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CATARSE
Catarse é palavra a que alude
Aristóteles na Arte Poética (v.) quando trata dos efeitos
da tragédia. A primeira referência à catarse nos parágrafos do
livro do estagirita surge no sexto capítulo, aquele em que se
define a tragédia como espécie ou género da poesia dramática. A
tragédia é vista aí como imitação de uma acção de carácter
elevado, imitação por meio de actores e não de narrativa, quer
dizer, por meio de representação e não de recitação, e que,
suscitando terror e piedade, tem por efeito a purificação dessas
emoções (1449 b 24). A purificação é catarse.
Mais à frente, numa
das principais passagens do livro, Aristóteles, distinguindo a
Poesia da História (1451 b 11-27), insiste na ideia da
tragédia não ser só imitação de uma acção completa, mas de
eventos que, por meio de momentos contraditórios, dão origem no
espectador-leitor às emoções dramática da piedade e do terror.
Pouco depois, no capítulo décimo terceiro, precisando a natureza
da acção trágica e das emoções dramáticas, dis que uma trama de
factos ou mito (v.) que atire com um malvado da fortuna para o
infortúnio não chega para criar terror e piedade. Essas emoções
dramáticas só têm lugar quando a desdita acontece a quem a não
merece. Daí a natureza contraditória da acção trágica.
A catarse,enquanto
purificação de emoções, obriga-nos a colocar o problema, sempre
muito discutido, mas nunca de todo esclarecido. da origem da
tragédia. Aristóteles atribui a origem da tragédia ao improviso
dos solistas do ditirambo, cujo mais antigo é uma invocação a
Dionisio, e a um antecedente satírico em que predominava a
elocução grotesca, ligando-a, assim, se bem que involutariamente,
ao culto de Dioniso. Este último foi um modo de representação
mítica da realidade centrado na embriaguez do vinho, cujo
cultivo foi ensinado aos homens por Dioniso, e na loucura do
sangue do bode sacrificado, em honra do deus. O primeiro
ditirirambo conhecido, que terá evoluído depois para a tragédia,
foi, ao que parece, entoado em torno do bode por ocasião da
vindima e do sacrifício.
O
que interessa reter de tudo isto, em termos de auqueologia
poética, é, por um lado, a matriz religiosa dos actos poéticos
e, por outro, o culto ritualístico a Dioniso não se destinar
apenas accionar os mecanismos humano da loucura e da embriaguez,
mas também a exorcismá-los, exaurindo-os e pacificando-os.
Estaria, deste modo, encontrado o antecedente arqueológico ou
filológico da catarse poética, tal como a entendemos a partir da
tragédia grega, quer dizer, purgação mas não anulação, de
sentimentos fortes como o terror e a piedade.
Tomando aqui a
palavra catarse no sentido aristotélico do termo, ou
seja, a catarse como finalidade da tragédia grega, não é
possível, porém, deixar de assinalar que muita da sua realidade
activa interna, em primeiro lugar a purgativa, passou depois,
com a ruína da literatura clássica, em primeiro lugar da
tragédia como género puro e normativo, para outros géneros
poéticos, incluindo aqueles que derivaram do antigo poema épico,
actualizando-se, assim, em renovadas e até inesperadas formas.
Apontem-se ainda as incidências da palavra na psicanálise
freudiana, onde o tratamento, de tipo catártico, visa também a
purificação das paixões. Se a matriz antropológica da poesia,
entendida esta em sentido aristotélico, quer dizer, dramático,
parece ser o culto religioso mais arcaico, nascido na época da
sendentarização humana, a matriz mais imediata da psicanálise
pode ser, por sua vez, a representação ou a associação poéticas.
TRAGÉDIA
BIB.: S. Freud, Totem et
Tabou (trad. francesa, S. Jankélévitch), 1965; Aristóteles,
Poética (trad., Prefácio, Introdução, Comentário e
Apêndices de Eudoro de Eudoro de Sousa, “O Mistério da Catarse”,
in Poética, Aristóteles, 1986; F. Niettzche, A Origem
da Tragédia (trad. portuguesa , Álvaro Ribeiro), 1985;
António Cândido Franco, “Literatura ou Poesia”, in Teoria da
Literatura na Obra de Álvaro Ribeiro, 1993.
António Cândido Franco
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