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SimbÓlico
Registo da actividade humana, segundo em relação ao
real (v.), em parte
inconsciente, em parte consciente, ligado às regras da
aprendizagem da fala, à função do
significante(v.) e às
leis da cultura. A psicanálise, ao estudar a estruturação mental
do sujeito,(v.) pôs a
nu a função simbólica nessa estruturação o que permitiu afirmar
que “o inconsciente (o
real do corpo) está estruturado como uma linguagem”(Lacan).
Lacan partiu do registo mais próximo, o
imaginário(v.), pelo
seu estudo na organização da fase do espelho, recuando depois ao
simbólico no trabalho
sobre a cadeia significante, para chegar enfim à instância mais
primitiva, o real
pelo aprofundamento da relação sexual e da sua impossibilidade.
O simbólico faz do
homem um ser regido pela linguagem a qual determina as formas do
seu laço social e das suas escolhas sexuadas. Não podemos saber
ainda (saber-se-á alguma vez?) como se fundou o ser falante (parlêtre),
mas onde quer que seja que as investigações encontrem seres
humanos, os túmulos, o desenho, os signos esculpidos ou a
escrita, assim como as leis de parentesco, de trocas, os dons,
pactos e alianças, os rituais e os interditos, tudo indica a
existência desde sempre de leis da fala.
Desde o nascimento que o pequeno ser mergulha num mundo da
linguagem que lhe pré-existe. O discurso que o envolve desde a
concepção, discurso do Outro que o retira da simbiose materna e
que o projecta desde logo no futuro e como ser-para-a-morte, tem
duas características. Por um lado só pode ser um discurso
marcado pela cultura envolvente, a sua língua, as suas regras,
regulações, os seus significantes.
Por outro lado esse discurso está marcado pela história e a
estrutura daqueles que o dizem (em geral os pais) e que incarnam
à sua maneira, segundo o momento da sua vida, essa cultura.
Conotam assim com significantes fortes a expressão do seu
próprio pedido e desejo relativo àquele que vem de nascer e que,
nesse discurso ocupa fundamentalmente o lugar de objecto desse
pedido e desse desejo. Desejo ambivalente
e inconsciente dessa ambivalência de que o bébé permaneça
nesse lugar e simultâneamente que saia dele para um lugar de
sujeito, um lugar de um outro suposto saber responder às
questões inconscientes dos pais. Assim o significante do pedido
primitivo joga sem descanso sobre este equívoco e transporta-o
para além da infância dando ao discurso do Outro inconsciente o
seu lugar simbólico.
Eis porquê qualquer fala vai passar a ter uma dimensão onde,
para além do que ela significa visa outra coisa que não é por
definição articulável no pedido expresso e
que designa na fala essa parte origináriamente recalcada.
(Sobre esse recalcamento primitivo v.
deslocamento). Esta é
a base da disjunção do
significante(v.) da sua função de significado. Eis o que,
para além da sua função de nominação ou designação, institui na
linguagem a dimensão simbólica.
Esta dimensão é a dimensão da literatura. Podendo parecer à
primeira vista que é do imaginário que o escritor se serve, é no
registo do simbólico que a literatura se elabora e que ela é
lugar de transmissão de uma cultura. Por isso ela se perenisa e
não perde valor, ainda que a língua, as forma, a sintaxe mudem.
Eis porquê ela deu um contributo essencial à psicanálise e
também recebe hoje desta um contributo de leitura.
“Sabe-se que é na experiência inaugurada pela psicanálise que se
pode verificar qual a ponta do imaginário pela qual o simbólico
agarra o organismo humano até ao mais íntimo. O nosso ensino
sustenta que essas incidências imaginárias nada nos dão que não
seja inconsistente a menos de serem relacionadas com a cadeia
simbólica que as liga e as orienta. É a lei própria dessa cadeia
que rege os efeitos determinantes para o sujeito: a
forclusão(v.), o
recalcamento, a denegação. Há que notar que esses efeitos seguem
o deslocamento(v.)
do significante tão fielmente que os factores imaginários,
apesar da sua inércia, assemelham-se apenas a sombras e reflexos.”
(Lacan)
É verdade que foram os contributos da época, de Saussure a
Jakobson, aos quais Lacan não deixa de se referir regularmente,
que lhe permitiram
estes avanços na psicanálise. Mas também é verdade que Freud, a
quem estes instrumentos faltaram, descreveu mecanismos como os
do processo primário em que se estrutura o inconsciente que
cobrem exactamente as funções que a linguística diz determinarem
os mais radicais efeitos de linguagem, nomeadamente a
metáfora(v.) e a
metonímia(v.), ou
seja os efeitos de combinação e substituição do
significante.
Bib.: Jacques Lacan, La
lettre volée e
L’instance de la lettre dans le signifiant, em Écrits,
Paris, Le Seuil, 1966;
Les non-dupes errent, (seminário XXI – 1973-74), inédito;
R.S.I. (Seminário XXII), Ornicar?, Paris, 1975.
Maria Belo
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