ROMANCEIRO
Designação atribuída ao género literário de tradição oral
constituído pelo conjunto de breves poemas tradicionais ou
romances cuja origem remonta à Baixa Idade Média. Tal designação
surge já em 1579 com a colecção de Lucas Rodrígues –
Romancero Historiado -, sendo consolidada em 1600 com o
Romancero General.
Enquanto género, o romanceiro constitui o representante
poético-narrativo da balada europeia na Península Ibérica,
apresentando, contudo, características próprias em relação às
viser dinamarquesas, às bilinas russas ou às baladas
escocesas e inglesas.
Relativamente às origens e datação do romanceiro, diversos
problemas continuam
ainda a suscitar o debate no meio académico, uma vez que,
tal como Giuseppe Di Stefano salientou na sua obra El
Romancero, “ La cronología del romancero se funda por un
lado en las fechas de transcriptión o edición de los textos, y
por otro lado en elementos internos, especialmente de los
noticieros” (El Romancero, Narcea Ediciones, Madrid,
1987, p.54). Esta perspectiva crítica
sintetiza a disputa que tem ocupado positivistas e
tradicionalistas ao nível da datação do romanceiro. Deste modo,
a primeira prova documental da existência do género para o mundo
hispânico, o romance de 1421 “Gentil dona gentil dona” em
Castelhano, não constitui o primeiro texto, uma vez que, a
fixação de um poema conservado memorialmente e destinado a ser
transmitido oralmente não coincide
com a sua inscrição no papel ou no pergaminho. Assim, de
acordo com estes princípios, a crítica tradicionalista determina
a existência do romanceiro peninsular já no século XIII, uma vez
que, o mais antigo romance conhecido, o “Válasme Nuestra Señora”,
refere-se nos seus vinte primeiros heptassílabos ao rei São
Fernando. As limitações de tal método de datação são contudo
evidentes, pois apenas os romances históricos, cujo assunto se
reporta a um determinado sucesso ocorrido numa época concreta,
sustentam a teoria da simultaneidade entre composição e
acontecimento. Pese embora as diversas opiniões formuladas pela
crítica acerca das origens cronológicas do romanceiro, o
medievalismo permanece hoje como um dos seus traços distintivos
indiscutíveis.
Ao reconhecer o romanceiro como um género medieval, torna-se
necessário analisar sumariamente o seu carácter memorial e a
relação que o mesmo estabelece com a épica e com as baladas
europeias.
De acordo com os ensinamentos de Menéndez Pidal, grande parte
dos romances de temática épica teriam derivado de fragmentos de
cantares de gesta medievais, ficando posteriormente sujeitos a
um processo de transmissão recriadora, própria da poesia
tradicional, na qual intervinham os poetas profissionais,
autores dos já mencionados cantares de gesta, e o próprio povo,
público que assegurava a sobrevivência oral dos poemas. A
filiação do romanceiro na poesia épica defendida pela teoria
pidalina provocou inúmeras reacções críticas, sendo no entanto
hoje ponto assente que a configuração do género, nomeadamente a
abolição do estrofismo característico da balada europeia, deriva
das relações entre cantares de gesta e romances.
Outra hipótese apontada como explicação para a génese do
romanceiro baseia-se na divulgação, expansão e assimilação de
baladas europeias (sobretudo as de origem francesa e italiana),
quer a partir de versões traduzidas quer em versões originais,
na Península durante a Idade Média. Tais poemas terão sofrido ao
longo de gerações diversas alterações ao nível formal, facto que
os terá afastado paulatinamente da estrutura baladística,
aproximando-os de alguns elementos mais caracterizadores do
género: o verso heptassílabo e a assonância única
O romanceiro irá retirar dos géneros anteriores o seu carácter
memorial, modo específico de conservação e transmissão de grande
parte da poesia medieval. Deste modo, e dado o carácter oral da
poesia romancística, os romances, mais do que objectos poéticos
definitivos devem ser considerados textos em constante devir
, uma vez que o processo de tradicionalização dos mesmos,
segundo Menéndez Pidal “ (...) lleva implícita la
«assimilación» del mismo por el pueblo, esto es, la
acción continuada e ininterrumpida de las variantes (tradicionalidad)”
(Romancero Hispánico: Hispano-portugés, Americano y Sefardí,
Espasa-Calpe, Madrid, 1968, p. 44). Os já referidos processos de
variação do romance voltarão a ser considerados como traço
fundamental do género tradicional por Bráulio do Nascimento
(1964), para quem “(...) a verdade é que o romance permanece
na medida em que se modifica” (“Processos de Variação do
Romance”, Rio de Janeiro, 1964, p.66).
No que se refere ao romanceiro português, propriamente dito,
este não deve ser abordado isoladamente dos seus congéneres
castelhano, catalão, galego, brasileiro e hispano-americano,
pois todos eles constituem “(...) expressões de um mesmo
romanceiro Pan-hispânico cuja existência só é constatável
através das manifestações concretas que dele se encontram nestas
sub-tradições (...)” ( Romanceiro Português de Tradição Oral
Moderna, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 2000, p. 61),
acordo com as palavras do especialista Pere Férre
. Há pelo menos seis séculos que Portugal e Espanha
colaboram na reelaboração da herança épico-lírica tradicional,
muito embora os romances que se cantavam nos séculos XV e XVI
sejam diferentes dos hoje conservados. De facto, as várias
épocas da história do romanceiro foram divididas pela teoria
pidalina em diversa secções que vão desde os romances primitivos
( sem dúvida aqueles que mais se aproximam dos cantares de gesta
medievais ), passando pelos velhos ( épicos de estilo
tradicional, noticiosos e novelescos, eruditos (Romanceiro Médio)
e acabando nos artificiosos (Romanceiro Novo).
Como mostrou a erudita D. Carolina Michaelis de Vasconcelos nos
seus Estudos sobre o Romanceiro Peninsular. Romances Velhos
em Portugal (1907 a 1909), as primeiras referências
romancísticas em Portugal remontam ao século XV. Nuno Pereira e
Jorge da Silveira aludem em 1483 à «mal maridada» como tema
divulgado. Outros poetas do Cancioneiro Geral (1516),
tais como Duarte de Brito, João Rodrigues de Sá ou Pedro de
Almeida parodiam ou aludem a versos pertencentes a romances. No
começo do século XVI, a crescente popularidade do Romanceiro
reflecte-se nas abundantes alusões que o teatro vicentino faz ao
mesmo. Dos poetas quinhentistas podemos ainda destacar nomes
como Camões ou Jorge Ferreira de Vasconcelos dado a sua
frequente utilização de reminiscências do romanceiro.
Com o advento do romanceiro Novo ( em pleno período Barroco ),
constituído por romances artificiosos e artísticos criados de
acordo com um esteticismo conceptual ou formal rígido, a
popularidade dos romances velhos decai em Portugal. Contudo, e
apesar de não possuirmos versões completas de romances tal como
se cantavam na época entre os portugueses, as cerca de 200
alusões a 80 romances velhos que D. Carolina Michaelis conseguiu
apurar entre 50 autores portugueses, justificam amplamente a
enorme popularidade que o romanceiro gozava tanto entre as
camadas populares como na própria Corte.
Em Portugal, a maioria dos romances citados por autores
portugueses na época já referida encontram-se em Castelhano,
facto que confirma as profundas relações temáticas que ambos os
romanceiros estabeleceram desde cedo, aspecto que se vê em parte
justificado pelo papel desempenhado por Castela como o principal
centro difusor de temas heróicos e como ponte geográfica entre a
tradição baladística europeia e a portuguesa. A própria tradição
romancística ao norte do Douro, nomeadamente as versões de Trás-os-Montes,
Beira e Minho, fundem-se até hoje com as galegas e as
castelhanas da montanha de Zamora e Leão, constituindo um bloco
tradicional único. Poderão estes dados indiciar a aniquilação da
nacionalidade dos temas romancísticos? Certamente que tal visão
se caracteriza por um radicalismo evidente, até porque,
o romance deve ser considerado, antes de mais, pertença
da comunidade que o canta, conserva e modifica,
independentemente da sua origem. É pois perfeitamente legítimo
falar do romanceiro lusitano.
Os estudos sobre o romanceiro português foram iniciados com o
advento do romantismo por Almeida Garrett, inicialmente com as
suas refundições de temas romancísticos recolhidos da tradição
oral - “Adozinda” e
“Bernal Françês”
(1828) - e mais tarde com o seu Romanceiro (colectânea de
romances tradicionais – 1843 e 1851). A actividade colectora de
Garrett, legitimada pela procura do que mais puro e genuíno
havia na poesia portuguesa, lançou os alicerces do que viria a
ser, até à década de noventa, a construção do extenso corpus
romancístico português. A labor editorial de Almeida Garrett foi
continuada no decorrer do século XIX por diversos colectores,
entre os quais destacaremos José Maria da Costa e Silva (1832),
António Pereira e Cunha (1844), João Teixeira Soares de Sousa
(1867), Teófilo Braga (1867) e José Leite de Vasconcelos (1880),
entre muitos outros.
Com a chegada do século XX, a década de 70 e subsequentes irão
revelar um novo elenco de investigadores, no qual não deverão
deixar de figurar nomes como Manuel da Costa Fontes, Joanne B.
Purcell, Pere Ferré, Aliete Galhoz e J. David Pinto Correia.
Além da actividade colectora e dos estudos sobre a datação,
génese e transmissão dos romances tradicionais, as investigações
sobre o romanceiro tradicional têm-se desenvolvido noutras áreas.
Estas abrangem, entre diversos aspectos, questões sobre a
estrutura formal dos romances, sobre as variações temáticas do
género e sobre o estado actual do romanceiro.
Acerca do primeiro tópico, e dado as inúmeras variações formais
que os romances tradicionais têm sofrido ao longo dos séculos,
importa destacar, segundo o estudioso Rudolf Baher, as condições
necessárias para a sua existência: rima atoante (polirrímica ou
monorrímica) e versos de catorze ou quinze sílabas métricas (sete,
se forem transcritos em verso curto), as quais se unem,
normalmente, aos versos seguintes por uma oração coordenada (“
Estava a bela infanta no seu jardim assentada/
[
e
]
com pente de ouro na mão, seu cabelo penteava”). Tais
características formais constituem um modelo que é seguido pela
maioria dos romances de expressão castelhana, ao passo que os
textos portugueses tendem a introduzir um maior número de
variações formais.
Relativamente à temática do romanceiro, esta pode estabelecer-se
de acordo com a sua origem (romances épicos, carolíngeos, etc)
ou assunto (romances históricos, bíblicos, clássicos, etc). No
caso da tradição romancística portuguesa, quase todos os grupos
temáticos identificados até ao momento nela se encontram
representados, facto que evidencia a sua riqueza. Estes temas
não são contudo exclusivos do romanceiro português, sendo
partilhados pelas diversas sub-tradições do romanceiro Pan-
hispânico. Esta partilha estende-se a vários romances
específicos, reconhecidos ainda por alguma crítica nacional,
marcadamente romântica, como pertencentes unicamente à tradição
portuguesa, tal como sucede com o romance “A Nau Catrineta”,
poema cantado não só em Portugal como também em França e na
Catalunha.
Quanto ao estado do romanceiro português, recolhas efectuadas já
nos finais do século XX demonstraram a precariedade da
sobrevivência do género em áreas onde ainda no século XIX este
se afirmava com alguma vitalidade. A preferência crescente por
outro tipo de textos, nomeadamente as cantigas narrativas,
frequentemente confundidas com romances, e
a decadência da funcionalidade do próprio poema
tradicional enquanto cantiga de trabalho constituem dois dos
factores principais que explicam, em parte, a decadência do
romanceiro lusitano.
Bib: Almeida Garrett: Romanceiro (I, II e III volumes)
(1992); Braulio do Nascimento: “Processos de Variação do
Romance”, in Revista Brasileira de Folclore (1964);
Carolina Michaelis de Vasconcellos: Estudos sobre o
Romanceiro Peninsula - Romances Velhos em Portugal (1980);
Eugenio Asensio: Cancionero Musical Luso-español del Siglo
xvi Antiguo e Inédito (1989); Giuseppe di Stefano: El
Romancero (1987); Idem: Romancero (1993); J. David
Pinto-Correia: O Essencial sobre o Romanceiro Tradicional
(1986); Pere Ferré (org.): Romanceiro Português de Tradição
Oral Moderna – Versões Publicadas entre 1828 e 1960 (2000);
Idem: Seminário de Literatura Oral e Tradiconal (relatório
para as provas públicas de agregação em Estudos Românicos,
F.C.S.H.-U.N.L.) (1996); Ramón Menéndez Pidal: Romancero
Hispánico - Hispano-portugués, Americano y Sefardí (1968);
Samuel G. Armistead: “The Portuguese Romanceiro in its
European Context”, in Portuguese (1976).
Carla Sofia Caneiro Escarduça |