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Romance regional
Romance cuja acção tem lugar num ambiente (rural) específico,
intensamente caracterizado. Subgénero que, tal como o denominado
“romance de espaço”, focaliza a sua atenção no
modus vivendi e
paisagem (natural e humanizada) de uma determinada região
geográfica. Se a classificação do cenário abrange as metrópoles,
então, algumas obras de
Charles Dickens
(Londres) e Eça de Queirós (Lisboa) poderão ser consideradas
romances regionais citadinos/urbanos; no entanto, esta dimensão
regional(ista) é normalmente associada à vivência e à
representação da ruralidade, ou seja, da província, na senda da
sensibilidade romântica que deu ênfase especial a estes mesmos
ambientes sociais. Constituindo o cronotopo - “the
intrinsic connectedness of temporal and spatial relationships
that are expressed in literature”,
[M.M.
Bakhtin, «Forms of Time and Chronotope in the Novel», 2000, in
Michael Holquist (ed.),
The Dialogical Imagination: Four Essays, University of Texas
Press,
Austin, 2000, 84] - uma categoria da narrativa, o critério que
define o romance regional será, então, a primazia-relevância da
categoria (macro)espaço na acção da obra, tal como acontece com
o tempo no romance histórico. Estes dois subgéneros encontram-se,
assim, intimamente relacionados através da intensa cor local e
contextualização cultural de comunidades “individuais” (cf.
George Watson, «Introduction», in Maria Edgeworth,
Castle Rackrent: An
Hiberbian Tale, Oxford University Press,
Londres, pp. vii-xxviii).
Os dialectos, sotaques e idiossincrasias de espaços físicos/sociais/psicológicos
regionais, a que se associam referentes reais, tornam-se temas e
símbolos também do pitoresco, como afirma
Philip Freund, The Art of
Reading a Novel, Collier Books,
Nova Iorque, 1965, 223: “The
regionalist novelist is primarily interested in whatever is
romantic, picturesque [...] about the life of these self-enisled
communities, that still keep their narrow horizons and old
folkways [...]; background is possibly as important as what
happens to the characters.”
Este subgénero encontra-se, portanto, próximo do chamado romance
etnográfico, de que
Les immémoriaux
de
Victor Segalen
(1878-1919) é um exemplo.
Comparada com a situação de outros países, em Portugal, esta
mesma denominação - com a variante “romance rural” - vinga de
forma ténue na crítica literária, excepto no caso da literatura
de cariz (neo)realista, talvez porque a dimensão geográfica e a
divisão política do país - factores antropológicos e extra-literários
- não o facilitem, ao contrário da realidade da Espanha, do
Reino Unido ou dos Estados Unidos da América, onde surgem
inúmeros estudos dedicados ao romance regional e às suas
implicações políticas. Nestes países, vários movimentos
regionalistas e/ou separatistas caracterizam a vivência interna
nacional, daí que a diferenciação geográfico-cultural se
reflicta na sua produção artística e científica, (de)marcando
intensamente a
heterogeneidade social das respectivas massas populacionais;
veja-se, por exemplo,
Louis D. Rubin Jr., (ed.)
The History of Southern Literature,
Louisiana
State
University
Press, Baton Rouge,
1985.
O termo costumbrismo,
aplicado a obras em prosa dos séculos XIX-XX (novelas
de la tierra),
em torno dos costumes e sentimento de pertença regionais, como
os romances de
Estébanez Calderón e Fernan Caballero (La
Gaviota),
remetem para a distinção e relevância espacial dos universos
representados nas obras ficcionais a que são atribuídos co-referentes
reais pela crítica literária e leitores.
Castle Rackrent
(1800) de Maria Edgeworth (1767-1849), publicado durante um
período de “insegurança” nacional(ista), é considerado o
primeiro romance (histórico) regional inglês, de cariz realista
circunstancial, tendo como espaço de acção a Irlanda do século
XVIII. Alguns dos romances de
Walter Scott
(1771-1832) são também considerados regionais devido ao estudo
da história local e aos
folk themes
subjacentes à sua redacção. O próprio autor, no prefácio geral
das
Waverly Novels,
afirma “[...]
I felt that something might be attempted for my own country, of
the same kind with that which Miss Edgeworth so fortunately
achieved for
Ireland
[...]” (The Waverly
Novels, vol. I, «The Border Edition», Macmillan,
Londres, 1901-1930, p. xv). Figuras rústicas e regiões/topónimos
como
Wessex,
apesar de designações fictícias, são associadas a
Thomas Hardy,
que define as suas “Wessex
novels” como “novels of character and environment [...] in order
to preserve [...] a fairly true record of a vanishing life”
(«General Preface, The
Portable Thomas Hardy, vol.
I, Wessex Edition, Harmondsworth,
1977,
pp. 694 e 696, respectivamente); enquanto no século XIX os
romances urbanos e “industriais” apresentam paisagens citadinas
envoltas de temáticas económico-sociais [Gaskell:
Mary Barton (1848),
North and South
(1854-5); George Elliot:
Middlemarch
(1871-2)], nalguns dos quais a dicotomia campo-cidade serve o
propósito de reforçar a caracterização do espaço oposto. Nas
décadas de (19)20 e 30, os romances regionais de H. E. Bates e
Phyllis Bentley, influenciados pelas estéticas do naturalismo e
do realismo social, descrevem as dificuldades e problemas socio-económicos
de determinadas regiões (desfavorecidas). Bentley,
English Regional Novel,
1941, p. 7 descreve este subgénero como uma forma de comparar e
contrapor as diferentes regiões ao todo nacional, retirando a
indústria turística também partido da literatura geográfica,
através das “peregrinações literárias”, por exemplo na capital
irlandesa imortalizada por James Joyce ou no
Lake District, com
base em obras como
D. Eagle e H. Carnell (eds.),
The Oxford Literary Guide
to the British Isles, Oxford, 1977 e M. Drabble,
A Writer’s Britain:
Landscape in Literature,
1979. Em Portugal, Campos Monteiro (1876-1934) publica romances
de pendor popular sob influência de Camilo Castelo Branco,
devendo ainda ser referida a tradição realista dos romances
campesino e de costumes, e nomes como Aquilino Ribeiro, Júlio
Dinis, Samuel Maia, Manuel Córrego, Alves Redol, e, entre muitos
outros, Agustina Bessa Luís, que “resolve mais do que nenhum
outro romancista português do nosso século a velha e fácil
oposição Camilo-Eça, ou seja, romance regionalista
versus romance
universalista” (Álvaro Manuel Machado,
Agustina Bessa Luís: A
vida e obra, Arcádia, Lisboa, 1979, p. 25). No Brasil,
autores como José Alencar (1829-1877), Graciliano Ramos e José
Lins de Rego (1901-1957) elaboram o “painel do romance
regionalista em que diversificadas regiões culturais brasileiras
são apreendidas na sua tipicidade e contraste, evidenciando-se
nelas os diversos tipos humanos que ficariam, sobretudo depois,
como símbolos do homem brasileiro: o sertanejo, o gaúcho, os
naturais da região fluminense do planalto paulista [...] em
romances como O Sertanejo,
O Gaúcho, O
Tronco do Ipê [...].”
(Fernando Cristóvão, “Brasil: do «descobrimento» à «construção»”,
in Actas do Congresso
Luso-Brasileiro “Portugal-Brasil”, vol. 2, GTMECDP, Lisboa,
2000, p. 68). O “horizonte de expectativa” do leitor (local)
exige do escritor algum trabalho de campo etnográfico no que diz
respeito à observação e investigação em torno quer dos costumes
quer das paisagem quer da(s) língua(s) e, até mesmo,
estereótipos sociais que envolvem a geografia e o
ethos que se
pretendem representar, por vezes, de forma auto-reflexiva, da
periferia isolada para os grandes centros (colonizadores) de
produção cultural. As mundividências rural e citadina são
veiculadas no romance, sobretudo, através da descrição do espaço,
da caracterização de figuras típicas e de relações sociais
tradicionais, bem como do exercício dialógico entre personagens
e culturas regionais, elementos essenciais do subgénero que tem
sido alvo de uma abordagem multidisciplinar, no âmbito da
geografia, da história (local), da antropologia, da
sociolinguística e dos estudos literários, áreas estas que se
enriquecem e influenciam mutuamente.
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Rogério
Miguel Puga
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