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Stream of consciousness
Expressão nascida na área da psicologia com William
James, em
Principles of Psychology (1890) e que, utilizada num
contexto literário, se refere a um método narrativo
relacionado com momentos significativos de instrospecção,
que se podem combinar, em muitos casos, com monólogos
interiores. Literalmente, traduz-se por fluxo da
consciência, mas a sua aplicação literária deve obrigar
a outros significados, por isso se recomendando a
referência à expressão original da psicologia. Supõe-se
que num mesmo momento vários níveis de consciência se
misturam numa corrente de sensações, pensamentos,
memórias e associações. Para descrever este momento,
esta corrente de consciência, é necessário fazer-lhe
corresponder uma corrente de palavras e imagens tão
próximas quanto possível da variedade de elementos que
atravessam a mente humana. Desta forma, pretende-se que
o leitor assista, em primeira-mão e sem interferência do
narrador, ao fluir das sensações e pensamentos das
personagens.
Referido como vanguardista, Ulysses (1922) de
James Joyce é um expoente da utilização do stream of
consciousness, mas podemos encontrá-la em textos de
outros autores como Dorothy Richardson, Virginia Woolf,
Yeats, T.S. Eliot e William Faulkner. A procura do mundo
interior do indivíduo na literatura e as experiências
para a criação de uma forma literária que o servisse
são, no entanto, anteriores aos autores acima referidos.
Laurence Stern, em Tristram Shandy (1760-67),
procura a expressão da consciência de uma personagem e
acompanha-a de algumas experiências a nível gráfico.
Também Dostoievsky e Henry James se ocupam de longas
passagens introspectivas nos seus textos. Leutnant
Gunstl (1901), de Arthur Schnitzler, e A la
recherche du temps perdu, (1913-27) de Marcel
Proust, contribuíram também para a nova forma de fazer
ficção. Edouard Dujardin , com Les lauriers sont
coupés (1888), é considerado o percursor do uso do
monólogo interior que viria a ser veículo do stream
of consciousness. No entanto, é James Joyce que
apresenta algo de novo e explora todas as possibilidades
dos caminhos apontados. Como já foi referido, um dos
recursos deste método é o monólogo interior,
frequentemente identificado com a própria stream of
consciousness. Mas podemos dizer que o monólogo é a
representação de movimentos dentro da consciência e que
o stream of consciousness é a representação
literária de todo o pensamento no seu estado corrente
(cf. Leon Edel: The Modern Psychological Novel,
1964). Se tomarmos essa corrente de consciência como um
rio, o monólogo interior poderá ser uma represa onde a
água remoinha durante algum tempo para depois voltar à
corrente. No monólogo, podemos ter um narrador ausente
que se faz substituir pelo discurso da própria
personagem, dando a conhecer o interior desta como se o
leitor estivesse a ouvir a totalidade dos seus
pensamentos, como no caso do monólogo de Molly Bloom no
final de Ulysses. O narrador pode também
seleccionar e comentar os pensamentos que pretende dar a
conhecer, tornando-se assim presente, como o fazem T.S.
Eliot e Virginia Woolf em alguns dos seus textos. Sendo
difícil transpor para a escrita o que acontece na mente
humana, o método do stream of consciousness é acusado de
ser tão artificial como qualquer outro. Mas a questão
não deve ser a da verdade ou da exposição total e fiel
da consciência, mas sim a da possibilidade da construção
de uma narrativa ou de personagens, e esta é indubitável
(cf. Stuart Gilbet: James Joyce’s «Ulysses»,
1952). Um dos problemas levantados pela transposição do
stream of consciousness é precisamente o da
fidelidade do discurso. A aproximação da escrita à
corrente de pensamentos traz consequências que podemos
mostrar com alguns exemplos retirados da complexidade e
variedade de recursos utilizados em Ulysses: a
ausência de pontuação e outros sinais gráficos, como no
longo monólogo de Molly Bloom; os jogos de sons e
palavras, como «Sinbad the Sailor and Tinbad the Tailor
and Jinbad the Jailer…» e o jorrar de imagens e
referências, estimulado por uma palavra ou pergunta,
como «In Ireland?
The Cliffs of Moher, the windy wilds of Connemara, lough
Neagh with submerged petrified city, the Giant’s
Causeway, Fort Camden and Fort Carlisle».
Ocupando-se dos níveis de consciência e do seu fluir, o
stream of consciousness entronca no romance
psicológico. Para além de ser uma resposta à psicologia
freudiana, é uma alteração ao modo tradicional de fazer
ficção. Ao registar todas as incoerências da consciência
humana, pretende evitar a intromissão e controlo do
narrador como determinador do ponto de vista. Mas, na
prática, e inevitavelmente, existe o controlo ou domínio
do autor e dos seus princípios organizadores do texto.
Em Ulysses, James Joyce substitui o método
narrativo por aquilo a que T. S. Eliot, no seu ensaio «Ulysses
Order and Myth» (1923), chama método mítico (in
Selected Prose of T. S. Eliot, editado por Frank
Kermode, 1975). O seu princípio organizador é a
intertextualidade: a narrativa é uma mistura de
referências a várias narrativas. Em Ulysses,
encontramos alusões à Odisseia, a Hamlet
e a outras narrativas históricas, míticas e religiosas,
em relação com as quais os acontecimentos ganham
significado. Ao colocar em paralelo o passado e o
presente, expressa também a tentativa de alterar o valor
do tempo na narrativa: não lhe interessa um tempo
histórico, mas sim um tempo mítico.
Bib.:
Barbara Lynn James:« Flux in context: The Cultural
Difference Between Stream of Consciousness and Interior
Monologue», Tese de Doutoramento, Universidade de
Colorado (1993); Leon Edel:
The Modern
Psychological Novel (1954); Erwin R. Steinberg: The
Stream of Consciousness Technique in the Modern Novel
(1979); Erwin R. Steinberg: «Point of View, the
Narrator(s), and the Stream of Consciousness»,
Approaches to
Teaching Joyce’s Ulysses (1993); Melvin Friedman:
Stream of
Consciousness: A Study in Literary Method (1955);
Robert Humphrey:
Stream of Consciousness in the Modern Novel (1954);
Manfred Smuda: «”Stream of Consciousness” and “Duree”:
Das Problem ihrer Realisation und Wirkung im modernen
englischen Roman»,
Poetica,
nº13/3-4 (1981); Thomas Laborie Burns: «Stream of
Consciousness: Joycean Technique»,
Estudos Anglo-Americanos,
nº12-13 (1988-89)
Vera Tavares
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