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REFLEXIVIDADE E AUTO-REFLEXIVIDADE
A reflexividade e auto-reflexividade são qualidades presentes,
potencialmente, em todas as formas de literatura, porém a
insistência nas últimas décadas na investigação dessas
qualidades no romance fazem com que sejam paradigmas mais
facilmente identificáveis no modo narrativo de produção
literária. A procura de paradigmas que sejam capazes de
descrever as características do pós-modernismo na ficção
contemporânea levou a consagrar, teoricamente, o texto reflexivo
e o texto auto-reflexivo como formas de expressão que podem
ajudar a essa tentativa de explicação do que seja o romance
pós-moderno.
Mas podemos aplicar o conceito a todos os discursos auto-reflexivos:
um poema sobre o estatuto literário do poema, um romance sobre o
romance ou uma peça de teatro sobre o teatro. Em qualquer caso,
para se atingir um grau de conformidade, é necessário que o
texto metaliterário possua características bem definidas para a
concretização da auto-reflexividade. Assim, um texto que apenas
registe interpelações esporádicas ao leitor, sem qualquer
objectivo crítico, não tem o mesmo valor metaliterário que uma
obra assumidamente auto-reflexiva. Por outro lado, há que ter em
consideração todas as possibilidades de realização crítica da
auto-reflexividade, condição
sine qua non para
qualquer discurso metaliterário.
Desde o Iluminismo que a ideia de certeza está sempre
presente, mesmo que se apresente como aspiração (a convicção de
se possuir uma qualquer espécie de verdade). As filosofias de
Nietzsche, Heidegger e Derrida constituem o primeiro sinal de
revolta contra a lógica secular da ideia de certeza. Nietzsche
introduz o primeiro paradoxo da reflexividade: “Não há
conhecimento.”; outros têm sido explorados pelos artistas
pós-modernos: um pintor dirá: “Não há originalidade.”, um
cineasta dirá: “Não há representação da realidade.” E um
romancista dirá: “Não há história para contar.”. A conclusão a
extrair de todos estes paradoxos é a mesma: não há conhecimento,
originalidade, representação e história porque não temos nenhuma
certeza extra-linguística ou extra-textual sobre o que sejam
estas categorias. A reflexividade negativa que esta tradição
privilegia é o primeiro passo para uma nova ordem - a
reflexividade que dominou o pensamento ocidental até aqui funda-se
essencialmente na observação empírica, na experiência
fenomenológica ou na crença teológica, o que não chega para
criar as condições para que o homem se sirva da racionalidade
para interrogar a própria natureza indeterminada da
racionalidade. Quando o homem descobre que pode ironizar sobre a
sua própria condição humana, então podemos falar de uma nova
ordem. Assim quando a certeza cede lugar ao simulacro da certeza
e quando todo este processo se revela
textualmente.
A esta nova ordem também
se tem chamado
pós-modernismo
e o recurso a
expressões textuais saturadas de reflexividade é apenas uma
qualidade entre muitas outras e não um traço distintivo da
literatura de uma época.
Um romance auto-reflexivo é aquele que se refere ao seu próprio
processo de criação. The
Golden Notebook abre dessa forma, explicando deasde logo a
sua estrutura formal.
Esta circunstância tem sido apontada como uma das principais
marcas da literatura pós-moderna, mas não nos devemos deixar
iludir pela datação possível desta “literatura”. A auto-reflexividade
é já uma das marcas da técnica narrativa de Cervantes
no
D. Quixote, que contém exemplos suficientes para fundar um
estilo único: na segunda parte da novela-romance, as personagens
lêem, em reflexão crítica e satírica, o texto da primeira metade,
incluindo o próprio protagonista a surpreender uma personagem a
ler uma versão “pirata” do Livro Dois escrito por alguém que não
o autor real Miguel de Cervantes.
A auto-reflexividade é a técnica narrativa de suporte de
qualquer manifestação de
ficcionismo,
mas se não é de nenhuma época em particular, se se trata de um
verdadeiro modo de expressão do literário, o que é que levou a
que se tomasse como um paradigma da ficção pós-moderna?
Se o romance enquanto género literário conhece a técnica da
auto-reflexividade desde a sua nascença, temos que distinguir os
tipos de auto-reflexividade e os modos da sua expressão que mais
têm interessado os romancistas das últimas décadas. Considero
dois tipos fundamentais de auto-reflexividade:
metanarrativa, quando
o texto de ficção se ocupa dos problemas técnicos e estruturais
da narrativa (originalidade, criação literária, escrita
literária, função do narrador, do autor, do leitor, organização
das acções, fundação do estilo e da linguagem, problemas de
retórica, psicologia e sociologia das personagens, etc.);
meta-ideológica,
quando o texto de ficção se ocupa da discussão de ideias
paraliterárias, normalmente vindas dos campos da filosofia, da
ética, da religião ou da política. Neste último caso, o texto de
ficção é muitas vezes um ensaio de ideias que usa uma história
ficcional como ilustração e não como matéria fundamental do
literário, ou seja, ilustra-se um ideia forte com um episódio
romanesco, numa espécie de alegoria filosófica, cuja
demonstração é necessária para credibilizar o pensamento e cuja
ficcionalização é suficiente para nos convencer de que qualquer
fragilidade nos argumentos deve ser atenuada pela natureza não
científica do texto. Sirvam de exemplos para os dois tipos de
auto-reflexividade O
Bosque Harmonioso (1982), de Augusto Abelaira
, para o tipo metanarrativo, e o romance de Graham Greene
The
End of the Affair (1951), para o tipo meta-ideológico.
É neste sentido que vale a pena falar da reflexividade no
romance moderno e contemporâneo como
uma arte revolucionária, como o faz Robert Siegle em
The Politics of
Reflexivity: “Reflexivity is a permanently revolutionary
dimension of literature that persists in resisting the yoke of
any paradigm that attempts to obscure its own self-transforming
qualities.” (Johns Hopkins University Press, Baltimore e Londres,
1986, pp. 244).
O modo de expressão auto-reflexivo pode combinar-se com
muitas outras técnicas narrativas.
Em
Les Faux-monnayeurs
(1926), de André Gide, o protagonista Edouard é um
escritor que prepara afincadamente um novo romance de carácter
auto-reflexivo. Num momento em que o modernismo europeu já se
havia imposto na literatura, o facto mais interessante deste
projecto de escrita é o desafio que faz à estrutura do romance
tradicional, desde sempre dependente de uma trama como suporte
principal. Edouard tenta fugir dessa obediência e propõe
escrever um romance sem trama, sem assunto e sem uma intriga
previamente definida a não ser a história do próprio romance em
gestação. A este projecto de um romance dentro do próprio
romance chamou Gide mise
en abîme. O leitor contemporâneo que desconheça a tradição
metaficcional do romance não saberá reconhecer uma história
organizada como mise en
abîme. E dirá mesmo que esse é apenas um pretexto para dizer
que existe uma história. Um leitor mais avisado reconhecerá que
uma história nunca é apenas uma soma de acções lineares e que em
qualquer situação narrativa não linear, construída com o efeito
de mise en abîme, é
possível descortinar um padrão narrativo.
As digressões
em romances de vanguarda como
Tristram Shandy
(1760-67),
de Laurence Sterne,
e Viagens na Minha Terra (1846), de Almeida Garrett, são descrições de
acontecimentos que pertencem à narrativa e dela não devem ser
dissociados como subtextos dispensáveis. As digressões
de ambos os textos funcionam como meio de interrogação do acto
de narrar, cuja temporalidade é insignificante para o
desenvolvimento da intriga. Pertencem à narrativa e escondem-se
no meio da intriga, mas não integram a sequência de
acontecimentos descritos segundo uma determinada temporalidade e
causalidade. É a condição de reflexividade
narrativa que faz das digressões discursos especiais,
circunstância que serve de justificação às teorias pós-modernas
para o estabelecimento da categoria de metaficção.
MISE EN ABÎME; PÓS-MODERNISMO
BIB:: B. Babcock :”Reflexivity: Definitions and
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(2007);
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Swearingen: Reflexivity in Tristram Shandy: An Essay in
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(1987);
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http://findarticles.com/p/articles/mi_m2342/is_3_33/ai_62828826/print
Carlos Ceia |