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SUBLIME
Conceito anti-clássico associado à grandiosidade, enlevação e
transcendência. Com ele dá-se, por exemplo, a transição do
neoclassicismo para o romantismo, ocupando um local central na
estética do século XVIII. Foi primeiro usado como um termo
retórico, dizendo respeito a determinadas qualidades que uma
obra literária possui que possam transmitir ao leitor o êxtase e
levar os seus pensamentos a um plano mais elevado. Mais tarde, é
Edmund Burke quem teoriza sobre o sublime, contrastando o seu
conceito com a ênfase dada pelo Iluminismo, à claridade,
precisão, simetria e ordem. O conceito de sublime encontra
repercussão nos trabalhos de variados críticos e filósofos. Ao
longo de quatro séculos, suscitou diversas interpretações devido
à sua complexidade, e estimulou ideias, paixões e controvérsias
nos seus leitores e críticos.
O vocábulo sublime entra na língua inglesa por via
francesa, derivada do latim. O seu uso inicial diz respeito à
linguagem ou estilo exaltado e mais tarde à percepção física. O
primeiro registo que se conhece sobre este termo é um tratado,
intitulado Do sublime, atribuído erroneamente a Longino.
Desse tratado, em grego Peri hupsous (),
que significa “Das alturas”, o melhor e mais antigo manuscrito
existente é o Codex Parisiensis 2036, datado do século X, embora
um terço desse manuscrito se encontre irremediavelmente perdido.
Este é, provavelmente, a fonte de onde derivam todos os outros.
Não se sabe quem é realmente o autor deste tratado. Foi
falsamente atribuído a Longino (213–273 d.C.), filósofo grego,
discípulo de Amónio Sacas, que estudou na escola Neoplatónica de
Alexandria, mas até o nome deste
autor é de difícil identificação porque poderia tratar-se de
Cassius Longinus, Dionysius Longinus ou até mesmo Dionysius de
Halicarnassus. Sabe-se agora que o tratado remonta ao
século I d. C.. O erro na atribuição do tratado a Longino fez
com que se optasse por identificar o autor como Pseudo-Longino
ou Anónimo. O tratado é composto por diversos capítulos,
dezassete dos quais sobre figuras de
estilo, e é dirigido, em forma de epístola, a Posthumius
Terentianus. Estudiosos indicam este tratado como sendo resposta
a um trabalho do retórico siciliano Cæcilius de Calacte. O que
Pseudo-Longino pretendeu foi completar a doutrina exposta por
Cæcilius nesse trabalho, pois julgava-a insuficiente no que diz
respeito à essência da arte.
Pseudo-Longino não pretende definir o sublime, porque este é uma
qualidade inefável; o que ele pretende é identificar as suas
fontes. Assim, o autor identifica como fontes do sublime as
seguinte capacidades: certa elevação do espírito para se poder
formular elevadas concepções; o afecto veemente e cheio de
entusiasmo, capaz de provocar paixões inspiradas; certa
disposição das figuras de pensamento e de dicção, que seriam uma
espécie de desvios provenientes da imaginação e criatividade;
formular de forma nobre; e compor de forma magnífica,
dignificante e elevada. As duas primeiras fontes dizem respeito
ao génio inato; enquanto que as restantes são o resultado da
arte.
Define a sublimidade na literatura como a principal virtude
literária. É o «eco da grandeza do espírito», o poder moral e
imaginativo do escritor presente no seu trabalho. Esse poder
poderia transformar qualquer obra numa obra louvável e digna,
quaisquer que fossem os seus defeitos, se ela atingisse o
sublime. O termo aqui empregue refere-se a algo extratextual e,
dessa forma, independente dos géneros literários e da perfeição
que a retórica clássica impunha. Pela primeira vez, a grandeza
da literatura é atribuída às qualidades inatas do escritor e não
às da sua arte. Esta contribuição é inovadora, sendo uma teoria
afectiva da literatura. O mérito da obra de arte está no poder
de transportar o leitor ao êxtase e tal só acontece se a obra
atingir o sublime. Dessa forma, a identificação da
personalidade do autor, qualidades da obra e seus efeitos no
leitor são determinantes da sua grandeza literária.
O que o
autor concretiza no tratado é o afastamento e reformulação do
conceito aristotélico de mimesis, tornando esse mesmo
conceito mais amplo e mais criativo. A imitação é presidida por
uma inspiração divina, passando a poesia a ser um dom do Poeta.
O autor foi demasiado revolucionário na sua forma de interpretar
a mimesis e, por essa razão, as ideias contidas no
tratado não foram compreendidas no seu tempo, não havendo
citações nem sobre o assunto nem sobre a própria obra durante a
época clássica e Idade Média.
As emoções são o ponto principal de consideração do sublime,
porque segundo Pseudo-Longino não há tom mais elevado do que o
da paixão genuína. Isto veio antecipar muitos dos temas e
métodos que mais tarde viriam a despertar o interesse do
movimento romântico. A originalidade deste tratado encontra-se
no facto de ele ser uma nova proposta para o problema da
essência da obra literária. Pseudo-Longino preocupa-se com a
génese da obra, estados de espírito, pensamentos e emoções do
autor e não com a qualidade da obra em si.
O tratado
Do sublime foi apenas descoberto no século XVI. A
primeira edição da obra é de 1554, sendo publicado por Francisco
Robertello. Em 1652, John Hall publica uma versão inglesa deste
tratado, mas na altura não teve grande repercussão. É em 1674,
com a tradução francesa de Nicolas Boileau-Despréaux, intitulada
Du sublime, que o conceito entra em Inglaterra. Publica
esta tradução no mesmo volume da sua Arte poétique e nela
escreve um longo prefácio, onde inclui uma biografia de Longino,
na época suposto autor do tratado. Esta será o ponto de partida
para as posteriores traduções, por ser na altura considerada
como a mais importante. Hoje sabe-se que a sua tradução é
imprecisa e demasiadamente livre na interpretação.
O
conceito veio modificar a estética neoclássica do século XVIII,
no que diz respeito à criação literária, com o seu culto da
grandeza, da sublimidade da concepção e emoção. Estas
atribuições substituem o desejo vigente de representar fielmente
a realidade, abrindo, deste modo, caminho para o romantismo. Há
uma grande elaboração de trabalhos sobre o sublime e a sua
discussão passa pela filosofia, pela literatura e outras áreas.
Na época,
o trabalho mais lido sobre o sublime foi o tratado de Edmund
Burke, A Philosophical Enquiry Into the Origin of Our Ideas
of the Sublime and Beautiful (1757), passando por dezassete
edições durante a vida do autor. Depois dos ensaios de John
Addison, este foi o trabalho mais influente no decurso da
estética inglesa do século XVIII. As diversas tentativas de
questionar a teoria neoclássica, fazem com que este tratado
apareça numa altura crucial.
Burke
trás uma nova luz sobre o conceito de sublime, valorizando a
imaginação como factor de criação. Burke foi original por se
aperceber que o poder da sugestão é um forte estímulo para a
imaginação. Distingue o conceito do sublime, com as suas
associações ao infinito, à obscuridade, à solidão e ao terror,
do conceito do belo, que consiste na relativa pequenez, na
delicadeza, na suavidade e na luminosidade das cores.
Um dos
elementos que Burke realçou nesse tratado foi o terror e as suas
causas: o poder, a obscuridade, o infinito, entre outras.
Pseudo-Longino tinha definido terror como uma paixão que não era
sublime, enquanto que Boileau não o tinha sequer mencionado.
Contudo, John Dennis, em The Grounds of Criticism in Poetry
(1704), tinha indicado que o terror seria uma paixão
específica produzida por Deus, uma fonte do sublime por
excelência. Os poetas da Graveyard School regiam-se,
também, pelo conceito de terror.
Isto
terá, sem dúvida, influenciado Burke no seu tratado, criando uma
relação entre sublime e morte, derivando daí o prazer. Tal
acontece porque Burke atribui o terror a uma tensão dos nervos.
Sem essa tensão o indivíduo sente apenas indiferença, que é algo
pior que a dor. É devido ao terror estimular os nervos, e daí as
paixões, que ele é deleitoso. Para Burke o prazer não se obtém
apenas na distanciação dos objectos que poderão ser uma ameaça
(morte), mas é a excitação masoquista que o indivíduo sente ao
aproximar-se deles. Tendo em conta que o terror é o princípio
comum a tudo o que é sublime e que o que aterroriza ameaça a
existência do indivíduo, cria-se essa relação entre sublime e
morte, da qual deriva esse tipo particular de prazer. Esta
teoria de Burke viria mais tarde a ser importante para o romance
gótico.
Immanuel
Kant, na sua Crítica da Faculdade de Julgar (1790),
afirma que existe sublime na natureza, pois esta fornece
objectos incomensuráveis e o sublime é o que se apresenta como
absolutamente grande. Mas esse sublime é limitado pois na
verdade ele reside na razão que domina essa natureza. Na
filosofia de Kant, o sublime é uma mistura de prazer e dor que
se sente quando se está face a algo de grande magnitude. Pode-se
ter uma ideia de tal magnitude, mas não se consegue fazer
igualar essa ideia com uma intuição sensorial imediata. Isto
deve-se ao facto de os objectos sublimes ultrapassarem as
capacidades sensoriais. Um exemplo de sublime, para Kant, seria
uma montanha. Pode-se ter ideia de uma montanha, mas não
intuição sensorial dela como um todo. Sentimos dor pelo facto
das nossas faculdades não conseguirem apreender o objecto, mas
sentimos prazer também na tentativa de o fazermos. Divide,
ainda, o sublime em matemático e dinâmico. O sublime matemático
verifica-se quando a nossa capacidade de intuição é dominada
pelo tamanho (uma grande montanha); o dinâmico quando a nossa
intuição é dominada pela força (uma tempestade).
A sua
teoria difere da de Burke, na medida em que Kant não considera o
sentimento do terror como próprio de nenhuma experiência
estética, logo, como próprio do sublime. Um indivíduo subjugado
pelo terror não pode julgar o sublime, da mesma maneira que um
indivíduo seduzido por estímulos não pode julgar o belo. Kant
utiliza o conceito de sublime para introduzir a problemática da
representação do “irrepresentável”. Esta é uma ideia fulcral
para a futura arte e pensamento modernista.
A
Crítica da Faculdade do Juízo de Kant influenciou
Friedrich Schiller. Contudo este afasta-se de Kant, pois alia a
teoria do sublime à teoria da tragédia.
No século
XX, durante os anos 80, Jean-François Lyotard analisa o lugar do
sublime na filosofia crítica de Kant. Na sua filosofia
pós-moderna, o sublime aparece como a sensação que especifica os
limites da razão e da representação. Lyotard alarga a noção de
sublime do absolutamente grandioso, a todas as coisas que
confundam a nossa competência de sintetiza-las em conhecimento.
Encontram-se também referências ao tratado e ao conceito de
sublime no trabalho de vários críticos como Elder Olson, Neil
Hertz, Suzanne Guerlac e Harold Bloom. Este último considera
Das Unheimliche (1919) de Freud, como o mais importante
contributo do século XX para a estética do sublime.
literatura gótica; romantismo
Bib.:
Custódio José de Oliveira, Tratado do Sublime – de Dionísio
Longino (Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1984); Edmund
Burke, Philosophical Inquiry Into the Origins of Our Ideas of
the Sublime and the Beautiful, (T. Boulton, 1958); Friedrich
Schiller “Do Sublime”, “Sobre o Sublime”, in Friedrich
Schiller: Textos sobre o Belo, o Sublime e o Trágico,
(Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1997); Immanuel
Kant, Crítica da Faculdade do Juízo (Rio de Janeiro:
Forense Universitária, 1993); Geoffrey Bennington “The Sublime
and the Avant-garde” in Paragraph 6 (1985); Michèle
Crampe-Casnabet “O Sublime”, in Michèle Crampe-Casnabet: Kant
- Uma Revolução Filosófica, (Rio de Janeiro: Jorge Zahar
editor, 1994); Orlando Pires “Longino” in Manual de Teoria e
Técnica Literária (1989); Paul Crowther, The Kantian
Sublime – From Morality to Art, (1991); Rudolf Eisler, “Erhaben”,
in Kant-Lexikon (1977); W. Hamilton Fyfe and W. Rhys
Roberts, Aristotle –The Poetics; Longinus – On Sublime;
Demetrius – On Style (1991);
http://www.litgothic.com
http://www.uweb.ucsb.edu/~chi-wai/
http://www.utm.edu/research/iep/s/sublime.htm
http://www2.gasou.edu/facstaff/dougt/goth.html#sub
http://www.press.jhu.edu/books/hopkins_guide_to_literary_theory/longinus.html
Andrea
Peixoto |