EXPERIMENTALISMO
O Experimentalismo Poético, é uma das tendências do vanguardismo
literário e artístico da segunda metade do séc. XX (também há
Pintura Experimental, Música Experimental, Teatro Experimental,
Cinema Experimental, etc) que se apoia numa teorização em que
são determinantes, entre outros factores, a Linguística Moderna,
o Estruturalismo, a Semiótica, a Teoria da forma e a Teoria da
Informação (em que se destacam respectivamente os nomes da
Saussure, Jakobson, Levy Strauss, Abraham Moles) mas também a
Ciência Experimental, a Publicidade e a teconologia de ponta.
Perante os fenómenos da comunicabilidade artística, os
Experimentalistas assumem uma postura objectiva, que se deseja
científica, em que assumem grande importãncia as questões de
forma e estrutura.
O experimentalismo Poético português é um Movimento
de vanguarda que surge em Lisboa em meados dos anos 60, embora
já em finais de 50 a sua presença se tivesse feito sentir. O
nome do Movimento deriva de uma Revista intitulada Poesia
Experimental, de que se publicaram apenas dois números - o
primeiro em 1964,o segundo em 1966 - e que inclui textos de
poetas e músicos de vanguarda portugueses, brasileiros,
franceses, italianos e ingleses. inicialmente ligado ao
Movimento Internacional da Poesia Concreta, que surge na Europa
e no Brasil em meados dos anos 50, o O Experimentalismo Poético
português tem raízes no vanguardismo europeu, que remota ao
início do século, e ainda na tradição maneirista e barroca
peninsular, que veio a assumir uma dimensão importante a partir
dos anos 70. A documentação básica relativa ao Experimentalismo
Poético Português encontra-se num volume coligido por Ana
Hatherly e E. M. de Melo e Castro, publicado em 1981, com o
título POEX - Textos Teóricos e Documentos da Poesia
Experimental Portuguesa.
Nas suas linhas gerais, o Movimento da Poesia
Experimental Portuguesa segue o esquema típico dos grupos de
vanguarda: inicialmente é constituído por um pequeno e
heterogéneo grupo de poetas que a publicação de uma Revista
reuniu mais ou menos temporariamente. os que permaneceram fiéis
ao espírito matricial levaram o Movimento para diante,
mantendo-o até hoje. Se bem que os grandes impulsionadores do
Movimento, como António Aragão, Herberto Helder e Melo e Castro,
tivessem à partida ideias bastantes claras acerca do que
desejavam fazer com a criação da Revista, de entre os que
aderiram, uns, estavam cientes do que ela representava; outros,
desejavam apenas colaborar numa experiência criativa nova e
contestatária. A verdadeira tendência do Movimento só mais tarde
ganhou consistência através da publicação dos trabalhos e das
obras teóricas doa que vieram a ser os seus grandes
representantes históricos.
A denúncia foi um dos aspectos assumidos pelo
Experimentalismo Português: a denúncia de uma sociedade, de um
estado de coisas, das décadas de estagnação política que se
reflectiam em tudo, inclusive na criatividade. A Poesia
Experimental surgiu numa época em que decorria já há alguns anos
a guerra colonial (iniciada em 1961) e em que a censura, a
repressão, a perseguição dos dissidentes (intelectuais ou não)
eram uma situação comum. os Experimentalistas mais conscientes,
além das habituais manifestações de contestação levadas a cabo
por todos os vanguardistas de todos os tempos, tinham de
enfrentar a situação que se vivia na sociedade portuguesa de
então, tentando pelo menos desmantelar o discurso do poder, com
todas as suas implicações de alienação e retrocesso. Num país
com mais de oito séculos de tradição lírica, o simples facto de
assumirem uma postura anti-lírica e anti-saudosista e produzirem
textos e objectos tão contrários às tendências aceites, esse
facto era, em si, um acto de subversão política e como tal foi
julgado. O Experimentalismo foi considerado perigoso uma vez que
se insurgia contra o status quo socio-cultural atacando
os instalados hábitos de aceitação e consumo do objecto
artístico.
O Experimentalismo Poético português integrava-se
num Movimento de carácter internacional, que difundia uma
problemática da comunicação que ia a contra-corrente dos padrões
literários estabelecidos. Criando uma rede de relações
internacionais baseada numa comum necessidade de renovação, o
Movimento comportava duas fases distintas: a desmontagem do
obsoleto discurso das literaturas “instaladas” e a proposta de
um novo construtivismo do discurso, apoiando-se sobretudo no
poder da comunicação visual. A Teoria da Poesia Concreta,
emanada do gupo Noigandres de São Paulo, teve um peso
determinante na fase inicial do Experimentalismo Português, mas
não foi a única fonte. Todo o complexo pensamento vanguardista e
sócio-estético em vigor na época as suas marcas na teorização e
nas obras criativas dos Experimentalistas portugueses, um
pequeno grupo de poetas extremamente bem informados de tudo o
que se passava no mundo cultural e até científico do seu tempo.
A atitude para-científica dos Experimentalistas foi
um dos aspectos mais chocantes para o público e para a crítica
de então, que não conseguia admitir que na criação poética
desempenhasse um papel preponderante a lúcida postura do
investigador. o que chocava sobretudo nas declarações e nos
objectos-actos dos Experimentalistas era a ênfase dada ao
processo criativo, que privilegiava mais o percurso da
experiência do que o objecto produzido, reclamando para o poeta
o direito, e até o dever, da reflexão crítica. Outro aspecto
novo era o da exigência da participação activa do leitor/utente
de uma forma então inusitada, proque implicava uma postura
interactiva. Como escreveu António Aragão em 1965, “hoje o
fruidor, o comum dos homens, o denominado público, em frente de
certos objectos artísticos, deixa de lado a cómoda ou incómoda
posição estática de somples receptor de sensações e passa a
actuar como intervenientes, como elemento activo, participante,
como provocador das suas próprias emoções (...). Agora, ao
fruidor é permitido que a sua imaginação criadora actue também,
que a sua imaginação passe de espelho receptivo a operante, que
ponha de lado para sempre a posição de absoluta subalternidade a
que tanto se escravisara.”
Após os dois números da Poesia Experimental
surgiram os dois números de outra Revista, intitulada
Operação, ambos publicados em Lisboa em 1967. A Operação
1, que é um album de grandes dimensões com colaboração
vária, impressa em lâminas de cartolina, foi objecto de uma
exposição numa galeria de arte de Lisboa, A Operação II,
é exclusivamente constituída por textos da Ana Hatherly em que
é feita uma desmontagem analítica de processos criativos
semânticos e estruturais. O lançamento desses dois números da
Operação foi acompanhado de um happenning que, na
altura causou o maior escândalo, do que se dá notícia no volume
antológico Po.Ex. de 1981. O que importa assinalar relativamente
á publicação desta segunda Revista é que, do conjunto das suas
propostas ressalta mais a influência do Estruturalismo e da
Semiótoca do que do Concretismo que, entretanto, tendo sudo
internacionalmente aceite como um modelo básico, começava a
sofrer uma natural evolução.
Quando em 1973 foi publicada a Antologia da
Poesia Concreta em Portugal, Melo e Castro fornece no
Prefácio os dados históricos para o que chama “o parecimento de
manifestações originais de Poesia Concreta” directamente
relacionadas com os contactos com o grupo Noigandres e
chama a atenção para o facto de em Portugal nunca ter havido de
verdadeiro Concretistas, tenodo a Poesia Concreta, como
experiência criativa, interessado apenas “a determinados poetas
em determinada altura, como via de alargamento da sua pesquisa
morfo-semãntica”. E acrescenta: “A poesia Concreta veio
relembrar, aos poetas e aos homens, que se escreve com as mãos e
que o acto físico de escrever tanto se pode fazer com palavras
como com gestos ou objectos, estabelecendo assim uma ponte com o
gestualismo pictórico e com a caligrafia oriental, ao mesmo
tempo que o conceito de poesia=fazer, e de poema=coisa
feita, é recuperado no sentido original grego, que
entretanto se perdera sob as montanhas de detritos semânticos e
etimológicos, onde jazia e circulava já irreconhecível”.
A Poética do Experimentalismo português encontra-se
dispersa nos textos dos seus teorizadores e é corroborada pelas
obras produzidas pelos seus principais cultores ao longo de
décadas que, apesar da sua diversidade, demonstram uma notável
fidelidade aos princípios básicos do Movimento. Uma certa margem
de indefinição, que por vezes se nota, é desejada como tal,
funcionando como reivindicação de uma postura aberta,
exigida pelo próprio princípio de de experimentação.
É de assinalar, porém, a mudança operada a partir da
Revolução de 25 de Abril de 1974, quando se tornou mais nítida a
postura ética do Movimento, declarando-se abertamente
anti-fascista, como se pode ver por exemplo em obras ensaísticas
como A Dialéctica das Vanguardas, de Melo e Castro.
Quanto a posturas específicas de ordem estética são
ilustrativas obras como O Escritor e A Reinvação da
Leitura, de Ana Hatherly, e O Silêncio dos Poetas, de
Alberto Pimenta.
Outro aspecto que se desenvolve após o 25 de Abril
foi o da importância crecsente que assumiu a tradição barroca
nacional. A defesa da poética barroca, por si só ou em relação
com as poéticas modernas, fez sempre parte do programa do
Experimentalismo Português por razões éticas e estéticas. No
prefácio de A casa das Musas, obra publicada em 1995, é
da da uma explicação para esse facto: “Os Experimentalistas
portugueses puseram em prática as mais modernas teorias da
Linguística, do Estruturalismo, da Semiótica, da teoria da
Informação e inseriram-se no Movimento Internacional da Poesia
Concreta. Os que defenderam a poesia barroca fizeram.no por três
motivos: 1º. - porque ela era condenada pela crítica oficial e,
assim, defendê-la era pôr em prática um programa de suversão; 2º
- porque encontravam nos processos de criação da poesia barroca
- visual ou não - valores processuais, retóricos e lúdicos que,
tendo caído em desuso, à luz de uma nova consideração surgiam
como extraordinariamente dinâmicos e belos; 3º - porque,
encontraram nessa obras paralelos idiossincráticos que ajudavam
a compreender algo da nossa estrutura mental e da nossa
sensibilidade artística ainda hoje”. Em A Dialéctica das
Vanguardas, Melo e Castro declarara já em 1976: “O surto
barroco-experimental de 60 deve ser agora entendido pelo que é:
a manifestação criatica dinãmica de um nundo em transformação,
em que os valores fixos vacilam e caem, as formas se multiplicam
nas suas particularidades materiais, os materiais se valorizam
como definidores do volume, do espaço, do tempo, em relações
probabilísticas abertas.”
Representativo desta postura é o trabalho de
pesquisa que levou à publicação da antologia A Experiência do
Prodígio, uma colectânea de poesia visual portuguesa dos
séculos XVII e XVIII que veio revelar todo um acervo de textos
visuais que contribuiram para fundamnetar historicamente as
propostas de renovação da escrita poética evançadas pelo
Experimentalismo português. Outra publicação que ilustra a
importância dessa pesquisa é o número 4/5 da Revista
Claro-Escuro, em que é feita por diversos autores uma
aproximação entre o Barroco, o Neobarroco e o Metabarroco actual.
A Poesia Experimental Portuguesa tem relativamente
poucos poetas no seu activo, pois de entre aqueles que
colaboraram na Revista inicial, só quatro se mantiveram
declaradamente fiéis ao Concreto-Experimentalismo: António
Aragão, Salette Tavares, E. M. de Melo e Castro e Ana Hatherly.
Outros que surgiram depois, como José-Alberto Marques; Silvestre
Pestana, Abílio, António Barros, Alberto Pimenta, Fernando
Aguiar, encontraram os seus próprios caminhos, embora ligados,
mais ou menos directamente, ao espírito do Movimento. De uma
maneira geral desigandos hoje por Poetas-Visuais, os
Experimentalistas portugueses, tanto os antigos como
os novos, repartem a sua actividade entre uma produção
literária e emnsaística e uma inserção em zonas particulares das
artes visuais - pintura, instação e audio-visual - e das artes
do espectáculo, como a perfomance, além duma continuada
presença em exposições, colóquios e publicações internacionais.
A perfomance atingiu grande desenvolvimento a
partir doa anos 80 e nesse sector é de destacar a actividade de
Alberto Pimenta e de Fernando Aguiar a nível nacional e
internacional. Quanto à videopoesia, que utiliza os meios
da alta tecnologia como suporte, o seu principal cultor é Melo e
Castro que segue essa via desde os anos 70.
Num recente artigo publicado na Revista espanhola
Espacio Escrito, 11/12, Ana Hatherly e E. M. de Melo e
Castro declaram :“Quanto a nós, a Poesia Visual hoje é uma
alternativa ao hiper-subjectivismo e decadentismo que invadiram
a poesia a partir doa anos 80. Dadas as suas grandes
potencialidades de comunicação, ela pode veicular um optimismo
construtivista que claramente se opõe às tendências
metafísico-decadentes, típicas de um certo pós-modernismo que
para nós, herdeiros da tradição barroca, aprece destituído de
interesse. Actualmente, a Poesia Experimental encontra uma
renovada justificação, opondo-se aos valores economicistas da
nova selva da sociedade neo-capitalista. Do mesmo modo como se
opuseram ao fascismo e ao realismo socialista, os poetas
experimentais, que continuam activamente produzindo, são agora
hipercríticos do modelo consumista aplicado a todas as
actividades humanas”.
BIBLIOGRAFIA: Max Bense, Pequena Estética, São Paulo,
1971; Augusto de Campos, Teoria da Poesia Concreta - Textos
Críticos e manifestos (1950-1960), São Paulo, 1965; E. M. de
Melo e Castro e José Alberto Marques, Antologia da Poesia
Concreta em Portugal, Lisboa, 1973; E. M. de Melo e
Castro, A Dialéctica das Vanguardas, Lisboa, 1976;
id., As Vanguardas na Poesia Portuguesa do Século XX,
Lisboa, 1980; id., Voos da Fénix Crítica, Lisboa, 1995;
Catálogo do 1º. Festival Internacional de Poesia Viva,
Museu Municipal do Sr. Dr. Santos Rocha, Figueira da Foz, 1987;
Claro-Escuro, Revista de Estudos Barrocos, 4/5, Lisboa,
1990, Ana Hatherly, A Reivenção da Leitura, Lisboa, 1975;
id., O Escritor, Lisboa, 1975;id., A Experiência do
Prodígio - Bases Teóricas e Antologia de textos-Visuais
Portugueses dos Séculos XVII e XVIII, Lisboa, 1983;
id., A Casa das Musas, Lisboa, 1995; Ana Hatherly e E.
M. de Melo e Castro, PO.EX.- Textos e Documentos da Poesia
Experimental Portuguesa, Lisboa, 1981; id., “Poesia
Experimental Portuguesa: Uma Revista”, in Espacio Escrito,
11/12, Badajoz, 1995; K. David Jackson e Johanna Drucker,
Experimental - Visual-Concrete- Avant Grade Poetry Since de
1960s, Amesterdão-Atlanta, 1996; Alberto Pimenta, O
Silêncio dos Poetas, Lisboa, 1976; Perfomarte -Catálogo
do I Encontro Nacional de Performance (org. Fernando Aguiar,
Manuel Barbosa), Torres Vedras, 1985; Pedro Alexandre da Cunha
Reis, Problemática genérica da Poesia Concreta
(dissertação de mestrado), Lisboa, 1995.
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