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ISBN: 989-20-0088-9

 

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© Carlos Ceia

2005

 

Centre for English, Translation and Anglo-Portuguese Studies

Research group:

Literature, Media and Discourse Analysis

 

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EXPERIMENTALISMO

 

O Experimentalismo Poético, é uma das tendências do vanguardismo literário e artístico da segunda metade do séc. XX (também há Pintura Experimental, Música Experimental, Teatro Experimental, Cinema Experimental, etc) que se apoia numa teorização em que são determinantes, entre outros factores, a Linguística Moderna, o Estruturalismo, a Semiótica, a Teoria da forma e a Teoria da Informação (em que se destacam respectivamente os nomes da Saussure, Jakobson, Levy Strauss, Abraham Moles) mas também a Ciência Experimental, a Publicidade e a teconologia de ponta. Perante os fenómenos da comunicabilidade artística, os Experimentalistas assumem uma postura objectiva, que se deseja científica, em que assumem grande importãncia as questões de forma e estrutura.

            O experimentalismo Poético português é um Movimento de vanguarda que surge em Lisboa em meados dos anos 60, embora já em finais de 50 a sua presença se tivesse feito sentir. O nome do Movimento deriva de uma Revista intitulada Poesia Experimental, de que se publicaram apenas dois números - o primeiro em 1964,o segundo em 1966 - e que inclui textos de poetas e músicos de vanguarda portugueses, brasileiros, franceses, italianos e ingleses. inicialmente ligado ao Movimento Internacional da Poesia Concreta, que surge na Europa e no Brasil em meados dos anos 50, o O Experimentalismo Poético português tem raízes no vanguardismo europeu, que remota ao início do século, e ainda na tradição maneirista e barroca peninsular, que veio a assumir uma dimensão importante a partir dos anos 70. A documentação básica relativa ao Experimentalismo Poético Português encontra-se num volume coligido por Ana Hatherly e E. M. de Melo e Castro, publicado em 1981, com o título POEX - Textos Teóricos e Documentos da Poesia Experimental Portuguesa.

            Nas suas linhas gerais, o Movimento da Poesia Experimental Portuguesa segue o esquema típico dos grupos de vanguarda: inicialmente é constituído por um pequeno  e heterogéneo grupo de poetas que a publicação de uma Revista reuniu mais ou menos temporariamente. os que permaneceram fiéis ao espírito matricial levaram o Movimento para diante, mantendo-o até hoje. Se bem que os grandes impulsionadores do Movimento, como António Aragão, Herberto Helder e Melo e Castro, tivessem à partida ideias bastantes claras acerca do que  desejavam fazer com a criação da Revista, de entre os que aderiram, uns, estavam cientes do que ela representava; outros, desejavam apenas colaborar numa experiência criativa nova e contestatária. A verdadeira tendência do Movimento só mais tarde ganhou consistência através da publicação dos trabalhos e das obras teóricas doa que vieram a ser os seus grandes representantes históricos.

            A denúncia foi um dos aspectos assumidos pelo Experimentalismo Português: a denúncia de uma sociedade, de um estado de coisas, das décadas de estagnação política que se reflectiam em tudo, inclusive na criatividade. A Poesia Experimental surgiu numa época em que decorria já há alguns anos a guerra colonial (iniciada em 1961) e em que a censura, a repressão, a perseguição dos dissidentes (intelectuais ou não) eram uma situação comum. os Experimentalistas mais conscientes, além das habituais manifestações de contestação levadas a cabo por todos os vanguardistas de todos os tempos, tinham de enfrentar a situação que se vivia na sociedade portuguesa de então, tentando pelo menos desmantelar o discurso do poder, com todas as suas implicações de alienação e retrocesso. Num país com mais de oito séculos de tradição lírica, o simples facto de assumirem uma postura anti-lírica e anti-saudosista e produzirem textos e objectos tão contrários às tendências aceites, esse facto era, em si, um acto de subversão política e como tal foi julgado. O Experimentalismo foi considerado perigoso uma vez que se insurgia contra  o status quo socio-cultural atacando os instalados hábitos de aceitação e consumo do objecto artístico.

            O Experimentalismo Poético português integrava-se num Movimento de carácter internacional, que difundia uma problemática da comunicação que ia a contra-corrente dos padrões literários estabelecidos. Criando uma rede de relações internacionais baseada numa comum necessidade de renovação, o Movimento comportava duas fases distintas: a desmontagem do obsoleto discurso das literaturas “instaladas” e a proposta de um novo construtivismo do discurso, apoiando-se sobretudo no poder da comunicação visual. A Teoria da Poesia Concreta, emanada do gupo Noigandres de São Paulo, teve um peso determinante na fase inicial do Experimentalismo Português, mas não foi a única fonte. Todo o complexo pensamento vanguardista e sócio-estético em vigor na época as suas marcas na teorização e nas obras criativas dos Experimentalistas portugueses, um pequeno grupo de poetas extremamente bem informados de tudo o que se passava no mundo cultural e até científico do seu tempo.

            A atitude para-científica dos Experimentalistas foi um dos aspectos mais chocantes para o público e para a crítica de então, que não conseguia admitir que na criação poética desempenhasse um papel preponderante a lúcida postura do investigador. o que chocava sobretudo nas declarações e nos objectos-actos dos Experimentalistas era a ênfase dada ao processo criativo, que privilegiava mais o percurso da experiência do que o objecto produzido, reclamando para o poeta o direito, e até o dever, da reflexão crítica. Outro aspecto  novo era o da exigência da participação activa do leitor/utente de uma forma então inusitada, proque implicava uma postura interactiva. Como escreveu António Aragão em 1965, “hoje o fruidor, o comum dos homens, o denominado público, em frente de certos objectos artísticos, deixa de lado a cómoda ou incómoda posição estática de somples receptor de sensações e passa a actuar como intervenientes, como elemento activo,  participante, como provocador das suas próprias emoções (...). Agora, ao fruidor é permitido que a sua imaginação criadora actue também, que a sua imaginação passe de espelho receptivo a operante, que ponha de lado para sempre a posição de absoluta subalternidade a que tanto se escravisara.”

            Após os dois números da Poesia Experimental surgiram os dois números de outra Revista, intitulada Operação, ambos publicados em Lisboa em 1967. A Operação 1, que é um album de grandes dimensões com colaboração vária, impressa em lâminas de cartolina, foi objecto de uma exposição numa galeria de arte de Lisboa, A Operação II,  é  exclusivamente constituída por textos da Ana  Hatherly em que é feita uma desmontagem analítica de processos criativos semânticos e estruturais. O lançamento desses dois números da Operação foi acompanhado de um happenning que, na altura causou o maior escândalo, do que se dá notícia no volume antológico Po.Ex. de 1981. O que importa assinalar relativamente á publicação desta segunda Revista é que, do conjunto das suas propostas ressalta mais a influência do Estruturalismo e da Semiótoca do que do Concretismo que, entretanto, tendo sudo internacionalmente aceite como um modelo básico, começava a sofrer uma natural evolução.

            Quando em 1973 foi publicada a Antologia da Poesia Concreta em Portugal, Melo e Castro fornece no Prefácio os dados históricos para o que chama “o parecimento de manifestações originais de Poesia Concreta” directamente relacionadas com os contactos com o grupo Noigandres e chama a atenção para o  facto de em Portugal nunca ter havido de verdadeiro Concretistas, tenodo a Poesia Concreta, como experiência criativa, interessado apenas “a determinados poetas em determinada altura, como via de alargamento da sua pesquisa morfo-semãntica”. E acrescenta: “A poesia Concreta veio relembrar, aos poetas e aos homens, que se escreve com as mãos e que o acto físico de escrever tanto se pode fazer com palavras como com gestos ou objectos, estabelecendo assim uma ponte com o gestualismo pictórico e com a caligrafia oriental, ao mesmo tempo que o conceito de poesia=fazer, e de poema=coisa feita, é recuperado no sentido original grego, que entretanto se perdera sob as montanhas de detritos semânticos e etimológicos, onde jazia e circulava já irreconhecível”.

            A Poética do Experimentalismo português encontra-se dispersa nos textos dos seus teorizadores e é corroborada pelas obras produzidas pelos seus principais cultores ao longo de décadas que, apesar da sua diversidade, demonstram uma notável fidelidade aos princípios básicos do Movimento. Uma certa margem de indefinição, que por vezes se nota, é desejada como tal, funcionando como reivindicação de uma postura aberta, exigida pelo próprio princípio de de experimentação.

            É de assinalar, porém, a mudança operada a partir da Revolução de 25 de Abril de 1974, quando se tornou mais nítida a postura ética do Movimento, declarando-se abertamente anti-fascista, como se pode ver por exemplo em obras ensaísticas como A Dialéctica das Vanguardas, de Melo e Castro. Quanto a posturas específicas de ordem estética são ilustrativas obras como O Escritor e A Reinvação da Leitura, de Ana Hatherly, e O Silêncio dos Poetas, de Alberto Pimenta.

            Outro aspecto que se desenvolve após o 25 de Abril foi o da importância crecsente que assumiu a tradição barroca nacional. A defesa da poética barroca, por si só ou em relação com as poéticas modernas, fez sempre parte do programa do Experimentalismo Português por razões éticas e estéticas. No prefácio de A casa das Musas, obra publicada em 1995, é da da uma explicação para esse facto: “Os Experimentalistas portugueses puseram em prática as mais modernas teorias da Linguística, do Estruturalismo, da Semiótica, da teoria da Informação e inseriram-se no Movimento Internacional da Poesia Concreta. Os que defenderam a poesia barroca fizeram.no por três motivos: 1º. - porque ela era condenada pela crítica oficial e, assim, defendê-la era pôr em prática um programa de suversão; 2º - porque encontravam nos processos de criação da poesia barroca - visual ou não - valores processuais, retóricos e lúdicos que, tendo caído em desuso, à luz de uma nova consideração surgiam como extraordinariamente dinâmicos e belos; 3º - porque, encontraram nessa obras paralelos idiossincráticos que ajudavam a compreender algo da nossa estrutura mental e da nossa sensibilidade artística ainda hoje”.  Em A Dialéctica das Vanguardas, Melo e Castro declarara já em 1976: “O surto barroco-experimental de 60 deve ser agora entendido pelo que é: a manifestação criatica dinãmica de um nundo em transformação, em que os valores fixos vacilam e caem, as formas se multiplicam nas suas particularidades materiais, os materiais se valorizam como definidores do volume, do espaço, do tempo, em relações probabilísticas abertas.”

            Representativo desta postura  é o trabalho de pesquisa que levou à publicação da antologia A Experiência do Prodígio, uma colectânea de poesia visual portuguesa dos séculos XVII e XVIII que veio revelar todo um acervo de textos visuais que contribuiram para fundamnetar historicamente as propostas de renovação da escrita poética evançadas pelo Experimentalismo português. Outra publicação que ilustra a importância dessa pesquisa é o número 4/5 da Revista Claro-Escuro, em que é feita por diversos autores uma aproximação entre o Barroco, o Neobarroco e o Metabarroco actual.   

            A Poesia Experimental Portuguesa tem relativamente poucos poetas no seu activo, pois de entre aqueles que colaboraram na Revista inicial, só quatro se mantiveram declaradamente fiéis ao Concreto-Experimentalismo: António Aragão, Salette Tavares, E. M. de Melo e Castro e Ana Hatherly. Outros que surgiram depois, como José-Alberto Marques; Silvestre Pestana, Abílio, António Barros, Alberto Pimenta, Fernando Aguiar, encontraram os seus próprios caminhos, embora ligados, mais ou menos directamente, ao espírito do Movimento. De uma maneira geral desigandos hoje por Poetas-Visuais, os Experimentalistas portugueses, tanto os antigos  como os novos, repartem a sua actividade entre uma produção literária e emnsaística e uma inserção em zonas particulares das artes visuais - pintura, instação e audio-visual - e das artes do espectáculo, como a perfomance, além duma continuada presença em exposições, colóquios e publicações internacionais.

            A perfomance atingiu grande desenvolvimento a partir doa anos 80 e nesse sector é de destacar a actividade de Alberto Pimenta e de Fernando Aguiar a nível nacional e internacional. Quanto à videopoesia, que utiliza os meios da alta tecnologia como suporte, o seu principal cultor é Melo e Castro que segue essa via desde os anos 70.

            Num recente artigo publicado na Revista espanhola Espacio Escrito, 11/12, Ana Hatherly e E. M. de Melo e  Castro declaram :“Quanto a nós, a Poesia Visual hoje é uma alternativa ao hiper-subjectivismo e decadentismo que invadiram a poesia a partir doa anos 80. Dadas as suas grandes potencialidades de comunicação, ela pode veicular um optimismo construtivista que claramente se opõe às tendências metafísico-decadentes, típicas de um certo pós-modernismo que para nós, herdeiros da tradição barroca, aprece destituído de interesse. Actualmente, a Poesia Experimental encontra uma renovada justificação, opondo-se aos valores economicistas da nova selva da sociedade neo-capitalista. Do mesmo modo como se opuseram ao fascismo e ao realismo socialista, os poetas experimentais, que continuam activamente produzindo, são agora hipercríticos do modelo consumista aplicado a todas as actividades humanas”.

 

BIBLIOGRAFIA:  Max Bense, Pequena Estética, São Paulo, 1971; Augusto de Campos, Teoria da Poesia Concreta - Textos Críticos e manifestos (1950-1960), São Paulo, 1965; E. M. de Melo e Castro e José Alberto Marques, Antologia da Poesia Concreta em Portugal, Lisboa, 1973; E. M. de Melo e Castro, A Dialéctica das Vanguardas, Lisboa, 1976; id., As Vanguardas na Poesia Portuguesa do Século XX, Lisboa, 1980; id., Voos da Fénix Crítica, Lisboa, 1995; Catálogo do 1º. Festival Internacional de Poesia Viva, Museu Municipal do Sr. Dr. Santos Rocha, Figueira da Foz, 1987;  Claro-Escuro, Revista de Estudos Barrocos, 4/5, Lisboa, 1990, Ana Hatherly, A Reivenção da Leitura, Lisboa, 1975; id., O Escritor, Lisboa, 1975;id., A Experiência do Prodígio - Bases Teóricas e Antologia de textos-Visuais Portugueses dos Séculos XVII e XVIII, Lisboa, 1983; id., A Casa das Musas, Lisboa, 1995;  Ana Hatherly e E. M. de Melo e Castro, PO.EX.- Textos e Documentos da Poesia Experimental Portuguesa, Lisboa, 1981; id., “Poesia Experimental Portuguesa: Uma Revista”, in  Espacio Escrito, 11/12, Badajoz, 1995; K. David Jackson e Johanna Drucker, Experimental - Visual-Concrete- Avant Grade Poetry Since de 1960s, Amesterdão-Atlanta, 1996;  Alberto Pimenta, O Silêncio dos Poetas, Lisboa, 1976;  Perfomarte -Catálogo do I Encontro Nacional de Performance (org. Fernando Aguiar, Manuel Barbosa),  Torres Vedras, 1985;  Pedro Alexandre da Cunha Reis, Problemática genérica da Poesia Concreta (dissertação de mestrado), Lisboa, 1995.

 

Ana Hatherly


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Os verbetes cujo redactor não se assinala na lista por letras são da autoria de Carlos Ceia. Os verbetes a cor-de-laranja ainda não foram redigidos.

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Nome do Autor do verbete, s.v. "Verbete", E-Dicionário de Termos Literários, coord. de Carlos Ceia, ISBN: 989-20-0088-9, <http://www.fcsh.unl.pt/edtl> (data da consulta).

 

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Última actualização: 29-08-2009