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Sexualidade e literatura
À conhecida expressão lacaniana “o inconsciente está estruturado
como uma linguagem”, podemos acrescentar com pertinência outra
do autor freudiano: “a realidade do inconsciente é a realidade
sexual”.
Mais do que as noções do inconsciente e da divisão do sujeito de
que nem todos medem a realidade, foi o alargamento da noção de
sexualidade pela psicanálise que escandalizou
e continua a chocar muitos bem-pensantes. Com efeito
desde Freud que o termo sexual se refere a um conjunto de
actividades sem relação com os órgãos genitais e que, assim, o
sexual e o genital deixaram de se confundir. Como nota Lacan, “desde
Os três ensaios sobre a
teoria da sexualidade que Freud supõe a sexualidade como
essencialmente polimorfa, aberrante. O encanto de uma pretensa
inocência da criança rompe-se”. Noutro texto é a pretensa
ignorância da criança que Lacan
ele mesmo interpela em termos definitivos: “Gostaria de
saber, na balança do Eterno, o que pesa como a melhor apreensão
do outro, se a que pode ter o senhor Piaget na sua posição de
professor e na sua idade, ou a de uma criança. Essa sua
prodigiosa permeabilidade a tudo o que é mito, lenda, conto de
fadas, história, essa facilidade em deixar-se invadir pela
narração…”
Essa polimorfia da criança estará na origem da sua vida sexual
adulta, mas também na dos seus sonhos, lapsos, actos falhos,
neuroses ou perversões. Mas é também ela quem nos conduz às e
nas nossas actividades criativas sociais, profissionais ou
artísticas.
Freud sustenta que a pulsão sexual (que não é um todo, antes se
concretiza nas chamadas
pulsões parciais) é o efeito da relação a um outro ser
humano falante e desejante e que no investimento libidinal é
visado um objecto, indiferente em si mesmo, mas subjectivamente
e históricamente determinado que satisfaz (parcialmente) o fim
do gozo da pulsão sexual. Fim que não tem nada a ver com o acto
sexual na sua finalidade biológica de reprodução. Freud supõe
assim um parentesco psíquico entre a satisfação sexual obtida no
acto sexual e a obtida pela sublimação das componentes da pulsão.
Sublimação que ele considera na origem das “obras culturais mais
grandiosas”.
É assim que Lacan, para quem, “face à instância da sexualidade
todos os sujeitos estão em igualdade, desde a criança ao adulto:
só têm a ver com o que, da sexualidade, passa nos interstícios
da constituição subjectiva, nas redes do significante”. Não será
assim deturpar o pensamento daquele que disse “que não há
relação sexual”, dizer que a criação artística, a literária
nomeadamente é o que mais nos aproxima de uma relação sexual
enfim conseguida.
De facto, toda a fala é duplamente sublimação do corpo:
substitui a simbiose corporal primitiva, é o lugar da distância,
permite realizá-la, regulá-la; e integra de modo essencial a
experiência do corpo como sua base essencial e real. Esse
momento irrecuperável para a memória que se diz permanece na
memória sem nome. Aí se forma o desejo que a psicanálise
descobre como impossível de satisfazer. O retorno a essa memória
nas mais variadas formas parece fundamental ao artista. E a
tentativa desesperada de reencontrar esse corpo primitivo na sua
relação ao outro fundamental à criação literária.
Bib.: Sigmund Freud,Três
ensaios sobre a teoria da sexualidade, (1905), in Textos
Essenciais da Psicanálise, vol.II, Lisboa, Europa-América, 1989;
Compendio del
Psicoanalisis, (1938), Obras Completas, vol.III, Madrid,
Biblioteca Nueva, 1973. Jacques Lacan,
Os quatro conceitos
fundamentais de psicanálise, (SeminárioXI, 1964), Zahar
Editores, Rio de Janeiro, 1979 (1973). Roland Barthes,
Sade, Fourrier, Loyola,
(1971), Lisboa, Ed.70, 1979.
Maria Belo
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