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ROMANCE PICARESCO
A categoria da narrativa mais importante na definição do romance
picaresco é a da personagem, pois o protagonista desse tipo de
relato é justamente um pícaro. O pícaro é qualificado como uma
personagem de condição social humilde, sem ocupação certa,
vivendo de expedientes, a maioria dos quais escuso. Conforme
González de Gambier aponta (s.d., p.314), o pícaro – anti-herói
por excelência - possui uma filosofia de vida assaz particular:
é materialista, primitivo, desleal, manifestando inclinação para
a fraude e a vadiagem. Estébanez Calderón (2006, p.838), o
principal guia na confecção deste verbete, traça do pícaro o
seguinte retrato: abandonado por seus genitores, que, de
ordinário, são de baixíssima estirpe, o pícaro fica entregue à
sua própria sorte, o que o obriga a se valer de meios
desonestos, como pequenos roubos, para sobreviver. Não é incomum
ele se entregar à mendicância e servir a vários patrões, dos
quais, também, recebe lições daquilo de que não se deve fazer
para ganhar a vida. Entre os móveis de sua conduta, estão a
fome, a miséria e a vontade de ascensão social, para o que, por
sinal, submete-se a condições, às vezes, imorais e o seu tanto
degradantes.
Consoante informação obtida, ainda, de Estébanez Calderón (2006,
p.834), essa espécie de narrativa aparece, na Espanha, em meados
do século XVI, com o anônimo La vida de Lazarillo de
Tormes, y de sus fortunas y adversidades (1554),
constituindo um gênero ou arquétipo no Guzmán de Alfarache
(1a parte, 1599), de Mateo Alemán. Obras outras a
auxiliar o estabelecimento definitivo do gênero picaresco foram
La vida del Buscón llamado Pablos (1626), de Quevedo, e
La Pícara Justina (1605), de F. López de Úbeda. Nessas
narrativas, pode-se apontar certos traços definidores do gênero,
a saber (Cf. Estébanez Calderón, 2006, p.834-835):
1) Trata-se de relatos autobiográficos com narradores
autodiegéticos, usando a primeira pessoa gramatical. No
Lazarillo, por exemplo, o narrador, no prólogo, deixa claro
o objetivo de contar em pormenores sua vida a um narratário (“Vuestra
Merced”).
2) A narração é um texto proveniente das diversas experiências
pessoais (episódios) do pícaro com diferentes patrões.
3) É uma narrativa cujos diferentes acontecimentos estão
concebidos e subordinados a um projeto final: explicar o estado
de desonra em que vive a personagem ao finalizar o relato.
4) Trata-se de uma história retrospectiva em que se dá notícia
da vida da personagem-narradora desde a infância até o momento
em que se efetua a narração. Isto quer dizer que o pícaro conta
sua genealogia nada ideal, seu trabalho para diferentes patrões
(condição servil) e seu próprio estado atual de pícaro, que pode
revestir uma situação bastante difícil, como, por exemplo, estar
escrevendo suas memórias remando numa galera. Com respeito a
este item, Platas Tasende (2007, p.480) afirma que tal narração
retrospectiva se baseia em analepses, mas que, dentro delas, a
história progride de acordo com uma cronologia linear,
organizando-se em episódios justapostos.
Acrescente-se que o pícaro, em sua trajetória existencial,
geralmente, tem um choque áspero com a realidade circundante – o
qual constitui a maior desculpa para suas picaretagens - que o
leva a mentir, a dissimular, a roubar. Para Antonio Candido
(1978, p. 319), na origem, “o pícaro é ingênuo; a brutalidade da
vida é que aos poucos o vai tornando esperto e sem escrúpulos,
quase como defesa”. Com efeito, não se nasce pícaro, torna-se
um, sendo os fatos da vida extremamente importantes para que o
pícaro possa aprender com tais experiências. Daí que ele é autor
de reflexões, no mais das vezes, de teor pessimista. Também se
notam nos romances picarescos, no plano do vocabulário,
obscenidades e expressões de baixo calão.
Vale salientar, enfim, que os romances picarescos abandonam as
cenas amorosas numa época em que estas eram muito comuns: ocorre
que a atenção desloca-se justamente para o social, para a vida
marginal que leva o pícaro. Por oportuno, esclareça-se que a
vida marginal do pícaro não faz com que ele se revolte contra a
sua posição; ele tenta somente extrair o melhor possível dela (Cf.
van Gorp et al, 2001, p. 430). O tom das histórias nas quais se
fazem presentes os pícaros é humorístico. No que atende ao
espaço e à ação do romance picaresco, pronuncia-se Joaquim
Correia (2001, p.130): “Graças à disponibilidade do pícaro para
correr o mundo, a novela picaresca é fundamentalmente uma
narrativa de espaço e de aventuras, proporcionando uma enorme
variedade de lugares, de situações e de costumes”.
Estébanez Calderón (2006, p.835) questiona-se em quais modelos
teria se espelhado o autor anônimo do Lazarillo para
construir obra de tamanha originalidade. Na resposta, o teórico
considera que, nesse romance, aplica-se uma técnica de
composição já empregada no Asno de Ouro, de Apuleio, e
que consiste no atribuir muitas peripécias de ordem folclórica a
uma só personagem.
Bib.: Ana Maria Platas Tasende.
Diccionario de Términos Literários
(2007).
Antonio Candido. Dialética da Malandragem.
In: Manoel Antonio de Almeida.
Memórias de um sargento de milícias.
Edição crítica de Cecília de Lara (1978).
Demetrio Estébanez Calderón. Diccionario de Términos
Literarios (2006). Emma González de Gambier. Diccionario
de terminología literaria (s.d.). Hendrik van Gorp et al.
Dictionnaire des Termes Littéraires
(2001).
Joaquim Correia. “Pícaro/Picaresca”.
In: Biblos, v.4. (2001).
João Adalberto Campato Junior
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