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CATÁSTROFE
Segundo a Poética de
Aristóteles, a tragédia consta de seis elementos essenciais, a
saber, o mito (v.) ou fábula, o carácter, a elocução, o
pensamento, o espectáculo e a melopeia (1450 a 8). Entre os seis
elementos essenciais distinguem-se as partes externas, dizendo
respeito à representação teatral (espectáculo, melopeia e
elocução) e as internas, dependentes do texto escrito (mito,
carácter e pensamento).
Aristóteles diz que
“mesmo sem representação e sem actores , pode a tragédia
manifestar os seus efeitos” (1450 b 16), o que nos leva a
aceitar sem mais o predomínio do texto escrito sobre o texto
cénico, do poético sobre o teatral ou da lexis sobre a
opsis.
Das partes internas
do drama trágico, o pensamento é o elemento lógico-retórico do
discurso verbal (1456 a 24), o carácter é o que o estagirita
chama a propensão da pessoa em causa (1454 a 16), enquanto o
mito é acção.
A propósito do
carácter volta Aristóteles a sentir a necessidade de definir a
poesia trágica como forma superior de imitação, e imitação
superior de homens bons, ainda que estes devam sempre ser tidos
como personagens agentes, existindo para a consecução de uma
acção, e não como personagens estáticas, existindo para nos dar
feições e não acções.
Passa por aqui todo
o diferendo poético entre Aristóteles e Platão. O primeiro
concebe sempre os feitios, as propensões ou os caracteres das
suas personagens como fontes do mito ou da acção, enquanto o
segundo os aceita como finalidades em si. Aristóteles não se
cansa de sublinhar a sua concepção de poesia como representação
de acções: “Sem acções não poderia haver tragédia, mas
poderia havê-la sem caracteres.” (1450 a 23).
O mito é, assim,
para Aristóteles, enquanto acção ou trama de factos, o eixo da
roda que é o drama. Em torno dele, mito, tudo se organiza e move
no drama trágico. Daí que em Aristóteles o que pretenda imitar
não sejam homens ou feitios, mas acções e movimentos.
O mito, como acção,
pode ser simples, se for constituído apenas por um núcleo
linear, ou complexo, se apresentar acção com reconhecimento (v.
anagnorisis), peripécia e catástrofe. A catástrofe é, na
lógica da tragédia clássica, o evento ou os eventos dolorosos e
funestos que acontecem em cena, correspondendo a ferimentos ou
mortes (1452 b 9).
Assinale-se, porém,
que nem sempre é indispensável que a catásfrofe aconteça no caso
do mito ou da acção complexa, bastando-lhe o reconhecimento e a
peripécia (que é o momento da passagem da fortuna para o
infortúnio), pois pode conceber-se casos de reconhecimento
impeditivo de catástrofe, como acontece no Cresfonte em
que Mérope está para matar o filho e não o faz porque o
reconhece (1545 a).
A catástrofe, tendo
sido conceptualizada no domínio da tragédia grega, género que
deixou de existir depois do Renascimento, tem, entanto,
aplicação em géneros actuais ou recentes, como o romance, que
também recorre à imitação ou à reconstrução verosímil de acções
complexas.
Os exemplos
flagrantes e mais conhecidas desta osmose encontram-se nas
Viagens na Minha Terra de Almeida Garrett e em Os Maias
de Eça de Queiroz, onde se podem com facilidade assinalar
peripécias, reconhecimentos e catástrofe (pelo menos latentes).
ANAGNORISIS; PERIPETEIA;
TRAGÉDIA
Bib.: Aristóteles, Poética
(Tradução, Prefácio, Introdução, Comentário e Apêndices de
Eudoro de Sousa), 2ª. ed. rev. e aumentada,
1986.
António
Cândido Franco |