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Refrão
Do castelhano refrán,
o refrão é a repetição do mesmo
verso ou conjunto de versos no final de cada estrofe.
Processo formal muito remoto, o refrão é já visível
nas litanias suméricas
e egípcias, na Bíblia, na poesia grega e latina e nos
hinos litúrgicos da
igreja primitiva. Este processo
literário, documentado desde o século XIII e mencionado
na poética
fragmentária, é encontrado na poesia provençal e nas
cantigas paralelísticas galego-portuguesas, nas quais, a par do
paralelismo e do
elixa-prem, prolonga e alarga a ideia fundamental da cantiga,
desde já reduzida, repetindo-a. Tornar-se-à depois parte
integrante da estrutura formal da balada, da canção e do rondó.
Este é o momento base do paralelismo trovadoresco medieval,
pertença da cantiga tradicional e popular e, por isso, mais
frequente entre as cantigas de amigo do que entre
as de amor e as satíricas, distingue a cobla
galego-portuguesa da cobla provençal, que não inclui o refrão Na
grande maioria das suas cantigas, e traduz, na opinião de muitos,
a monotonia do nosso sentimentalismo, além de uma certa
uniformidade e repetição na sua estrutura, visto que todos os
versos da estrofe devem terminar no refrão e como este é o mesmo
para cada estrofe na maioria dos casos uma reprodução exacta, é
inevitável a repetição da ideia, por vezes com ligeiras
variações na forma.
É-lhe atribuída bastante importância como elemento estruturante
e é, muitas vezes, considerado um verdadeiro mote e a alma da
cantiga, visto que encerra toda a sua ideia central. O interesse
por este elemento formal está também testemunhado no Cancioneiro
da Biblioteca Nacional, no qual a palavra “tornel”, em letra do
século XVI identifica a grande maioria das cantigas de refrão e
assinala a preocupação do seu compilador, Angelo Colocci, em
reconhecer as cantigas com esta estrutura formal.
A tipologia dos refrães da lírica galego-portuguesa é variada e
não se esgota no refrão de forma fixa, com o número de versos
inferior ao do resto da estrofe e com o número de sílabas
métricas igual ao dos restantes versos da cobla. Existem outros
tipos de refrão, como o refrão intercalar, cujos versos surgem
total ou parcialmente dentro da estrofe, e o refrão inicial que
aparece no inicio da cantiga e é repetido no fim de cada estrofe,
embora estes dois tipos de refrão não sejam muito frequentes na
lírica galego-portuguesa.
A cantiga de seguir, género estabelecido na
Arte de Trovar,
apresenta como jogo formal o refrão de citação, consiste na
adopção de um refrão de uma cantiga de um autor diferente,
construindo-se um texto com outro significado. A citação de
refrães diferentes em cada estrofe, independentes de qualquer
cantiga e utilizados várias vezes em canções de géneros
diferentes, é também um artifício da lírica francesa medieval,
produzindo uma ideia de repetição semelhante aquela provocada
pela repetição de refrães iguais dentro de estrofe.
Existem ainda refrães com número de versos maior que o número de
versos de cada estrofe, de metro mais longo ou mais curto,
refrães cuja rima não é independente da da estrofe, refrães de
versos repetidos e refrães provérbio, entre outros.
O refrão, elemento integrante da cantiga, documenta igualmente a
união da poesia com a musica, tradição esta já muito anterior à
poesia lírica galego-portuguesa.
Assim, em termos musicais, o refrão poderá ser definido
como uma forma vocal ou instrumental reproduzida após cada copla
de uma composição musical estrófica.
Artifício musical já utilizado em civilizações muito anteriores,
o refrão aparece nas mais remotas formas musicais, quer em
países europeus, quer em civilizações orientais de todo o mundo
surgindo de igual modo na musica popular e profana ou na
religiosa e erudita. Em certos casos, o refrão é constituído
apenas com base na repetição de sons ou constituído por uma
única palavra.
O refrão é actualmente muito comum na música “ligeira”, na qual
segue ainda os preceitos primitivos, mas é bastante raro na
música erudita e culta de vanguarda.
Bib.:
Jose Fradejas Lebrero: “Evolución de un Refran”,
Epos, nº 4 (1988);
G.C. Manuel: “La Cultura del Refran”,
Cadernos de Poetica, nº 4/11 (1987); Mário Garcia Page: “Propriedades
Linguísticas del Refran”,
Epos, nº6 (1990); Ma Nieves Vila Rubio: “El Refran: Un
Artefacto Cultural”,
Revista de
Dialectologia y Tradiciones Populares, nº90 (1990).
Ana Ladeira
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