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SOCIOCRÍTICA
Procurando
demarcar-se de um sociologismo literário que tendeu a
petrificar-se nas teorias do reflexo e das homologias, a
Sociocrítica busca apreender o fato literário como
mise-en-texte dos discursos sociais, como o lugar onde os
diferentes discursos em circulação na sociedade, em um momento
dado, materializam-se no texto literário. Alicerçada nos
seminais ensinamentos bakhtinianos, a Sociocrítica entende que o
escritor não permanece alheio ao vasto rumor discursivo que o
circunda e que as palavras de que irá utilizar-se já “estão
habitadas” por sentidos que as sustentaram anteriormente. Assim,
a Sociocrítica, longe de fetichizar o contexto sócio-histórico,
como fez uma Sociologia da literatura epigonal, irá preocupar-se
com o contexto inter-discursivo, com “o conjunto do que se diz e
se escreve em um estado de sociedade” que, na definição de Marc
Angenot, constitui o Discurso Social.
No âmbito
da Sociocrítica, podemos verificar pelo menos, simplicando
bastante as coisas, duas tendências: a “escola” de Montreal e a
“escola” francesa:
A escola de
Montreal é liderada por Régine Robin e Marc Angenot. Partem da
definição de Discurso Social que é “tudo o que se diz e se
escreve em um estado de sociedade; tudo o que se imprime, tudo o
que se fala publicamente ou se representa hoje na mídia
eletrônica” (ANGENOT, 1992). O crítico literário teria que estar
atento ao vasto rumor discursivo, à aparente cacofonia dos
discursos em flutuação na sociedade, das piadas de café aos
compêndios científicos, do discurso publicitário ao da
especulação filosófica, das letras de canção popular às
doutrinas políticas e religiosas, para verificar,
posteriormente, como o texto literário os incorpora, adapta,
transgride ou subverte totalmente. Ao atentar para a inscrição
do Discurso Social no texto literário, o analista obriga-se a
considerar a totalidade dos elementos que fizeram com que
determinados textos alcançassem um alto grau de
aceitabilidade/legibilidade e com que outros passassem
despercebidos por sua geração, para serem ou não consagrados em
uma próxima. Logo, questões fulcrais para a literatura, como a
própria literariedade ou a constituição e a função do cânone,
são contempladas por esse tipo de abordagem que dará tanta
importância às obras que constituem a Literatura (com L
maiúsculo), isto é, a literatura como instituição, quanto às
produções da margem, fazendo parte de seu campo de interesse os
diferentes processos de marginalização da produção discursiva.
Desenvolvendo-se a partir dos pressupostos teóricos formulados
por Claude Duchet, a Sociocrítica, tal como é praticada em
Montreal, onde conta com muitos adeptos, entende o texto
literário como o espaço de intercessão e de transformação de
diferentes fragmentos discursivos. Perceberá ainda que a
literatura é também aquilo que ela esconde: os silêncios e as
omissões passam a ser significativos. Embora insista
demasiadamente na idéia do escritor como um repetidor, isto é,
como aquele que de um modo ou de outro reconduz a doxa, Marc
Angenot concebe a leitura sociocrítica como aquela que também
pode revelar os textos literários que a transgridem, a deslocam
e a desconstroem.
A escola
francesa: partindo também dos pressupotos de Pierre Zima e
Claude Duchet, Edmond Cros integra e expande o conceito
goldmaniano de “estruturalismo genético”. Cros reformula o
conceito de “visão do mundo” que apresenta um duplo
inconveniente: o de pressupor que o texto tem a capacidade de
transcrever uma visão global e coerente e o de reduzir esta
capacidade de transcrição a uma única perspectiva. Assim, o
texto ficcional não apresenta um ponto de vista, mas “uma série
de pontos de focalização que constroem e desconstroem sem cessar
a escritura”. Pontos importantes de convergência com a
Sociocrítica proposta por Angenot aparecem quando Cros afirma
que o texto ficcional parte de material linguageiro
pré-construído, fazendo emergir novas relações e produzindo
sentido. Enquanto a Sociologia da Literatura via o texto
literário unicamente como o lugar de transcrição do social, a
moderna Sociocrítica o vê como o lugar onde se inscreve o
conjunto de uma formação social, através das formações e das
práticas discursivas correspondentes. Edmond Cros desenvolve
também o conceito de “genética textual” que trabalha a partir de
rascunhos e manuscritos. A genética textual daria conta (no
plano sincrônico) das leis coexistenciais, “as que regem as
modalidades de articulação do texto social, por intermédio,
principalmente dos ideossemas”; e (no plano diacrônico) da
“dinâmica à qual a escritura submete os precedentes” (CROS,1990).
Apesar das diferenças, predomina a idéia de que a Sociocrítica
privilegia como objeto primeiro de suas preocupações a
literatura enquanto produção textual e não a sociedade, por mais
importante que esta possa ser para a gênese e constituição do
texto (Pelletier, 1995). O objeto primeiro de sua análise é o
texto literário enquanto produto de um trabalho de escritura.
Bibliografia:
ANGENOT, M. & ROBIN, R. La sociologie de la littérature.
Montreal: CIADEST, 1991.
ANGENOT, M. Hégémonie, dissidence et contre-discours. Etudes
littéraires. Quebec, v.22, n.2, p.11-24, outono 1989.
DUCHET, C. & VACHON, S., orgs. La recherche littéraire:
objets et méthodes. Montreal: XYZ, 1993.
CROS, E. L’engendrement des formes. Montpellier: Presses
de l’Univ. P. Valéry, 1990. Col. Etudes Sociocritiques.
ROBIN, R. L’inscription du discours social dans le texte
littéraire.
Sociocriticism,
Pittsburg, v.1,n.1, p.53-82, 1985.
REIS, R., ed. Toward socio-criticism: luso-brazilian
literatures. Tempe (AR): Center for latin-american studies,
1991.
PELLETIER, J. La littérature comme objet social: enjeux
siciplinaires. Discours social/social discourse La
littérature comme objet social)_.
Montreal:
CIADEST, v.7:3-4, verão 1995. P. 9-21.
Zilá Bernd |