada na escrita pianística de um Albéniz ou de um
Granados - o que de mais profundo encerra o espírito popular.
Cúmplice das penas e das
alegrias do seu povo, o cantaor esconjura com «voz de
sangre», através das sentidas letras e dos longos e dolorosos
melismas, como num ritual, as angústias que lhe assaltam a alma,
crendo que quem o escuta comungará, por empatia, da sua dor e
que esta será, assim, mitigada.
A importância do cante
na cultura flamenca, todavia, não se esgota no carácter
confessório da interpretação. Possuído pelo duende, esse "espíritu
oculto de la dolorida España" (Lorca: I, 1067), o cantaor
percorre os recônditos meandros do inconsciente colectivo.
Obedecendo a cânones há muito estabelecidos, não só constrói uma
representação de si próprio e do seu povo o que é, de certo
modo, revelador da propensão dos andaluzes, como sustenta Ortega
y Gasset, para um certo «narcisismo colectivo» (Ortega y Gasset,
1961: 112) , mas também invoca por via de imagens atávicas os
mistérios das antiquíssimas religiões que outrora fecundaram o
imaginário andaluz.
Na realidade, os
estudiosos da matéria da Andaluzia, como J. M. Caballero Bonald,
D. E. Pohren, J. Caro Baroja ou Fernando Quiñones, são unânimes
em considerar que o cante encarna a permanente demanda de
uma obscura e inefável essência destilada pela antiguidade das
suas raízes culturais.
Apesar da relativa
escassez de vestígios arqueológicos sobre Tartesso – mítico
reino de Gérion e de Argantónio que terá germinado no Sudoeste
peninsular em finais da Idade do Bronze (de 2000 a. C. a 700 a.
C.) e prosperado posteriormente na primeira Idade do Ferro
(séculos VIII‑VI a. C.) – muitos são os que crêem ver nele, e
nos contactos estabelecidos com o resto do mundo mediterrânico,
o berço civilizacional de uma Andaluzia ávida por festejar a
sacralidade da vida, ansiando, simultaneamente, por habitar o
sombrio labirinto da morte.
Não obstante a miscigenação
(ou mezcla, como se lhe referiu o poeta Félix Grande)
de povos que viriam posteriormente a ocupá‑la (gregos,
cartagineses, romanos, vândalos, muçulmanos, judeus e ciganos),
a Andaluzia saberia edificar, a partir da integração de
materiais heterogéneos, a sua própria identidade espiritual,
marcadamente distinta daqueloutras das restantes regiões
hispânicas. O cante jondo, apesar de ser fruto desse
hibridismo (a nível musical, as influências orientais,
particularmente a árabe, a semita e a cigana, são notórias),
soube reter tal prístina ânsia dionisíaca.
É esta natureza ao
mesmo tempo pagã, primeva e intuitiva do cante que
cativou a atenção de poetas e músicos. Um desses poetas,
Federico García Lorca, figura de estatura ímpar no panorama
literário espanhol do século XX, soube operar uma ruptura com a
visão meramente folclorista do flamenco partilhada por
alguns dos seus conterrâneos – nomeadamente Melchor de Palau,
Salvador Ruedas e Manuel Machado, que em 1912 publicara um livro
de coplas intitulado, justamente, Cante Jondo. A relação
de Lorca com o «andaluzismo» não se cinge a um manusear curioso
dos elementos castiços e potencialmente poéticos da cultura
andaluza. Pelo contrário, a sinceridade da escrita lorquiana, a
sedução incontida, obsessiva até, pelos temas e imagens da
Andaluzia mítica e onírica trai a sua total identificação com o
espírito a que aludimos. A somar a isso, ligam‑no estreitos
laços ao mundo do café cantante onde aprenderá a
partilhar, ao lado de cantaores, bailores e
tocaores, dos verdadeiros valores religiosos e estéticos
contidos na arte flamenca.
Em 1922, o poeta granadino,
cuja formação musical lhe permitiu aceder a um conhecimento mais
aprofundado do cancioneiro espanhol, profere uma conferência
– «El cante jondo: primitivo canto andaluz» – que
denunciará desde logo o fascínio pelos cantares flamencos. Nela,
Lorca não só ensaia um enquadramento teórico para o conjunto de
poemas composto em Novembro do ano anterior (e que chegará às
mãos do público apenas em 1931 sob o título Poema del Cante
Jondo), como ainda procura, em certa medida, elaborar um
esboço de uma teoria da arte. Baseado no credo de que as alusões
atávicas do mundo tartéssio, tornadas manifestas através do
duende, provavam a atemporalidade e a perenidade da arte
andaluza, Lorca defenderá que o cante jondo, possuído, na
sua postura extática, pelas forças ocultas do amor e da morte,
revela uma realidade transcendente.
CANÇÃO;
canção de gesta
Bib.:
A. Álvarez
de Miranda: La metáfora y el mito (1963); J. C. Baroja:
Los pueblos de españa (1946); J. M. C. Bonald: Luces y
sombras del flamenco (1975); De Zuleta: Cinco poetas
españoles (1971); F. G. Lorca: Obras completas
(1973); id.: Poema del Cante Jondo - Romancero Gitano
(1992); J. Ortega y Gasset: Obras completas (1961);
D. E. Pohren: Lives and Legends of Flamenco (1964);
Fernando Quiñones: El Flamenco: Vida y Muerte (1971); E.
F. Stanton: The Tragic Myth: Lorca and «Cante Jondo»
(1978).
António Lopes
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