|
Teoria da cultura
Tal com o próprio conceito de cultura que a informa, tende a
diversificar-se segundo duas interpretações principais:
subjectiva-activa e objectiva-passiva. De acordo com
a primeira, a pessoa é agível através de uma formação que
visa torná-la mais humana, segundo certos ideais educativos (em
Grego: paideia; em
Alemão: Bildung) que
apuram as suas faculdades físicas, intelectuais, morais e
religiosas. De acordo com a segunda, há a distinguir, numa
primeira alternativa, o conjunto de meios para realizar ou
actualizar as potencialidades humanas com referência recorrente
à tradição, às grandes correntes e criações espirituais do
passado; e numa segunda alternativa, o significado
etnológico-etnográfico, em que a cultura surge antes de mais
como conjunto de produções características de um grupo humano,
da uma maneira de viver, transmissíveis de geração em geração,
sobretudo através da família, mas não por hereditariedade
biológica.
O fenómeno cultural (e civilizacional) tem sido interpretado
segundo múltiplas perspectivas, susceptíveis de agrupamento em
três posições principais: realista, idealista e fenomenologista.
A primeira apercebe esse fenómeno essencialmente como coisa,
res, ou realidade
extramental; a segunda como ideia ou representação; a terceira
como presença ou realidade interactiva no espaço de confronto
homem-mundo, indivíduo‑comunidade.
Entre as teorias realistas sobressaem: a) o materialismo
dialéctico-histórico, que tem como fundadores Karl Marx
(1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895); b) o positivismo,
com Auguste Comte (1798-1857) como principal impulsionador; c) o
biologismo, a partir de N. I. Danilevski 1822-1885) e de Oswald
Spengler (1880‑1936), por exemplo. Entre as teorias idealistas,
avultam: a) o idealismo‑iluminismo, de que é típico
representante, no século XVIII, J. Christian Wolff (1679‑1754);
b) o idealismo-panlogismo, de G. W. F. Hegel (1770-1831), de B.
Croce (1866-1952) e de outros. No conjunto das teorias
fenomenologistas destaca-se: a) o papel fundador de E. Husserl
(1859-1938), com diversos continuadores; b) o
fenomenologismo-sociologismo, de que é um dos principais
representantes E. Durkheim (1858-1917); c) o
fenomenologismo-gnoseologismo, interpretado, por exemplo, por
Pitirim A. Sorokin (1889-1968); d) o
fenomenologismo-percepcionismo, desenvolvido, entre outros, por
M. Merleau-Ponty (1908-1961).
Alguns teorizadores da cultura, conscientes da complexidade de
muitos fenómenos culturais e da multiplicidade de perspectivas
adoptadas para a sua abordagem, atrás apenas sucinta e
incompletamente apontadas, têm tentado uma síntese global,
apesar das dificuldades inerentes a tal tarefa. O fenómeno da
criação cultural, sendo histórico e tendo, inclusive, uma
dimensão em parte individual, não é rigorosamente repetível.
Assim, o revivalismo de certas épocas e as ‘renascenças’ de
outras não chegam a cabalmente reproduzir períodos anteriores. O
enquadramento e a identidade dos eventos nunca são exactamente
os mesmos, apresentando muitas vezes aspectos que escapam a uma
tentativa de sistematização. A explicação dos fenómenos de
criação cultural é sempre aproximada, em virtude de os elementos
que os integram não serem absolutamente objectiváveis,
repetíveis, mensuráveis — ao contrário dos fenómenos naturais e
físicos. A variação de circunstâncias históricas não permite uma
simulação ou reprodução rigorosa com vista a uma hipotética
experimentação. Há que admitir, pois, que cada observador ou
estudioso dos fenómenos culturais adopte um enfoque teórico que,
além de amplo e aberto, não exclua visões diferenciadas e
complementares. Cultura significa, desde logo, criatividade, e
esta escapa, não raro, a previsões ou determinações. A
capacidade de invenção do
homo faber ultrapassa teorias, esquemas e sistemas,
entrecruzando-se com desejos e aspirações conscientes ou
inconscientes que desafiam referências particulares e
condicionantes materiais ou outras. Mas, com toda a sua
diversidade, o fenómeno cultural, sendo humano, interage com o
tempo, com cada tempo, interpelando a memória, a inteligência e
a sensibilidade humanas. A sua compreensão não depende só do
ponto de vista em que é observado e da possível objectividade da
observação, mas também dos estímulos insubstituíveis da
tolerância e da empatia.
Bib.:
G. Gurvitch: Les Cadres
sociaux de la connaissance (1966); H. Fischer:
Theorie der Kultur
(1965); Manuel Antunes:
História da Cultura
Clássica, vol. fotocopiado de notas das aulas teóricas e
práticas, Faculdade de Letras de Lisboa, 1967/68, pp. 33-68; T.
S. Eliot: Notes Towards
the Definition of Culture (1951, várias reimp.).
http://www.mcs.net/~zupko/cs_criti.htm
J. M. de Sousa Nunes
|