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Sujeito
da enunciação/ sujeito do enunciado
“Wo
es war, soll ich werden”, “Onde isso era, [eu] devo
sobrevir”. Esta magistral definição que Freud nos dá do processo
psicanalítico, indica-nos bem onde situar o sujeito.
Para a psicanálise, sujeito é o “ser humano submitido às
leis da linguagem que o constituem e manifesta-se de forma
priveligiada nas formações do inconsciente” (lapsos, actos
falhados, sonhos, sintomas,etc). J. Lacan ao mostrar que o
inconsciente está estruturado como uma linguagem, demonstra que
só há, como sujeito, o sujeito do inconsciente.
Retomemos a definição de enunciação de J. Dubois: “Criação de um
texto por um sujeito falante que se vê impôr as regras da
estrutura ou antes, das estruturas sucessivas e onde o
sujeito está dominado pela estrutura de um texto que ele só
pode emitir assim”. Na narração, por exemplo, os linguistas
apontam a complexidade do lugar enunciativo que o sujeito ocupa
relativamente ao seu próprio discurso: sujeito da enunciação
ou do enunciado, autor, narrador ou personagem, é desta
série de narrações típicas que se faz a narração. Não é pois por
acaso que Freud, numa das suas obras fundamentais para a
compreensão do lugar do sujeito, “A interpretação dos
sonhos”, toma o lugar simultâneamente de autor dos sonhos e do
livro, de narrador dos sonhos, de personagem dos sonhos e de
analista. Como não é por acaso que a escrita de Freud, também
best-seller literário, influencia decisivamente a literatura ao
ser escrita de um lugar enunciativo que, sempre em deslocamento,
ocupado por um Outro, o descentra e lhe escapa.
Mas
Freud não chegou a conhecer os avanços da línguística a partir
de Jakobson e Saussure. Será Lacan quem os aproveitará para, a
partir da leitura de Freud e da sua própria prática clínica
daquela que pode ser chamada a teoria do sujeito, desenvolver a
diferença de lugar entre o sujeito da enunciação e o
do enunciado. Primeiro pela referência ao “shifter”: “Uma
vez reconhecida a estrutura da linguagem no inconsciente, que
espécie de sujeito podemos conceber-lhe? Podemos tentar
partir da definição estritamente linguística do [eu]
como significante: onde ele é apenas e só o “shifter”
como indicativo que, no sujeito do enunciado,
designa o sujeito, aquele que então fala. Quer dizer que
designa o sujeito da enunciação, mas não o
significa. Como é evidente pelo facto de que qualquer
significante do sujeito da enunciação pode faltar no
enunciado, além de que há outros para além do [eu].
O termo sujeito introduzido por Lacan em psicanálise
serve para trabalhar com a hipótese do inconsciente sem anular a
sua dimensão essencial de não-sabido (Unbewuste). “Qual é esse
outro a quem estou mais ligado do que a mim, visto que no seio
mais consentido da minha identidade comigo mesmo, é ele quem me
agita? A sua presença só pode ser entendida num segundo grau de
alteridade que o situa desde logo em posição de mediação em
relação ao meu desdobramento comigo como se fosse com um
semelhante.” (J.Lacan)
“Este outro é o sujeito do inconsciente excêntrico a si
próprio. Não é um sujeito no inconsciente imaginado este como um
reservatório de pulsões, antes é essa pulsação, essa fenda pela
qual algo de não-sabido – de inconsciente – se abre e se fecha
logo que apreendido pela consciência. O sujeito não é
nada substancial, ele é momento de eclipse que se manifesta num
descuido.” (acto falhado, lapso), diz Eric Porge. (Lacan chamava
ao não-sabido – Unbewuste – l’une bévue – um descuido, num jogo
de palavras entre o alemão e o francês). Diz-se sujeito
do inconsciente e não eu(v.) do inconsciente. Para [eu]
que fala o sujeito do inconsciente é um ele, não um eu.
“Sujeito é esse ele de que [eu] falo quando quero
designar como inconsciente, um inconsciente que não seja um
outro eu. Ou antes, o sujeito é essa mesma divisão entre o eu e
o ele”. Disso, a literatura é a melhor manifestação.
Sobre esse sujeito do inconsciente, Charles Melman diz
que os elementos da linguagem são susceptíveis de vir inserir-se
na minha enunciação e nela deixar ouvir um sujeito que só
posso reconhecer como meu, sem no entanto o fazer falar a meu
gosto, nem mesmo saber o que ele quer. O sujeito é pois o
efeito que resulta da discordância entre enunciado e
enunciação.
É que o sujeito do inconsciente é também o sujeito
desejante. Desde infante que o ser humano se habituou a que o
seu pedido não visa só satisfazer a necessidade segundo o
enunciado, mas visa sobretudo o amor, é um pedido de amor que
solta o sujeito da enunciação. Por isso numa psicanálise,
mais do que o analista, quem interpreta é o analisando que se
pergunta o que é que ele me quer, o que quer ele que eu seja.
“Che vuoi?”. Como no Diabo de Cazotte, o analista é suposto
saber.
Como Sócrates, o escritor põe outros a falar por si, fala como
um analisando, supõe no leitor um saber e um desejo. Mas como um
analista o escritor é lido como um sujeito, uma voz, um
lugar para onde o leitor, qual analisando, se esforça por
transferir o saber da sua própria verdade não-sabida por si. Por
isso qualquer análise literária que pretenda ser uma
meta-leitura perde o essencial da literatura - o sujeito da
enunciação que balanceia no espaço entre o escritor e o
leitor - a favor do enunciado, verdade sem sujeito senão
gramatical.
Um jogo entre as leituras freudianas e as leituras literárias
fará ouvir de umas às outras, uma voz do texto. Este retorno (no
sentido freudiano de retorno do recalcado) da voz no texto
constantemente deslocando o sujeito do enunciado, é a
literatura.
ENUNCIADO; ENUNCIAÇÃO; SUJEITO
J.
Dubois, “Énoncé et énonciation”, in “Langages”,
nº13, Paris, 1969. Sigmund
Freud, “A interpretação dos sonhos” (1900),
Lisboa, Pensamento, 1989; “O inconsciente”
(1915), in Textos Essenciais da Psicanálise, vol.I, Lisboa,
Europa-América, 1995. Jacques Lacan,
“Subversion du sujet et dialectique du désir” e
“Fonction et champ de la parole et du langage”, Le Seuil,
Paris, 1966; “Il court il court, le sujet”, Littoral,
nº25, Abril 1988, Toulouse, Érès. Éric Porge, “Lacan,
Descartes, le sujet”, Strasbourg, Arcanes, 1996
Maria Belo |