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LITERATURA
DE CORDEL
A
literatura de cordel - poesia popular impressa em folhetos e
vendida em feiras ou praças -, tal como é cultivada no Brasil
até hoje (vésperas do Terceiro Milénio), teve origem em
Portugal, onde por volta do séc. XVII se popularizaram as
folhas volantes (ou folhas soltas) que eram vendidas
por cegos nas feiras, ruas, praças ou em romarias, presas a um
cordel ou barbante, apra facilitar suas exposição aos
interessados. Nessas folhas volantes, de impressão
rudimentar, registavam-se factos históricos, poesia, cenas de
teatro (como o de Gil Vicente), anedotas ou novelas
tradicionais, como O Imperatriz Porcina, Princesa Magalona
ou Carlos Magno, textos que eram memorizados e cantados
pelos cegos que os vendiam. Essas folhas volantes
lusitanas, por sua vez, tiveram origem no grande caudal da
Literatura Oral, tal como se arraigou na Península Ibérica, onde
se formou o velho Romanceiro peninsular. Desta fonte primeva,
sairam inicialmente os pliegos volantes que circularam na
Espanha desde fins do séc. XVI e, destes, as folhas volantes
portuguesas. Ambas as formas tiveram, como antecessora, a
littérature de colportage, pequenos libretos surgidos na
França no início do séc. XVI, com popularização da imprensa.
Eram folhetos impressos em papel de baixa qualidade, em cor
cinza ou azul (daí o nome genérico de “Biblioteca Azul”). Seus
textos eram velhos romances, cantigas, vidas edificantes, factos
históricos ... recolhidos da tradição ora e bastante
simplificados em sua redacção.
Difundidos por toda a Europa, essa forma popular de literatura,
chamada “de cordel”, foi transladada para o continente americano
pela acção de seus descobridores espanhóis e portugueses, à
medida em que se instalavam nas terras por eles conquistadas.
“Nas naus colonizadoras, com os lavradores, os artíficies, a
gente do povo, veio naturalmente a tradição do Romanceiro, que
se fixaria no Nordeste do Brasil, como literatura de cordel.”
(Câmara Cascudo, 1973).
Nos países hispano-americano, essa literatura de cordel
se difundiu com outros nomes: corridos (México,
Venezuela, Nicarágua, Cuba ...) e hojas ou pliegos
sueltos (Argentina, Chile, Paraguai, Uruguai, Peru ...).
Textos esses em que predominava a forma poética.
“Enquanto não se difudiu a tipografia, foi essa a forma qua
poesia popular encontou para se divulgar. Se na Idade Média, os
jograis populares ou palacianos, cantando nas festas e animando
o povo, constituiam a comunicação dessa poesia, com a
transformação do tempo, tais formas também foram-se
transformando.” (Manuel Diégues Júnior)
Foi no Nordeste do Barsil (da Bahia ao Pará) que essa
literatura de cordel se arraigou mais profundamente e
continua como forma viva de comunicação, tornando-se uma das
características diferenciadores dos costumes dessa imensa região
em relação às demais regiões brasileiras. Pela interpreterção do
grande pesquisador que foi Câmara Cascudo, sabemos que, “No
Nordeste, por condições sociais e culturais peculiares, foi
possível o surgimento da literatura de cordel, da maneira
como se tornou hoje em dia característica da própria fisionomia
cultural da região. Factores de formação social contribuíram
para isso: a organização da sociedade patriarcal, o surgimento
da manifestações messiãnicas, o aparecimento de bandos de
cangaceiros ou bandidos, as secas periódidas provocando
desequilíbrios económico e sociais, as lutas de família deram
oportunidade, entre outros factores, para que se verificasse o
surgimento de grupos de cantadores, como instrumentos do
pensamento colectivo e das manifestações de memória popular.
(...) Se eram raras as obras impressas, vindas de Portugal ou
dos centros mais adiantados do próprio Brasil, havia à mão os
folhetos contando as velhas novelas populares, ás vezes,
histórias de santo também. Não foi difícil à literatura de
cordel introduzir-se neste ambiente. Tornou-se o meio de
comunicação, o elemento difundidor dos factos ocorridos,
servindo como que de jornal ao pôr a família ao corrente do que
se passava: façanhas de cangaceiro, casos de rapto de moças,
crimes, estragos da seca, efeitos das cheias, tanta coisa mais.
Afinal de contas, no Brasil, o mesmo quadro traçado por
Bernardim Ribeiro ou Garrett, para Portugal.” (Manuel Diégues
Júnior).
Devido à diversidade de assuntos ou temas cantados pela
literatura de cordel, em todos os países ela tem sido
classificada segundo seus “ciclos temáticos”. Tais
classificações diferem bastante entre si, segundo os critérios
usados pelos folcloristas. Em geral essas classificações
abrangem duas grandes áreas-matrizes: a da Tradição (passado) e
a das Circunstâncias (presente). Na Europa, existem importantes
classificações, mas nenhuma definitiva. No Brasil, destacam-se
as de Ariano Suassuna, Cavalcante Proença, Câmara Cascudo,
Leonardo Mota, Manuel Diégues Jr., Orígenes Lessa e Roberto
Câmara Benjamin. cada qual com sua contribuição, sem esgotar o
problema. Uma das classificações mais simples e abrangentes é a
de Manuel Diégues Jr., que cataloga o imenso acervo popular ou
foclórico em três ciclos temáticos:
I. Temas tradicionais: a.) romances e novelas; b.) contos
maravilhosos; c.) estórias de animais; d.)
anti-heróis/peripécias/diabruras; e.) tradição religiosa. Entre
os exemplos mais famosos desse ciclo, estão: Proezas de Carlos
Magno, Histórias dos Doze Pares de França, Cavaleiro Oliveiros,
Cavaleiro Roldão, Roberto Diabo, Helena de Tróia, Histórias da
Imperatriz Porcina, Donzela Teodora ... e outros de origem
bíblica: José do Egipto, Sansão e Dalila, Judas e histórias da
Virgem Maria, Jesus , São Pedro, São Paulo ... No Catálogo da
Casa Rui Barbosa, constam também contos maravilhosos: Ali Babá e
os 40 Ladrões, Proezas de Malasartes, O Barba Azul, A Branca de
Neve, A Bela Adormecida, O Ladrão de Bagdá e outros.
II. Factos circunstanciais ou acontecidos: a.) de
natureza física (enchentes, cheias, secas, terramotos, etc.);
b.) de repercussão social (festas, desportes,novelas
astronautas, etc.); c.) cidade e vida urbana; d.) crítica e
sátira; e.) elemento humano (figuras actuais ou actualizadas,
como Getúlio Vargas, ciclo do fanatismo e misticismo, ciclo do
cangaceirismo, tipos étnicos ou regionais, etc.
III. Cantorias e pelejas: Poemas que nascem oralmente, no
calor dos “desafios” entre dois ou mais cantadores. Em geral,
tais pelejas ou cantorias se perdem, pois ninguém se preocupa em
registá-las por escrito. Mas algumas, devido à memória
prodigiosa dos cantadores (e agora com os recursos electónicos)
acabam escritas em folhetos de cordel e se tornam famosas,
inclusive, devido ao complexo virtuosismo da estrutura poética
que, por vezes, apresentam. É principalmente nestes casos que a
literatura de cordel deixa de ser anónima (como é natural na
literatura popular), pois sempre leva os nomes dos cantadores
responsáveis.
Segundo os pesquisadores, o Brasil é o maior produtor de
literatura de cordel, no mundo ocidental: em cem anos
publicou cerca de 20.000 folhetos, embora em pequenas tiragens
(entre 100 e 200 exemplares cada).
(Joseph M. Luyten).
Há
cantadores e cordelistas famosos (Leandro Gomes de Barros, João
Martins de Athayde, Cuíca de Santo Amaro, pseud. de José Gomes,
Rodolfo Coelho Cavalcante Raimundo Santa Helena; Francklin
Machado; Paulo Nunes Batista, entre outros) que, além de
cantarem e imprimirem os textos tradicionais, inventa cantorias
com temas gerados pelas circunstâncias de seu tempo, pelo
dia-a-dia do povo, e que servem de informação, deleite do
ouvinte ou leitor, ou denúncia dos mal-feitos em prejuízo de
alguém. A maioria dos cordéis é ilustrada pela técnica da
xilografia (gravação em madeira, depois estampada à tinta no
papel, e que tem evoluído muito, em subtilezas técnicas). Arte
regional (no início minimizada como rudimentar), hoje constitui,
juntamente com as “cerâmicas de Mestre Vitalino”, uma das
experssões mais características da arte popular brasileira.
Com o correr dos tempos e o progresso urbano que, embora
devagar, atingiu o Nordeste brasileiro, muitos costumes antigos
desapareceram, mas a literatura de cordel resistente,
mantém-se viva até hoje, concorrendo com a rádio, o cinema e a
televisão, para o entretenimento do povo nas praças, ruas,
feiras, mercados ou em qualquer lugar em que haja um cantador e
sua viola ... Só que, cada vez com mais evidência, o interesse
pelos cordéis antigos vem decrescendo em favor dos
novos cordéis que falaam dos heróis - muito mais,
anti-heróis - dos dias de hoje, e mais denunciando ou zombando
do que inventando acontecimentos do novo Brasil e suas
circunstâncias.
BIBLIOGRAFIA: Horacio Jorge Beco, Cancioneiro Tradicional
Argentino, Buenos Aires, 1960; Sol. Biderman, Messianismo
e Escatologia na Literatura de Cordel, São Paulo, 1970;
Théophilo Braga, O Povo Português nos seus costumes, crenças
e tradições, 2 vols., Lisboa, 1885; Luís Câmara Cascudo,
Dicionário do Folclore Brasileiro, Rio de Janeiro,
1962; Mark J. Curran, A Sátira e a Crítica Social na
Literatura de Cordel, Recife, 1960; Diccionario de la
literatura hispanoamericana, 8 vols. Washington, 1958;
Manuel Diègues Jr., “Literatura de Cordel”, in Revista do
Livro, Rio de Janeiro, nº. 30, pp. 51-57 jul/set. 1969;
id., “A Literatura de Cordel no Nordeste”, in Literatura
Popular em verso, 2 vols., Rio de Janeiro, 1973; id.,
Literatura Popular em Verso-Catálogo, Rio de Janeiro, 1961;
id., Literatura Popular em Verso-Antologia, Rio de
Janeiro, 1964; Armando de Mária y Campos, La Revolución
Mexiacana á través de los corridos, México, 1962; António
José Saraiva, História da Cultura em Portugal, 2 vols.,
Lisboa, 1955; Marc.
Soriano, “Littérature de Colportage”, in Guide de littérature
pour la jeunesse, Paris, 1975.
http://www.sectec.rj.gov.br/redeescola/especialistas/portugues/tema04/por-tm04.html
Nelly
Novaes Coelho |