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Hipertexto
Termo
cunhado por Theodor H. Nelson, que o propôs pela primeira vez em
1965, numa comunicação apresentada à Conferência Nacional da
Association for Computing Machinery, nos Estados Unidos. O
hipertexto é uma forma não linear de apresentar a informação
textual, uma espécie de texto em paralelo, que se
encontra dividido em unidades básicas, entre as quais se
estabelecem elos conceptuais. Este tipo de texto electrónico,
cuja existência física consiste num código digital armazenado no
disco rígido do computador e na sua memória operativa, depende
em exclusivo da ciência do leitor em manipular os elos
conceptuais que se estabelecem entre as unidades de informação
ou grupos de unidades que podem distribuir-se e circular por
todo o mundo. É o caso da Internet, que utiliza a linguagem HTML
(HyperText Markup Language) que permite descobrir a
informação disseminada, num sistema em que todos podem comunicar
com todos, em sincronia. Este sistema global de informação pode
incluir não só texto mas também imagem, animação, vídeo, som,
etc., falando-se neste caso de hipermedia. A exibição de
museus, a apresentação de materiais académicos, os livros
electrónicos, os pacotes educativos, etc. são formas de
hipermedia. De notar que nem todos os textos que se encontram na
Internet são necessariamente hipertextos, por exemplo, um dos
formatos mais usuais para divulgação de documentos formais ou
textos originais que exigem um certo nível de protecção de
escrita, documentos com a extensão .pdf; também um simples texto
digitalizado com um qualquer processador de texto pode ser
importado para a Internet sem qualquer marca de
hipertextualidade, o que acontece com a publicação online de
dissertações, ensaios, textos de opinião,, obras completas de
diferentes literaturas, etc.
Para a
textualidade, não há clara diferença entre hipertexto e
hipermedia, pois é possível passar com a mesma facilidade de um
nível verbal para um nível não verbal. Hoje comercializam-se
enciclopédias multimedia, por exemplo, que ilustram facilmente
este conceito. O hipertexto apresenta-se no ecrã em blocos de
texto, sendo possível observar dois modos de navegação: uma
listagem dos diferentes blocos disponíveis e uma cartografia das
diferentes ligações possíveis entre esses blocos. O CD-ROM sobre
Camões (Porto Editora, 1996), que contém a obra completa do
Autor entrelaçada com dados sobre a vida de Camões e a sua época
serve de exemplo das potencialidades conceptuais de um
hipertexto. Mas uma lista telefónica, por exemplo, não pode
entrar na categoria de hipertexto, por não ser possível
encontrar uma relação conceptual entre as unidades básicas de
informação (neste caso, os números de telefone).
No início
de S/Z, Barthes descreve-nos um tipo de textualidade que
anuncia já aquilo a que hoje se chama hipertexto, ou seja, um
texto ideal em que “as redes são múltiplas e jogam entre si sem
que nenhuma delas possa encobrir as outras; esse texto é uma
galáxia de significantes e não uma estrutura de significados;
não há um começo: ele é reversível; acedemos ao texto por várias
entradas sem que nenhuma delas seja considerada principal; os
códigos que ele mobiliza perfilam-se a perder de vista,
são indecidíveis (…); os sistemas de sentido podem apoderar-se
desse texto inteiramente plural, mas o seu número nunca é
fechado, tendo por medida o infinito da linguagem.” (Edições 70,
1980, p.13). O conceito de texto legível que Barthes
apresenta aqui está muito próximo do conceito electrónico de
hipertexto: “o que pode ser lido, mas não escrito”, ou seja, na
prática, os impulsos electrónicos armazenados são traduzidos
pelo computador em texto legível que pode ser exibido ou
impresso, não possuindo uma existência material como no caso de
um livro impresso. Em L’ arquéologie du savoir (1969),
Michel Foucault segue a mesma filosofia de concepção do texto
ideal, em termos de “redes de referência” e elos de ligação
conceptual.
Um conceito
diferente de hipertexto, embora seguindo a ideia de texto em
paralelo, é-nos dado por Genette em Palimpsestes. La
littérature au second degré (1982): texto que resulta de uma
transformação premeditada de um texto pré-existente, como no
caso da paródia (v.). A esta modalidade chama Genette
hipertextualidade, que é uma das cinco possibilidades de
transtextualidade (v.), ou seja, de “transcendência textual
do texto”. Esta ideia parece-nos mais próxima das
características gerais do hipertexto, que é, acima de tudo, uma
possibilidade universal de diálogo de um texto original com
outros textos ocultos, mas inter-relacionados e disponíveis para
estabelecer qualquer relação lógica de significação. O conceito
de hipertexto genettiano está, contudo, preso da condição de
texto palimpséstico, ou seja, de um texto que é sempre absorvido
e apagado premeditadamente por outro, ao passo que o conceito
electrónico de hipertexto pressupõe um diálogo intertextual, sem
que nenhuma forma textual apague necessariamente qualquer outra
que com ela se relacione.
O
hipertexto só existe para o leitor depois que o computador o
exibe e cada acto de leitura pode então funcionar como
recriação (quer no sentido de criar de novo quer como
divertimento) textual. Os criadores Michael Joyce e Stuart
Moulthrop, por exemplo, utilizaram as infinitas potencialidades
literárias e ficcionais do hipertexto com obras concebidas para
computadores Macintosh, respectivamente, Afternoon: A Story
(1990) e Victory Gardens (1990), onde o leitor pode
navegar entre diferentes lexias, a designação de Barthes
que mais se aproxima das unidades de informação que compõem o
hipertexto. De notar também que o autor de um hipertexto não
mais pode colocar-se numa posição de omnisciência sobre o texto,
ao contrário do autor tradicional que controla (ou cria
personagens que controlam) de alguma forma o sentido da leitura
e os passos lineares do leitor. O autor de um hipertexto não
pode começar nem acabar a sua obra, pois esses limites, pela sua
natureza dinâmica, estão sempre entreabertos à criatividade
literária do leitor e à sua competência tecnológica também. A
omnisciência hipertextual é agora uma experiência colectiva e
ilimitada, nunca se podendo fechar a si própria num único
sentido.
A este
nível, e diluindo cada vez mais a relação entre leitor e autor,
o hipertexto pode fazer uso da intertextualidade de uma
forma que o texto impresso tradicionalmente não pode, o que nos
permite prever uma progressiva libertação deste tipo de texto de
um certo determinismo socio-histórico e aproximar a criação
textual de um processo mais aberto de infinitas interligações.
HIPOTEXTO; INTERTEXTUALIDADE;
LITERATURA GERADA POR COMPUTADOR; TEXTO; TEXTUALIDADE
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Conceitos, Problemas e Hipóteses de Trabalho”, in Didáctica
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http://cheiron.humanities.mcmaster.ca/~htp/
http://www-bib.eng.uminho.pt/pessoal/eloy/curso/hipertex.htm
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http://www.uni-jena.de/ms/tele/part2.html
http://ebbs.english.vt.edu/hthl/HyperLit_Home.html
http://www.uq.edu.au/~uejchris/hyper/hyprlink.htm
Carlos Ceia |