FE.CEM-UNL, Revista Faces de Eva. Estudos sobre a Mulher.
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Maria Veleda. No labirinto “espiritualista”, místico e esotérico
Natividade Monteiro

Maria Veleda nasceu em 1871, numa família “convencionalmente católica” e na juventude manifestou desejos de professar. Quando em 1906, desempenhava as funções de professora no “Centro Escolar Republicano Afonso Costa”, converteu-se aos ideais da República e ao Livre-Pensamento. Iniciada na Maçonaria, tornou-se uma das maiores propagandistas da liberdade de consciência e do anticlericalismo. Cerca de 1916, atraída pelos caminhos da “espiritualidade” e do esoterismo e preocupada com o sentido da existência, aderiu ao espiritismo filosófico, científico e experimental. Fundou o “Grupo das Sete” que mais tarde se transformou no “Centro Espiritualista Luz e Amor” e, em 1925, dinamizou a realização do I Congresso Espírita Português e a criação da Federação Espírita Portuguesa. Fundou e dirigiu as Revistas A Asa, O Futuro e Vanguarda Espírita e colaborou na imprensa espírita e “espiritualista” de todo o país.

Palavras-chave: Maria Veleda, mulheres, catolicismo, livre-pensamento, espiritismo.

Maria Veleda was born in 1871 in a “conventionally catholic” family, expressing in her youth the wish to become a nun. In 1906, while teaching at “Centro Escolar Republicano Afonso Costa”, she converted to the Republican ideals and Free Thinking. Initiated in Masonry, she became one of the most active propagandists of freedom of conscience and anticlericalism. Around 1916, captivated by the paths of spirituality and esoterism and concerned about the sense of existence, she adhered to the philosophical, scientific and experimental spiritism. She founded the “Grupo das Sete”, which later became the “Centro Espiritualista Luz e Amor”, and in 1925 she dinamized the organization of the I Congresso Espírita Português and the creation of the Federação Espírita Portuguesa. She founded and directed the Magazines A Asa, O Futuro and Vanguarda Espírita and collaborated with the spiritist and spiritualist press countrywide.

Keywords: Maria Veleda, women, catholicism, free thinking, spiritism.

A religiosidade na infância e na juventude

Maria Veleda nasceu no seio de uma família de classe média, onde recebeu uma educação que oscilou entre a liberdade proporcionada pelo pai, velho soldado e livre-pensador, e o convencionalismo religioso da mãe e da avó, senhoras “dessa religiosidade burguesa de provincianas que vão aos domingos à missa para exibirem as suas galas e criticarem as “toilettes” de fulana e de sicrana, notarem uma pluma que já figurou no chapéu do ano passado e uma fita, cuja cor passou de moda”[1].

Na juventude, as frequentes visitas ao irmão internado no Seminário de Faro, desenvolveram o seu misticismo, a ponto de acreditar que a sua fé se tinha tornado mais profunda e fervorosa. Chegou a experimentar visões místicas, ansiar por uma vida de recolhimento e de paz e imaginar-se com “o véu branco das noviças; entoando salmos, aperfeiçoando-se para Deus”[2].

Deu conta destes desejos e arroubos místicos a Monsenhor Joaquim Maria Pereira Boto, “homem de grande erudição”, que a demoveu de professar, dizendo-lhe: “Não pense em tal. Isso a que chama «vocação» não é «vocação» - é romanticismo. Case, seja mãe de muitos filhos. Essa é a mais nobre missão da mulher”[3].

Passada a fase crítica de misticismo exacerbado, a sua religiosidade passou a confinar-se “à missa de domingo e à confissão anual”, intercaladas pelas festividades em que o sagrado e o profano “deliciosamente” se conjugavam, pois era nessas festas, procissões e romarias que as raparigas e os rapazes, em grupos alegres e despreocupados, trocavam olhares e cartinhas de amor.

Desfiando recordações, Maria Veleda escreverá em 1909, a propósito da procissão do “Enterro do Senhor”, realizada na sexta-feira da “Paixão”: “... Nós então, apenas a procissão acabava de desfilar por baixo das nossas janelas, saíamos em tropel, alegres, buliçosas, de mantilha preta, e íamos esperá-la às esquinas, abafando risinhos, acotoveladas, amachucadas pela multidão. Muito se ria e muito se namorava, nessas noite do enterro do Senhor”[4].

Num tempo em que o quotidiano das populações era ainda pautado pelas diversas manifestações religiosas, a vida de Maria Veleda decorria “pesadamente monótona” entre os deveres cristãos, as obrigações profissionais do ensino particular, a escrita na imprensa periódica, as idas ao teatro Lethes, os passeios, as visitas, “o clássico namoro e o estafado piano”. Seguindo ou não o avisado conselho de Monsenhor, entretanto, apaixonou-se pelo poeta Cândido Guerreiro. Dessa paixão única e eterna nasceu um filho, o qual veio juntar-se a outro, adoptado oito anos antes. Estes dois filhos deram origem a uma família numerosa. Apesar de ter escolhido ficar solteira, a “mais nobre missão” desta mulher cumpriu-se.

A conversão ao livre-pensamento

A mulher portuguesa tem uma tarefa a cumprir, e essa tarefa não deve executar-se na penumbra das Igrejas; mas à luz de um sol que se chama Progresso, caminhando para um futuro que se chama Liberdade.[5]

Em 1906, quando Maria Veleda já se encontrava em Lisboa, como professora do Centro Escolar Republicano Afonso Costa, ofereceu a sua colaboração escrita ao jornal A Vanguarda, onde continuou a sua propaganda educativa e feminista, iniciada há muito na imprensa liberal, feminina e progressista. Entretanto, conheceu os mais eminentes chefes republicanos, aderiu aos ideais da República e converteu-se ao livre-pensamento. Pela mão de Boto Machado, tornou-se oradora, ampliando assim o seu campo de expressão e de acção. Começou também a conviver com outras mulheres republicanas, Ana de Castro Osório, Joana de Almeida Nogueira, Adelaide Cabete, Carolina Beatriz Ângelo e Maria Clara Correia Alves, entre outras. Em 1907, Magalhães Lima, Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano Unido, iniciou-a na Maçonaria, com o nome simbólico “Angústias”. Militou na Loja Humanidade, agremiação feminina independente, “com igualdade de direitos e representação junto das diversas hierarquias maçónicas”. “Maçonaria feminina e feminismo ombrearam nas gerações que marcaram as publicistas republicanas. Eram duas expressões orgânicas de um mesmo ideal. Eram duas formas de o atingir”.[6]

Convertida ao livre-pensamento e iniciada na Maçonaria, Maria Veleda tornou-se uma das mais activas e empenhadas propagandistas da liberdade de consciência e do anti-clericalismo, bandeiras da luta pela implantação da República. O anti-clericalismo militante de Maria Veleda assentava na ideia de que o fanatismo religioso e a influência jesuítica eram os maiores inimigos da emancipação feminina. Das conferências, discursos e artigos que escreveu nos periódicos, destacam-se alguns publicados n’A Vanguarda, intitulados “Porque me fiz livre-pensadora?”, onde expôs o seu percurso de católica crente e praticante, semeado, porém, de algumas decepções em relação à moralidade de certos clérigos e beatas, até à desilusão final que a levou a abandonar definitivamente a crença religiosa. Um dos rituais católicos mais criticados no seu discurso é o da confissão auricular, por considerá-lo o mais manipulador dos espíritos crentes, pouco esclarecidos e fanatizados, a ponto de o responsabilizar pela escravização das mulheres a uma vida de ignorância, hipocrisia, acomodação, preconceito e alienação.

A Vanguarda e A República, jornais em que Maria Veleda tinha colunas próprias, “Missa Democrática” e “Tribuna Feminina”, respectivamente, foram os veículos privilegiados da difusão das suas ideias. Aí defendeu a instauração do registo civil obrigatório, a separação da Igreja do Estado, a lei do divórcio e a desmistificação dos dogmas da religião católica. Em Abril de 1908, fez parte da comissão organizadora do “I Congresso Nacional do Livre-Pensamento”, onde apresentou a Tese “Feminismo” e propôs a formação do “Partido Feminista Português” e da “Federação do Trabalho” contra as violências do capitalismo.

A adesão ao espiritismo filosófico, científico e experimental

A minha religiosidade católica tinha afrouxado e desaparecido, mercê de circunstâncias várias, sendo substituída por outras crenças mais de harmonia com o meu sonho de uma humanidade melhor, uma sociedade diferente, mas apesar de tudo sentia como que um vácuo dentro da minha alma.[7]

Maria Veleda tomou conhecimento da existência do espiritismo militante em Lisboa, cerca de 1914, por intermédio de uma amiga de longa data. Foi convidada a assistir a uma sessão e ficou intrigada com as revelações do médium a seu respeito, por coincidirem com certas experiências místicas vividas na sua infância e juventude e das quais não terá falado a ninguém. Este e outros fenómenos desafiaram a sua curiosidade e, levada pelo espírito de aventura e o desejo de conhecer e entender o que se lhe afigurava tão misterioso, tomou a decisão de estudar o assunto.

Recordou-se, entretanto, que havia alguns anos tinha lido Uranie de Flamarion e ficado deslumbrada:

(...) com a poesia da Ideia, a beleza da forma, e, sobretudo, a relação existente entre o pensamento que inspirara aquele livro e as vagas, indecisas aspirações que (lhe) escapavam, apenas tentava apreendê-las. Haveria realmente outro mundo superior, onde as almas se aperfeiçoassem, onde o amor, na sua divina expressão, fosse mais que uma radiosa utopia?[8]

Nessa época, Maria Veleda não tinha ainda abrandado a luta que há muito empreendera em prol da igualdade de direitos civis e políticos entre os sexos e em defesa do regime republicano. No entanto, o fervor patriótico e a esperança de concretizar velhos ideais não foram suficientes para suportar, por muitos mais anos, as desilusões pelos rumos que a República tomava e pelo adiamento constante da satisfação das suas reivindicações feministas. O desgaste físico e o sofrimento psicológico provocados por uma vida profissional e intelectual intensa tornaram a sua saúde cada vez mais frágil. Em 1917, adoeceu gravemente, a ponto de não poder trabalhar durante muitos meses. Não dispondo de outros meios de subsistência, além do seu modesto ordenado de funcionária da Tutoria Central da Infância de Lisboa, a miséria que ela conhecia de perto e que tanto combateu, em nome da solidariedade humana, bateu-lhe também à porta, pondo em risco a própria sobrevivência e a da sua família.

A solidão da doença obrigou-a a uma reflexão sobre tudo o que tinha idealizado e vivido. Os tempos tinham mudado. A guerra e as suas consequências agravaram a instabilidade política e a crise económica e social do país. Em vez da sociedade perfeita, construída sob a égide da República, ela via o caos da violência generalizada. Nestes momentos de grande sofrimento e de profunda desilusão procurou entregar-se a uma maior espiritualidade, a fim de amenizar as agruras da vida e encontrar alguma felicidade. A livre-pensadora exaltada e intransigente ia cedendo lugar à crente deslumbrada com a paz e a alegria espiritual de uma alma em perfeita sintonia com Deus, a “Força Suprema do Universo”, sem, contudo, renunciar ao livre-pensamento.

Após a noite sangrenta de 19 de Outubro de 1921, abandonou o activismo político e feminista, mas não desacreditou nos ideais e valores que sempre a nortearam nem deixou de lutar por eles, embora de uma forma mais serena, comedida e discreta. Desencantada, não mergulhou na indiferença, nem se tornou céptica nem azeda. Continuou a olhar realisticamente o mundo e a procurar soluções para os problemas da Humanidade. O seu espírito sempre irrequieto e em constante ebulição, buscava sempre, por caminhos vários o alimento necessário ao seu equilíbrio intelectual e afectivo. A sede constante do saber e a capacidade de compreender, a atracção pelo desconhecido e o misterioso, a ânsia de perfeição e de felicidade e o desejo da imortalidade levam-na a enveredar pelo espiritismo, acreditando que “dentro do ideal espírita, cabem todas as reivindicações e todas as aspirações para a constituição de uma sociedade melhor”[9].

A iniciação numa aventura espiritualista, mística e esotérica que se reclamava de filosófica, científica e experimental e que apontava para o aperfeiçoamento individual e colectivo pela sucessiva reencarnação das almas e procurava estabelecer contactos com a vida exclusivamente espiritual dos que tinham deixado a vida terrena, a fim de beneficiar dos conselhos, ânimo e orientações dos espíritos superiores para a construção de um mundo melhor, fascinava-a.

Há sempre em cada um de nós certa misteriosa atracção para o ignoto... Por mais positivista que se pretenda ser, dorme no mais recôndito de cada um de nós uma ânsia de desconhecido, pois não se pode viver sem alguma crença, e ela é a grande cadeia que nos prende à Vida, por muito libertos que nos julguemos.[10]

O acompanhamento das suas leituras e estudos sobre o espiritismo esteve a cargo do general Viriato Zeferino Passaláqua[11], que também lhe disponibilizou a sua excelente biblioteca. À medida que estudava os mestres Flammarion, Aksakof, William Crookes, Gabriel Dellane, Cesare Lombroso, Albert de Rochas, Léon Dénis, J. B. Roustaing, Fredrich Myers, Richet [12] e outros, mais atraída se sentia pela nova filosofia.

Como todos os iniciados em qualquer doutrina, eu encontrava-me sequiosa de conhecimentos, abrasava-me na ânsia de saber, de descobrir os segredos do Além, entrando em comunicação com as entidades misteriosas que sentia pulular em meu redor. (...) Conhecê-las, falar-lhes, confundir a minha alma com a sua, - tal foi o desejo mais intenso por que me apaixonei então. E, como não podia deixar de ser, sucedeu-me o que sucede a todos os neófitos, qualquer que seja a sua cultura: - procurei satisfazer a minha sede de desconhecido, tomando parte nas denominadas “sessões experimentais”.

Devo confessar em abono da verdade, que a minha expectativa sofreu diversas e pungentes decepções; mas os conhecimentos bebidos nas melhores fontes e o desejo cada vez maior de ilustrar-me, animaram-me a prosseguir, sem que me sentisse influenciada pela ignorância e fanatismo de certos experimentadores, – antes tirando partido de tudo quanto se me deparava.[13]

O espiritismo a que Maria Veleda aderiu e a que se vinha dedicando era um credo científico, filosófico e moral de carácter eclético que admitia a existência de Deus, a quem rendia adoração, porém não admitia culto nem dogmas, deixando à liberdade da consciência individual a escolha do modo como exprimir o sentimento religioso. A raíz desta religião mergulhava na doutrina cristã e nos ensinamentos dos Evangelhos. Jesus Cristo, o divino Mestre, era o modelo a seguir.

As sete sacerdotisas do oculto

Cerca de 1916, Maria Veleda convidou algumas amigas, duas das quais eram antigas companheiras da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, e fundou o “Grupo das Sete”, constituído por Maria da Madre de Deus Leite Dinis, Maria Emília de Carvalho Gonçalves, Maria Emília Marques, Maria Augusta Setas, Emília Bähr Ferreira e ela própria. O nome da sétima mulher não é mencionado nos documentos consultados, mas é provável que fosse Ernestina Burguete. Para estas mulheres, o número sete revestia-se de uma certa simbologia mágica que favorecia a aventura iniciática no sagrado e no misterioso, o que se enquadra na tradição legada pelas civilizações da Antiguidade Oriental. Maria Veleda, iniciada na Maçonaria, conhecia bem o valor simbólico deste número. Sete eram também os membros necessários à fundação de uma loja maçónica.

Reuniam-se todas as semanas em casa de Maria da Madre de Deus em sessões experimentais presididas pelo Guia “Luz e Amor”. Estas reuniões, dedicadas ao estudo, meditação e experimentação, recordá-las-á como as mais frutuosas de todas as que assistiu, pois tinham o condão de a fazer sentir radiante de paz, felicidade e amor pelos outros, mais próxima de Deus e da ascese espiritual a que aspirava. Considerando os progressos espirituais do grupo, convidaram outras pessoas a participar nas reuniões, perdendo estas o carácter feminino e alargando-se a adeptos de ambos os sexos. Assim nasceu o Grupo Espiritualista “Luz e Amor”, cujos corpos gerentes eram constituídos apenas por mulheres, entre as quais as fundadoras, que colectivamente promoveram várias actividades culturais com objectivos de propaganda espiritualista[14].

Em Janeiro de 1919, Maria Veleda, em colaboração com o filho Cândido Guerreiro Xavier da Franca e Hermínio do Nascimento, lançou a Revista Mensal de Propaganda Sociológica e das Ciências Psíquicas A Asa, órgão do Centro de Propaganda das Ciências Psíquicas “Luz e Amor”, destinada a todos os adeptos das doutrinas espiritualistas, mais interessados no “problema filosófico do que, propriamente, na questão religiosa ou científica, não querendo com isto dizer que esses dois aspectos nos sejam indiferentes (…)”[15].

Depois de explicar as razões da escolha e o simbolismo do título, expõe os objectivos da nova publicação que tratará de todos os assuntos que se prendam com “a elevação moral e intelectual da humanidade”. Assim, procurará espalhar:

ideias de paz, de amor e de liberdade. A emancipação da mulher, a protecção às crianças, a propaganda contra a prostituição e o alcoolismo, o combate contra tudo que for iníquo e represente opressão ou abuso de força, violência, ambições mesquinhas, negação dos direitos que todos temos à vida (...). É que nós compreendemos que as doutrinas espiritualistas são como a semente que só pode produzir e frutificar em terreno que seja previamente laborado.[16]

A propaganda do espiritismo estava a cargo do General Viriato Passaláqua, com o “ABC Espírita”. A secção “Ecos do Além”, relatava comunicações medianímicas e recebia a colaboração de todos os correspondentes, desde que isentos de fanatismo. Também se divulgavam textos de autores famosos e a poesia dos melhores poetas, inspirada na Ideia de Deus e na imortalidade da Alma. Para informar os leitores sobre o movimento espírita internacional, transcreviam-se artigos, entrevistas e notícias publicadas em periódicos estrangeiros. Cândido G. Xavier da Franca, filho de Maria Veleda, assegurava o secretariado da Redacção da revista e assinava artigos de cariz literário e de inspiração espiritualista.

Como directora do novo periódico, Maria Veleda tinha a seu cargo os editoriais, as notas da Redacção, a correspondência com os leitores e a troca de informações com outras publicações nacionais e estrangeiras[17]. A secção “Em toda a parte”, onde se noticiavam e comentavam acontecimentos da actualidade era também da sua responsabilidade, embora fosse assinada por Fred, um outro pseudónimo, diminutivo do seu apelido Frederico. As opiniões aqui veiculadas a propósito dos mais variados assuntos, criteriosamente escolhidos, tinham sempre intuitos pedagógicos. Os comentários tecidos à volta de certos eventos eram sempre pertinentes e às vezes premonitórios. São disso exemplo, as notícias sobre as lutas sociais entre brancos e negros nos E.U.A. e as condições impostas à Alemanha pelos Aliados no Tratado de Versalhes. Sobre o primeiro, mostra-se estupefacta pela existência da desigualdade de direitos entre cidadãos brancos e negros no país da Liberdade e do Progresso, e diz-se indignada pela teimosia cega de uns quantos que, em pleno século XX, continuam a negar a evidência da unidade do género humano. A Conferência de Paz e o Tratado de Versalhes, assinados em 1919, suscitam-lhe sérias dúvidas sobre a pretensa preservação da paz europeia e mundial e a construção de um mundo melhor, visto que se baseavam na vingança dos vencedores, na injustiça para com os pequenos povos e na subjugação humilhante da Alemanha vencida. Com estes pressupostos, prevê que de “uma paz firmada em violências e cheia de injustiças”, o “vulcão enorme” da guerra volte a irromper, num futuro mais ou menos próximo, de tal forma que só depois o mundo ficará preparado para compreender o verdadeiro valor da Paz. O tempo provou que os receios  de Maria Veleda/Fred tinham razão de existir.

A maioria dos artigos assinados por Maria Veleda continuava a sustentar a crença na utopia da “Pátria Ideal”, baseada nos valores da Paz, da Solidariedade, do Altruísmo, da Justiça e do Amor, que uniriam toda a humanidade na longa caminhada de aperfeiçoamento, ascese espiritual e felicidade universal. Na “Pátria Ideal” não haveria lugar para leis iníquas que perpetuassem as desigualdades e as injustiças, nem para ódios patrióticos que justificassem violências e guerras destruidoras de bens e de vidas, cobrindo a terra de dor e de luto e espalhando as sementes da vingança. No rescaldo de uma guerra que se revelou longa e dura e que teve consequências tão trágicas para toda a Europa, Maria Veleda punha em causa os valores do patriotismo e dos nacionalismos exacerbados que, em parte, lhe deram origem e a justificaram perante os povos dos países envolvidos. Após a guerra, havia que celebrar a paz e lutar pela abolição de fronteiras e a união de todos os povos, a fim de criar uma pátria universal, onde houvesse apenas cidadãos do mundo.

Considerando-se uma “obscura pioneira da Ideia da igualdade dos sexos”, continuava a defender também os ideais feministas. Na sua perspectiva, as doutrinas espíritas promoviam essa igualdade por considerarem que não há sexos mas apenas espíritos. O sexo é apenas uma parte do invólucro material que serve temporariamente o espírito nas suas vidas sucessivas em busca de perfeição. Sob o ponto de vista social, o sexo dos indivíduos também seria irrelevante se a acção de ambos não se circunscrevesse a estas ou aquelas actividades. A “horrível desigualdade” dos destinos humanos e a “injustiça suprema”, atribuídos a um Ser Omnisciente, são incompreensíveis e dificilmente aceites, motivando revoltas e desesperos em muitas almas. Mas desde que se compreenda que todo o Mal e todo o Bem representam a obra da evolução e ascensão através do encadeamento das vidas sucessivas e que a felicidade e a desventura resultam da acção de cada um sobre o próprio destino, toda a raiva e desespero podem transformar-se em esperança e consolação.

Maria Veleda, apesar de ter renegado o catolicismo e ter defendido ardentemente o livre-pensamento, nunca perdeu a fé em Deus. A adesão às doutrinas espiritualistas[18] levam-na agora a proclamar a fé e o amor a um Deus “todo misericórdia, todo bondade, todo justiça, que não impõe lugares de expiação nem de beatitude, mas permite estados de alma, por meio dos quais se goza a felicidade de uma consciência pura ou se arrasta o peso de um remorso que pode ser atenuado à medida que o espírito se liberta do fardo dos seus crimes ou das suas imperfeições”[19]. O Deus que a sua “razão compreende”, é um Deus verdadeiramente justo, que permite à sua alma “vislumbrar a Luz”, ter a Esperança de resgatar todas as suas faltas e de penetrar na grande “Verdade” que ainda se lhe afigura incompreensível e lhe está interdita, mas que há-de alcançar quando chegar a hora da sua redenção. Esse Deus diz-lhe “que trabalhe, que estude, que investigue, e, sobretudo, que seja boa, tanto quanto puder sê-lo; que use de caridade para com todos os (seus) irmãos, seja qual for a sua crença, independentemente das suas virtudes ou dos seus crimes; que aplique a (sua) inteligência – não na propaganda desta ou daquela doutrina, mas para a difusão da Fraternidade e do Bem Universal”[20].

A fé em Deus, “Verdade Suprema”, que reside “entre os homens, imaterial, pura, divina”, a palavra e os ensinamentos de Cristo, reproduzidos nos Evangelhos, serão o sustentáculo da nova religião que visa uma maior espiritualização da existência humana no caminho da perfectibilidade e da felicidade colectivas. Para Maria Veleda, amar a Deus e seguir as doutrinas de Cristo não implicava, de forma alguma, “a mais pequena quebra (nos seus) princípios de livre-pensadora”.

Magalhães Lima, outro livre-pensador que se reconhecia idealista e contemplativo, convidado a escrever na Revista A Asa, defendia também a supremacia das leis da Paz, da Liberdade e do Amor para uma maior espiritualização da vida.

Amo a Paz, que cria o espírito regulador das sociedades, e que estabelece na terra a harmonia das almas. A grandeza material é de molde a deslumbrar aqueles que se contentam com a plástica das coisas. Mas não dá nem pode dar a felicidade, que só pelo desenvolvimento moral se pode obter. Espiritualizar a vida é torná-la fecunda e útil aos nossos semelhantes. (…) A espiritualização da nossa existência, considero-a como um passo para a perfectibilidade.[21]

A publicação da revista A Asa cessou em Dezembro de 1919. Em Fevereiro de 1921 foi substituída pela revista O Futuro com as mesmas características, embora com um corpo redactorial mais alargado, constituído por Viriato Passaláqua e Hermínio do Nascimento. Maria Veleda dirigiu também esta revista, secretariada pelo filho Cândido, até Dezembro de 1922, data da partida deste para Angola. Em Junho de 1922, Maria Veleda lançou nesta revista a ideia da realização de um Congresso Espírita, a fim de aproximar todos os grupos nacionais, dar visibilidade e prestígio à nova filosofia e delinear a oposição e o combate ao pseudo-espiritismo fraudulento que muito contribuia para comprometer e amesquinhar os nobres ideais do verdadeiro espiritismo.

Apesar de se pretender mensal, a publicação da revista O Futuro foi bastante irregular. Entre Fevereiro de 1921 e Outubro de 1923, publicaram-se apenas quinze números, havendo por vezes interregnos de quatro meses a um ano. Em 1924, a periodicidade parece ter sido mais regular, a avaliar pelo último número que consta na colecção incompleta da Biblioteca Nacional. Sendo de distribuição gratuita aos sócios do Grupo Espiritualista “Luz e Amor”, nem sempre havia verbas para a sua publicação.

Entretanto, o número de adeptos do Grupo Espiritualista “Luz e Amor” aumentou. Em Novembro de 1923, o Grupo contava com 78 mulheres e 61 homens, cujas profissões se centravam nas áreas do ensino, medicina, advocacia, engenharia, oficialato das Forças Armadas, comércio, indústria e funcionalismo público. Este aumento obrigou a um desdobramento das sessões experimentais e à transformação do Grupo em agremiação de mais larga envergadura. A Revista O Futuro, de Fevereiro-Maio de 1923, dá relevo à criação do Centro Espiritualista “Luz e Amor”[22], associação devidamente regularizada e autorizada pelas entidades oficiais, cujos estatutos foram aprovados em Assembleia Geral, em 15 de Abril do mesmo ano. Os objectivos do novo Centro eram os seguintes:

Estudar as forças ocultas da Natureza e as suas relações com o progresso da Humanidade; praticar a solidariedade em todas as suas características e conforme os recursos que estejam ao seu alcance; intensificar a propaganda em prol das ideias neo-espiritistas e desenvolver por meio de publicações, de conferências ou de sessões particulares ou públicas o amor pelo Bem e pelo Belo; realizar “matinées” ou serões de arte, organizados por forma que elevem e eduquem o espírito, destinados a obter recursos para auxiliar associações de beneficiência que lutem com dificuldades para manter-se e levar algum conforto a pobres doentes e desamparados; fundar um jornal ou revista quando esteja em condições de fazê-lo.[23]

A Direcção desta agremiação ficou a cargo de sete mulheres. Maria Veleda, presidente; Maria Emília Carvalho Gonçalves e Dinah Santos Lima, secretárias; Emília Marques e Elisa Santos Lima, tesoureiras; Maria da Madre de Deus Dinis e Maria Augusta Beliter, vogais. A Mesa da Assembleia-Geral era constituída por Viriato Z. Passaláqua, José Alves Teixeira e Artur António da Silva.

Em 1924, o Centro Espiritualista “Luz e Amor” decidiu criar o seu órgão de imprensa, uma nova revista com o título A Asa. Maria Veleda foi convidada a dirigi-la, sendo o corpo redactorial constituído por mulheres, à excepção do General Passaláqua. Ao grupo editorial pertenciam catorze homens e oito mulheres. O principal objectivo da nova publicação era preparar o I Congresso Espírita, para “melhor e mais homogénea organização das ciências psíquicas, em Portugal”. Neste sentido, consultaram-se todos os grupos e centros espíritas do país sobre a pertinência da realização do Congresso e da disponibilidade em apoiarem o esforço do Grupo promotor. Como a maioria se mostrou interessada na concretização do evento, o Centro Espiritualista “Luz e Amor” tomou a iniciativa de reunir todos os Grupos, a fim de dar início aos trabalhos de preparação do dito Congresso.

O I Congresso Espírita Português e a criação da Federação Espírita Portuguesa

Obedecendo a tais intuitos, o Centro promoveu uma reunião magna com representantes de diferentes grupos congéneres, que teve lugar no Ateneu Comercial, em Lisboa, em 11 de Janeiro de 1925, na qual se deliberou que o Congresso teria lugar no mês de Maio seguinte. O entendimento dos vários grupos sobre o título do Congresso não foi fácil. Maria Veleda propôs que se denominasse “Congresso Espiritualista” o que foi aceite pela maioria. No entanto, uma minoria que preferia o título “Congresso Espirita”, ameaçou abandonar a reunião, comprometendo a realização do mesmo. Maria Veleda, considerando que o adiamento do Congresso punha em causa o seu objectivo da criação da Federação Espírita Portuguesa[24], e não querendo a desunião entre os grupos, retirou a sua proposta, depois de consultar os seus apoiantes. Todavia, os consensos eram difíceis; a delegação da Sociedade Teosófica, não concordando com a designação de “Congresso Espírita” abandonou a assembleia.

Ficou então decidido que a organização do evento ficaria a cargo da direcção do Centro Espiritualista “Luz e Amor”, “constituída apenas por senhoras”, o que, para Maria Veleda, foi motivo de grande “desvanecimento”. Não se poupando a “esforços, sacrifícios e canseiras” e auxiliadas por alguns “irmãos cheios de boa vontade e devoção pela causa”, realizou-se o evento, “que excedeu em importância tudo quanto se tinha previsto, (e que) marcou, indiscutivelmente, o primeiro grande triunfo do Espiritismo em Portugal”[25].

O Congresso realizou-se em Lisboa, nos dias 14, 15, 16 e 17 de Maio de 1925, no Ateneu Comercial, com a presença de delegados de todos os Grupos e Centros Espíritas do país, à excepção do Centro “Luz e Caridade” de Braga. Cada congressista poderia fazer-se acompanhar de duas senhoras, medida que visaria conseguir uma maioria de mulheres, já que a escolha dos delegados ao Congresso recairia naturalmente nos homens. Maria Veleda era vice-presidente da Comissão Organizadora e presidia à Sub-Comissão de teses.

As teses apresentadas ao Congresso distribuiram-se por três secções: “Moral e Filosofia”, “Ciência”, “União e Assistência”. Na vertente “Moral e Filosofia”, desenvolveram-se os seguintes temas: “O Bem, Religião da Humanidade”; “O aperfeiçoamento do Espírita”; “Solidariedade e não Caridade”; “A Moral Espírita”; “Destrinça entre a Ciência Espírita e a Moral Espírita - Valor Moral daquela e Influência Espiritual desta”; “Reincarnação e em que ela se baseia”; “Espiritualismo e Espiritismo”. Na área da “Ciência” incluiram-se as teses: “Socialismo e Espiritismo”; “A atitude da Ciência perante o Espiritismo”; “O Espiritismo como Acção Social”; “Podem ser admitidos dogmas na Ciência Espírita?”; “Loucura Espírita ou seja Obsessão”. Na secção “União e Assistência” debateram-se os assuntos seguintes: “A união dos Espíritas Portugueses”; “Relatório da Comissão Pró-Federação”; “Porque não se deve confundir Espiritismo com Espiritualismo no sentido de Teosofia ou seja a Sabedoria Divina”; “Assistir aos deserdados da fortuna moral e material”.

Maria Veleda, desgostosa com algumas experiências e práticas espíritas, remeteu-se ao silêncio. Seis meses mais tarde, explicará porquê.

Pensei apresentar uma tese no Congresso sobre o “fanatismo espírita”. Desisti em face da oposição que pessoas amigas fizeram à minha ideia, que poderia, em sua opinião, tornar-se “pedra de escândalo”. Em várias circunstâncias tenho notado que me encontro num plano diferente daquele em que se encontra a maioria dos espíritas portugueses.[26]

Com a realização do Congresso e o lançamento da Federação, Maria Veleda considerava a sua missão cumprida. Em Outubro de 1925, na comemoração do 1.º Aniversário da revista A Asa, faz o balanço da linha orientadora seguida e dos trabalhos realizados. Referindo-se à divisão do espiritismo em seitas que se digladiavam, pensando e agindo como se cada uma delas estivesse na posse absoluta da Verdade, lamenta que a orientação que tem dado à revista, baseada na tolerância e no respeito por todas as opiniões, nem sempre tenha sido bem entendida. Às censuras e apreciações irritadas de alguns confrades, sempre que se publicavam artigos com afirmações discutíveis e ou contrárias às que eles próprios defendiam, contrapõe a firme intenção de manter a linha de independência moral que sempre seguiu, isenta de facciosismos.

Quem dirige A ASA, não veio para ela tendo abandonado qualquer religião, mas sim depois de passar pelas fileiras do Livre-Pensamento. Ingressou no Espiritismo, depois de ter estudado as religiões comparadas e de compreender que todas elas, a despeito das suas aparentes divergências, têm a mesma e suprema finalidade: - DEUS.

Quem dirige a ASA, conquanto, individualmente, esteja desligada de todo o espírito de seita e se interesse pelo Espiritismo, considerando-o apenas sob o seu aspecto filosófico e científico, - o que julgamos não ser um crime, porque a consciência de cada um é livre e não pode nem deve subordinar-se à opinião alheia, - quem dirige A ASA tem-se abstido de manifestar nas suas páginas o seu modo de ver e as suas observações pessoais, muitas das quais iriam ao encontro dos sentimentos da maioria.

Dentro do Espiritismo - assim o dissemos ao jornalista de “O Diário de Lisboa”, que nos entrevistou na véspera da abertura do 1º Congresso Espírita Português - somos uma revolucionária. Nem “kardecista” nem “Roustanista” - visto como, à semelhança do que fazem outras religiões, o Espiritismo também já se divide em seitas.[27]

Estas e outras divergências na forma de encarar a filosofia e a prática espírita levavam-na a duvidar da sua capacidade para bem servir a causa a que se vinha dedicando. Cansada das sessões  “recreativas” e do exercício da caridade, sob a forma de “esmola”[28], propôs aos seus confrades mais próximos outras práticas que se lhe afiguravam como um dever: “ir às cadeias e aos hospitais consolar os aflitos, levar a esperança ao coração dos que sofrem”, ajudar na regeneração social das mulheres atoladas na prostituição, ensinar a ler crianças e adultos - “dar, enfim, cada qual uma parte do seu esforço espiritual em benefício da comunidade”. Esta proposta pareceu-lhes demasiado arrojada, pois responderam que semelhante tarefa só poderia intentá-la quem não tivesse que fazer nem família para sustentar e que sendo eles espíritos ainda muito imperfeitos não podiam ter a pretensão de “tentar imitar Jesus”.

Pouco a pouco, o desencanto vai cedendo terreno ao desânimo e Maria Veleda, em Dezembro de 1925, escreve uma carta aberta aos leitores da revista A Asa e aos sócios do Centro Espiritualista “Luz e Amor”, onde expõe os motivos que determinaram a sua intenção de abandonar todos os compromissos dentro do “espiritismo militante”. Confessa que há muito discordava da forma como se orientava esta ciência em Portugal mas, na expectativa de correcções futuras, deu a ela própria um prazo para verificar se os seus pontos-de-vista se mantinham ou alteravam face ao evoluir da situação. Como estes se mantiveram e ou até se reforçaram, decidiu desviar-se do meio espírita, onde não se sentia bem, e onde a sua acção se tornou “absolutamente nula”.

Recorda que em todos os números da revista A Asa se absteve de fazer crítica espírita, apesar de sempre a ter feito noutros periódicos que dirigiu ou em que colaborou, dando sempre “largas ao (seu) espírito combativo, verberando certos excessos, certas crendices, certas inferioridades de que via eivado o Espiritismo, sem que os interessados em levantá-lo à altura de «uma verdadeira ciência» procurassem fazer recuar a onda de superstição e de ignorância em que ele ameaçava subverter-se”[29]. Lembrando as denúncias públicas que entretanto fizera em outros periódicos da especialidade, relatando casos por si presenciados que, em sua opinião, só denegriam a causa que procurava enaltecer, lamenta que esses gritos de alerta não tenham tido quaisquer consequências a nível da reflexão e da discussão sobre certas práticas caricatas, ridículas e até perigosas. Pretendia ela advertir para os perigos da excessiva credulidade de algumas pessoas, aparentemente “criteriosas e lúcidas” noutras circunstâncias, mas que fanatizadas pela paixão espírita se deixavam convencer por mistificadores que se divertiam a dizer e a fazer disparates que não resistiam ao menor senso comum.

Nestes últimos anos sofrera grandes desgostos por ver que as “sessões experimentais constituíam, frequentemente, menos um motivo de estudo do que um passatempo barato”, já que ela se dedicava ao Espiritismo, “não sob o domínio de uma paixão doentia, obsecante, mas procurando integrar-(se) por completo nas suas doutrinas, sem que, por esse facto, deix(asse) de estudar, observar, medir, comparar, fazer experiências e pôr em dúvida tudo quanto possa repugnar a inteligências esclarecidas e cultas”[30].

A mediunidade curadora exercida a “torto e a direito, numa inconsciência de estarrecer”, também lhe merecia as mais acesas críticas, por pôr em risco a razão e a vida de pessoas que, fragilizadas pela doença, acreditavam em curas milagrosas e deixavam de recorrer aos serviços médicos competentes. Embora acreditasse no excepcional e raro dom de curar, revoltava-a que se abusasse criminosamente de uma faculdade, na maior parte dos casos imaginária, que prejudicava os padecentes e acoimava os médicos de ignorantes e exploradores sem qualquer crédito.


Condeno as sessões, não em absoluto, mas da maneira como elas são orientadas e servidas por vulgaríssimos médiuns de incorporação, que ainda não vi que produzissem senão... vulgaridades. Condeno os tratamentos espíritas, não em absoluto também, mas da forma insciente como eles se administram.  Condeno o orgulho de certos meios espíritas que se julgam na posse da verdade.  Condeno a cegueira dos que acreditam em tudo que vem do Astral ou do subconsciente dos médiuns.  Condeno tudo que seja fanatismo, subserviência, anulação do raciocínio. E porque assim é, e terminou o prazo que a mim própria estabeleci – período de expectativa em que as minhas ideias se radicaram – entendo que o único caminho a seguir é o do afastamento.  Afasto-me, pois; e com a distribuição do presente número de “A Asa” coincidirá a minha renúncia ao cargo de sua directora e ao de Presidente do C. E. “Luz e Amor”.[31]


Maria Veleda afasta-se destes dois cargos mas garante a sua substituição na direcção da revista pelo Dr. António Freire, médico, escritor e espírita dedicado. Entretanto, ele desobriga-se do compromisso tomado, alegando que A Asa deveria desaparecer para dar lugar ao Portugal Espírita, órgão da Federação Espírita Portuguesa. No entanto, esta proposta parece não ter sido bem acolhida pela restante direcção do Centro Espiritualista “Luz e Amor”, pois foi nomeado um corpo de redacção alargado, constituído por Maria da Madre de Deus Dinis, Maria O’Neil, Maria Emília C. Gonçalves, Dinah Santos Lima, Capitão Augusto Flores, J. B. S., Júlio Costa e José de Almeida Abrantes. Este grupo manteve-se inactivo durante os três primeiros meses de 1926, publicando apenas dois números, em Abril e Maio do mesmo ano. Sem a direcção de Maria Veleda, a revista entrou em decadência e morreu.

Também o Centro Espiritualista “Luz e Amor” se extinguiu nesse período. Após a realização do Congresso, em Maio de 1925, o Dr António Freire, nomeado presidente da Comissão Pró-Federação, propôs a Maria Veleda, vice-presidente, a dissolução do Centro “Luz e Amor” e a sua fusão na Federação Espírita Portuguesa, porque esta não poderia constituir-se, única e exclusivamente, com os Centros e Grupos federados, oficialmente legalizados, visto que o seu número não ultrapassava as três dezenas. Para que a Federação fosse uma realidade e pudesse sobreviver financeiramente havia que ter sócios contribuintes. O Centro Espiritualista “Luz e Amor” contava com cerca de quinhentos associados, distinguindo-se muitos deles pela inteligência, cultura, trabalho e dedicação à causa, e foi o iniciador e promotor da Federação. Para ele fazia todo o sentido a extinção do Centro, passando os seus constituintes a sócios fundadores da Federação, de modo a não esbanjar recursos em duas frentes de trabalho com os mesmos objectivos. Este médico preconizava que em Lisboa existissem apenas “pequenos grupos espíritas familiares”, embora condescendesse com a união de vários grupos na província.  Esta posição favorável à concentração de grupos, apenas fora da capital, dever-se-á ao facto de não querer hostilizar a União Espírita do Algarve, bastante numerosa e dinâmica.

De uma longa exposição do médico António Freire, publicada nas revistas O Espírita e Ecos do Além, em Agosto de 1926, deduz-se que esta proposta foi feita a Maria Veleda depois de esta se opor a que a Federação aceitasse Grupos ou Centros não legalizados oficialmente, medida que garantiria a sua fidelidade aos sagrados princípios da crença espirita e a honestidade das suas práticas. Alargar o crivo da selecção permitiria a entrada de qualquer Grupo, o que se lhe afigurava inaceitável, visto que a sua maior preocupação era combater tudo o que contribuísse para denegrir, comprometer e amesquinhar o verdadeiro espiritismo. Transigir com grupos de filosofia e práticas duvidosas, seria legitimar o que se pretendia e devia combater.

Naquela época, a onda espírita que parece ter varrido o país traduziu-se no aparecimento de grupos e grupinhos, uns de méritos duvidosos e outros ostensivamente charlatanistas, de tal modo que o governo moveu perseguições policiais aos cartomantes, magnetizadores e médiuns-curadores que enxameavam a capital. Por isso, Maria Veleda era cautelosa, atitude nem sempre bem entendida. Nestas circunstâncias, a dissolução do Centro “Luz e Amor”, a que presidia desde a sua fundação, era a moeda de troca pela sua intransigência. Dever-se-á a estas divergências a sua renitência em aceitar fazer parte do Conselho Superior Deliberativo da Federação, eleito em 27 de Agosto de 1925, do qual faziam parte os médicos Dr. António Freire e Dr. Adolfo Sena e o Dr. Martins Velho.

Maria Veleda, embora não concordando com a dissolução do Centro, deixou que esta proposta fosse apresentada aos Corpos Gerentes, na reunião de 29 de Novembro de 1925, sendo aprovada a sua dissolução por oito votos a favor e um contra. Seguiram-se tempos conturbados, porque muitos dos sócios não concordando com a decisão da maioria dos membros da direcção, acusaram o Dr. António Freire da morte do Centro e tornaram-se dissidentes do mesmo. Maria Veleda, ao renunciar à direcção da revista A Asa e à presidência do Centro, não fez qualquer referência a estes factos, mas reside neles o principal motivo do seu afastamento. Sentindo-se derrotada, preferiu o silêncio a entrar em polémica com as antigas companheiras de direcção e, principalmente, com o General Passaláqua, presidente da Assembleia Geral, pessoa que muito estimava. Por outro lado, a recusa em aceitar a dissolução do Centro que fundara, estava em contradição com a defesa dos interesses da Federação, cuja criação ela implementou e à qual devia fidelidade, como vice-presidente eleita da Comissão Pró-Federação e como membro do Conselho Superior Deliberativo.

Em Março de 1926, com a morte do General Passaláqua, Maria Veleda e alguns companheiros do Centro Espiritualista “Luz e Amor”, ainda não dissolvido, fundam o Grupo Espirita “General Passaláqua” e a revista Vanguarda Espírita, em homenagem ao mentor e amigo falecido. Maria Veleda, tendo-se afastado do espiritismo militante, achou por bem não figurar na redacção da nova revista com o nome por que era conhecida e optou por usar o pseudónimo José Veríssimo, assinando ainda alguns textos como Fred, à semelhança do que já tinha feito na revista A Asa. Entretanto, também escrevia alguns artigos de crítica espírita nas revistas Luz e Caridade, de Braga, e Ecos do Além, de Lagoa, com os pseudónimos Fred e Myriam. Este último foi substituído por Maria Carolina logo que se apercebeu que o mesmo circulava também na imprensa católica, usado por outra senhora.

Apesar das pessoas mais próximas, inclusivé o Dr. António Freire, estarem ao corrente deste regresso “encapotado” às lides da escrita, paixão a que dificilmente resistia, a sua demissão oficial dos cargos para que tinha sido eleita no âmbito da Federação, originaram mal-entendidos e polémica nos meios espíritas. O médico, irritado perante as acusações de querer erguer a Federação à custa da dissolução do Centro Espiritualista “Luz e Amor” e as recriminações por ter transformado Maria Veleda em “vitima inocente” de todo o processo, passa ao ataque e responsabiliza aquela pelas dissidências entretanto verificadas, acusa-a de desinteresse pela Federação e insinua que ela recusa cargos honrosos e de prestígio nesta por considerá-los inferiores aos que ocupava no Centro, fazendo alusão à célebre frase atribuída a Luísa de Gusmão: “antes rainha por um dia que duquesa toda a vida”[32].

Maria Veleda usa o direito de resposta neste último periódico e explica que, tendo abandonado a militância no espiritismo oficial, por uma questão de coerência, renunciou também a todos os cargos para que foi eleita na Federação. Apesar de desiludida com certas práticas dentro do espiritismo, não deixou de ser espírita e que, ao contribuir com a sua quota parte para a fundação do Grupo Esp. “General Passaláqua”, não teve qualquer propósito hostil a pessoas ou colectividades e que este não se formou à custa de deserções do Centro “Luz e Amor”, pois a maioria dos seus membros continua a pertencer-lhe. Se houve dissidências, elas ocorreram muito antes da formação do novo Grupo, não podendo ser responsabilizada pelas mesmas. Tendo dado todos estes passos com o conhecimento prévio do Dr. António Freire, sem que ele discordasse, Maria Veleda mostra-se perplexa com as acusações que lhe são dirigidas, atribuindo-as a “intrigas de soalheiro”, a que é completamente alheia[33].

A argumentação apresentada para contestar afirmações e factos obrigou o Dr. Freire a vir novamente a público para pedir desculpa pela interpretação abusiva que fez dos actos e intenções da Srª. D. Maria Veleda, por quem manifesta o máximo respeito e consideração, e conceder-lhe a “palma da vitória” na polémica travada[34].

O Dr. António Freire reconheceu o erro em que incorreu, pois sabia que, apesar de Maria Veleda não concordar com a dissolução do Centro Espiritualista “Luz e Amor” para erguer a Federação Espírita Portuguesa, foi ela que, como vice-presidente, ao ver o atraso em que se encontrava a redacção dos respectivos Estatutos, tomou a inciativa de convocar uma reunião para se discutirem as suas linhas orientadoras. Ele, como presidente, sentiu-se desautorizado, invocou a complexidade e a dificuldade de tal tarefa, mas acabou por ceder às razões apresentadas sobre a necessidade e a urgência de dar cumprimento ao estabelecido no Congresso sobre essa questão. Quando Maria Veleda, apesar da sua insistência, renunciou a todos os cargos para que foi eleita, ele teve dificuldade em aceitar tal decisão, porque se encontrava quase sozinho na dura tarefa de erguer a Federação e envolvido nas querelas e intrigas que dividiam os vários grupos espíritas. Esta polémica e os pressupostos que lhe estão subjacentes revelam quão difíceis eram as relações entre homens e mulheres, quando estavam em causa os papéis e os poderes de uns e de outros.

O desenrolar e o desfecho deste episódio obrigaram Maria Veleda a vir a público para esclarecer mais uma vez as razões que a levaram a abandonar a militância activa no espiritismo oficial e defender-se das insinuações e ataques pessoais que lhe foram dirigidos. Aproveitou para “depôr a lupa” dos pseudónimos entretanto usados, outra das críticas do Dr. Freire, e assumiu novamente o nome de sempre. Continuou a fazer parte da redacção da revista A Vanguarda Espírita, ocupando agora as funções de secretária, onde não perdia nenhuma oportunidade de denunciar e condenar práticas fraudulentas e indignas de uma ciência que, em sua opinião, pretendia conhecer e explicar o mundo visível e invisível e o poder do consciente e do inconsciente na procura do melhor caminho para a perfectibilidade humana e a felicidade colectiva.


A escrita reflexiva na imprensa espírita e espiritualista


 
A partir dos anos vinte, Maria Veleda inicia uma viagem de análise introspectiva, visando um maior conhecimento de si e um constante aperfeiçoamento espiritual. Na escrita publicada na imprensa espírita e espiritualista, é visível o desejo de escapar às limitações do conhecimento comum sobre os mistérios da vida e da morte e de indagar sobre a finalidade da existência humana.

Por vezes, é notório o conflito interior travado entre o racionalismo crítico do livre-pensamento e a fé religiosa. Se na década de vinte privilegiava as dimensões filosófica, científica e experimental do espiritismo, agora interroga-se, põe em dúvida, hesita, porque “a filosofia também impõe dogmas, a despeito da sua falibilidade; e aquilo que a ciência descobriu e afirmou ontem, converte-se em dúvida hoje e em negativismo amanhã” e, muitas vezes, até os elementos de prova são interpretados de maneira diversa, consoante a perspectiva do observador[35]. Maria Veleda reconhece a dificuldade em conciliar a ciência oficialmente aceite com as doutrinas espiritualistas, visto que são muitas e intransponíveis as barreiras que a primeira levanta quando se pretende combinar as demonstrações científicas com a existência e a imortalidade da alma. Assim sendo, questiona se a “vontade, a inteligência, a memória, os sentimentos, as emoções, serão do domínio da matéria”. Ela acredita na coexistência da matéria e do espírito no ser humano, o que explica, desde sempre, que ele aspire ao conhecimento e à perfeição e procure “elevar-se para a Fonte da Beleza e da Luz Suprema”[36].

 
Apesar de se afirmar como uma pessoa fervorosamente religiosa que põe toda a confiança nos ensinamento do Divino Mestre, oscila entre o sentimento de felicidade pelo dom da fé, que a guia na busca incessante do sentido da vida, e um certo desalento pela complexidade do conhecimento que visa alcançar. Nestas deambulações do espírito, é assaltada pela dúvida e questiona a possibilidade de encontrar respostas para todas as perguntas que vai formulando. Receando perder-se em especulações que podem gerar a descrença, conforma-se, embora temporariamente, com as limitações impostas à condição humana.


Os diferentes sistemas, as desencontradas filosofias, as contraditórias afirmações religiosas são tantas que mal vai a quem pretende solucionar-lhes os intrincados e alucinantes problemas. Perde-se a imaginação no formidável labirinto e, por vezes, a fé sossobra no naufrágio das comparações. (...) Não pretendo significar que se mantenha a imutabilidade de uma determinada opinião, desde que ela possa influenciar-nos em detrimento do que se nos afigura justo e verdadeiro. E digo “afigurar” porque a Verdade de face múltipla”, oferecendo-se sob “tão variados aspectos”, envolvendo-se “em tão impenetráveis véus”, por mais que tentemos comprendê-la, acabamos por questionar a sua própria essência ou por considerar-nos vencidos, concluindo que “quanto mais sabemos mais ignoramos.[37]

Mas se os sistemas filosóficos, científicos e religiosos se contradizem e se mostram incapazes de conciliação, Maria Veleda tenta um equilíbrio entre os princípios de uns e de outros que melhor se ajustam e coadunam com a sua razão e não desiste de procurar respostas e aprofundar conhecimentos sobre os mistérios da vida e da fé que professa, as aspirações superiores do pensamento, as inquietações do espírito, a ânsia de perfeição e o sentido último da existência.

Como ser pensante, Maria Veleda não consegue desligar a fé da razão, duas coisas que, na época, se afiguravam contraditórias e inconciliáveis para o senso comum, e que hoje são encaradas de forma diferente, pois como escreveu D. José Policarpo, Cardeal Patriarca de Lisboa:


a racionalidade é o fruto de um dos dinamismos fundadores da dignidade humana, a capacidade de pensar o próprio ser e a própria existência e de nunca desistir nessa busca interminável do “sentido”. (...) Esse labirinto imenso de dois milénios de busca da intelegibilidade da fé tem duas portas, que tanto são entradas como saídas. Uma para os crentes, continuamente convidados a não fugir à exigência da racionalidade que a sua fé comporta, não caindo em fundamentalismos místicos ou pietistas; outra para os descrentes que, através dessa racionalidade assumida, poderão chegar às portas da fé, na aceitação realista do sentido do fenómeno religioso. (...) Deus, na nossa vida, não é uma conclusão, é um acontecimento que adquire, frequentemente, a radicalidade do inesperado.[38]


Maria Veleda também não desiste de procurar “a intelegibilidade da fé”, o “sentido último da existência” e o caminho para o aperfeiçoamento constante e a felicidade individual e colectiva. Após a incessante procura conclui que, só os princípios da Bondade, da Tolerância, do Perdão e do Amor, pregados por Jesus Cristo, poderão conduzir a Humanidade à Paz e à Harmonia necessárias ao progresso e à ascese espiritual. Considerando cada ser humano uma “centelha” desprendida do “Grande Foco gerador da suprema Beleza e da Perfeição suprema”, pensava ser possível alcançar a compreensão de Deus e da Sabedoria Divina e o gozo pleno da felicidade eterna.

As últimas três décadas de vida são dedicadas quase exclusivamente à concretização destes objectivos. Sem deixar de se assumir livre-pensadora, na acepção de tudo submeter à análise crítica da razão, dedicou-se ao estudo do espiritismo e dos Evangelhos, procurando encontrar a “Verdade” por si própria, visto não se conformar com a sugestão alheia ou a imposição e a autoridade de outrem. A escrita publicada nesta época revela muita e aturada leitura e profunda reflexão. Com intuitos pedagógicos, ora dissertava sobre temas como o “Amor”, a “Familia”, a “Tolerância”, o “Perdão”, o “Arrependimento”, a “Fé”, a “Esperança”, a “Caridade, a “Ascese” e a “Vaidade”, entre outros, ora comentava passagens biblicas ou expunha meditações que constituíam “preceitos morais”, a seguir pelo verdadeiro espírita ou pelo crente de qualquer outra religião, pois baseavam-se em princípios éticos e religiosos universalmente aceites.

No desejo de conhecer os mistérios das manifestações do inconsciente, dedicou-se também ao estudo dos fenómenos oníricos, iniciando-se nas teorias psicanalíticas de Freud e lendo alguns dos seus seguidores e comentadores. A complexidade desta área de estudo parece não a ter intimidado, antes constituindo um desafio para a sua mente sempre desejosa de aprender. Embora convencida dos seus fracos conhecimentos acerca do assunto, não resiste a especular sobre os próprios sonhos, sobretudo os mais recorrentes e os ditos “premonitórios”, cuja explicação se lhe afigurava mais problemática e controversa, à luz dos conhecimentos recolhidos no estudo dos mestres. A interpretação que procurou fazer ao longo da vida sobre a origem e a relação de certos fenómenos ocorridos na infância, juventude e idade adulta, afigura-se-lhe agora demasiado simplista e cientificamente pouco fundamentada. Deste modo, assume uma certa contradição entre as visões defendidas no passado e no presente acerca de vivências e experiências pessoais, porque “...as nossas maneiras de encarar os factos mudam com a idade”.

Efectivamente, da observação dos acontecimentos, como eles vão ocorrendo, relacionados com as diferentes modalidades por que vai passando a nossa vida, é que pode derivar um critério modificável e sujeito à acção do tempo. Caminhar, caminhar sempre, descobrir novos horizontes, deve ser o lema de quem deseja evoluir.  Pretendo assim significar que nem sempre estarei de acordo comigo mesma, escrevendo sobre assuntos que se me oferecem hoje subordinados a um convencimento diverso daquele em que me firmara anteriormente.[39]

Esta escrita reflexiva e a poesia de pendor religioso foram publicadas na imprensa espírita e espiritualista, destacando-se a revista Luz e Caridade, do Centro Espírita de Braga, O Mensageiro Espírita e a Revista de Espiritismo, boletim e órgão oficial da Federação Espírita Portuguesa, Ecos do Além, da União Espírita do Algarve, Estudos Psíquicos, órgão do Centro Espiritualista “Luz e Amor”, reorganizado em finais de 1938, e a Revista de Metapsicologia. Nesta época escreveu também uma História do Espiritismo em Portugal, da qual só se conhecem alguns excertos, reproduzidos na revista Fraternidade, em Maio de 1978. Em 1923, já tinha publicado a novela “Casa Assombrada”, de feição espírita e reencarnacionista.

Mas nem só as questões espirituais e religiosas a preocupavam. Na Revista de Espiritismo e no Mensageiro Espírita publicou também conferências, proferidas na Federação Espírita Portuguesa, na década de trinta, subordinadas a temas feministas e educativos.

Na década de quarenta, Maria Veleda escreveu muito. Em Junho de 1943, começou a escrever as “Memórias”, como forma de “entreter os longos e forçados ócios”, alimentar a paixão da escrita e legar aos filhos e aos netos algo de muito pessoal; um património afectivo e intimista, destinado a perpetuar no tempo a lembrança de uma vida “vivida com sentido”, porque orientada por ideais. Entre 26 de Fevereiro e 11 de Abril de 1950, as “Memórias de Maria Veleda” são publicadas no jornal República, o que constitui uma vitória para este periódico de tradição republicana e democrática, porque apesar de alguns cortes efectuados pela Comissão de Censura, o conteúdo não foi alterado nem a sequência da publicação interrompida. No decurso da publicação das “Memórias de Maria Veleda”, o seu confrade A. M. da Silva convida-a a escrever também as “Memórias Espíritas”, a fim de serem divulgadas na Revista de Metapsicologia, visto que, em seu entender, “Democracia e Espiritismo” “é uma e a mesma coisa”. Também o amigo Coronel Faure da Rosa lhe escreve para que redija e publique as suas “Memórias Espíritas” na revista Estudos Psíquicos:

pondo a nu as misérias de que tem conhecimento. (...) Não hesite! (...) Escreva, escreva e mande-me as suas “Memórias Espíritas” que constituirão uma secção a abrir na nossa “Revista”. Basta apenas não pôr os nomes verdadeiros dos alvejados; de resto, diga-se a verdade nua e crua para escarmento dos culpados e exemplo dos possíveis “aspirantes” a tartufices, que infelizmente abundam agora.[40]

Maria Veleda responde a A. M. da Silva em “Carta Aberta” e, explanando, mais uma vez, as linhas orientadoras da crença e da prática espírita, salienta a sua vertente humanista. “Para mim, “Espiritismo” é sinónimo de “Fraternidade Universal”, nem de outro modo compreendo que se possa segui-lo”[41]. Reconhece que as suas experiências, principalmente as que se relacionam com a iniciação e a militância dos primeiros tempos, tiveram tanto de rico e notável como de decepcionante e desagradável.


Nas minhas “memórias espíritas”, eu seria compelida a descrever várias sessões de natureza contraditória a que assisti; referir-me ao procedimento de alguns falsos médiuns sem escrúpulos; apontar a miopia de dirigentes sem perfeita consciência da sua missão, e o fanatismo de grande parte dos assistentes que se deleitam com os disparates atribuídos a “espíritos”, preferindo-os a uma boa dissertação feita por um director consciente. (...) Seria forçada a referir factos de que tive conhecimento, estigmatizar erros, apontar ridículos, desmascarar tartufices que só prejudicam a Ideia. (...) Eu entendo que para realizar o “verdadeiro espiritismo”, se torna absolutamente necessário evitar fraudes e insistir na defesa da acção social que cabe à nossa redentora doutrina.[42]


Como durante muitos anos se esforçou por denunciar estes e outros desvios sem lograr resultados palpáveis, agradece mas recusa o convite.  Ao amigo Faure da Rosa terá respondido em carta fechada e recusado também a proposta, pois nada indica que tivesse mudado de ideias.

Maria Veleda acreditava na possibilidade de as almas, em perfeita sintonia do amor, comunicarem entre si.  Por vezes, confessava às pessoas mais íntimas haver entre ela e o filho ausente uma tal comunhão de pensamentos que muitas das preocupações, dúvidas e ansiedades comuns eram assim dissipadas e muitos problemas resolvidos. As cartas semanais trocadas desde a partida do filho para África, em Janeiro de 1923, confirmavam muitos dos pensamentos antes partilhados.  As netas Maria Ester e Maria Leonor contam um episódio revelador deste fenómeno que muito as impressionou. Decorria o ano de 1953 e contavam elas dezoito e vinte anos, respectivamente. Encontravam-se de férias com os pais em casa da avó Veleda. O avô Cândido Guerreiro tinha vindo de Faro para casa da filha Agar, em Lisboa, a fim de rever o filho Cândido e as netas, após vinte anos de ausência. Não estava muito bem de saúde, mas era notória a sua alegria de viver quando conversava com as jovens e lhes revelava os projectos que tinha arquitectado para os seus futuros. No dia 11 de Abril, visitaram-no como habitualmente e foram confrontadas com a sua morte. Quando regressaram a casa viram a avó Veleda vestida de luto que se adiantou dizendo: “- Não digam nada! Eu sei que o vosso avô morreu! - Como? - perguntaram espantadas. - Senti no meu coração...!”.

Pressentindo o seu tempo de vida a esgotar-se, um ano depois, redigiu e assinou um documento em que declarava a “sua vontade em ser sepultada civilmente, sem qualquer interferência (antes ou depois da sua morte) de elementos católicos ou de qualquer outra religião dogmática”, e entregou-o a Dulce Sara de Sottomayor Pizarro, esposa do filho adoptivo, Luís Frederico Viegas. Embora os netos Cândido e Pedro e respectivas esposas não professassem qualquer religião, a nora Dulce, como comunista e assumidamente ateia, era a pessoa ideal para dar cumprimento ao seu desejo.

Os últimos anos da vida de Maria Veleda foram difíceis de suportar pelo seu espírito irrequieto e empreendedor. Como os achaques da velhice a impediam de andar, passava os dias num cadeirão, junto à janela, lendo, escrevendo, meditando e ouvindo a TSF. Lúcida, firme e coerente até ao fim, partiu em 8 de Abril de 1955, sem poder regressar ao seu Algarve, “província azul, embebida de sol”, para sentar-se “à sombra das amendoeiras que se toucam de neve, quando as andorinhas chegam e sacodem, docemente, ao perpassar da aragem, as suas olorantes capelas virginais”[43]. Repousa no Cemitério do Alto de São João, em Lisboa.

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Natividade Monteiro, licenciada em História pela Faculdade de Letras de Lisboa, Mestra em Estudos sobre as Mulheres pela Universidade Aberta. Professora de História e investigadora dos Projectos “Biografias de Mulheres – Século XX” do CEMRI - Centro de Estudos das Migrações e Relações Interculturais da Universidade Aberta e “Dicionário no Feminino” de Faces de Eva. Centro de  Estudos sobre a Mulher, da FCSH da Universidade Nova de Lisboa.


[1] Maria Veleda, A Vanguarda; 13.02.1909, p. 1.
[2] Maria Veleda, A Vanguarda, 04.03.1909, p.1.
[3] Idem, ibidem.
[4] Maria Veleda, A Vanguarda; 20.02.1909, p. 1.
[5] Maria Veleda, A Vanguarda; 29.07.1909, p. 1.
[6] Fernando Marques da Costa; Maçonaria Feminina,Lisboa, Vega,  1979, pp. 50, 58.
[7] Maria Veleda, Estudos Psíquicos, Julho de 1945, p. 245.
[8] Idem, ibidem.
[9] Maria Veleda, A Asa, n.º 7, Julho, 1919, p. 117.
[10] Maria Veleda, Revista de Metapsicologia; Julho, 1949, p. 147.
[11] O general Passaláqua era considerado um dos decanos do Espiritismo em Portugal, ao lado do Dr. Martins Velho, e caracterizado como um velho sábio, muito sensível e humano. Era defensor dos direitos das mulheres numa perspectiva moralista.
[12] Uma pequena biografia, as descobertas científicas e as obras sobre temas espíritas dos cientistas referidos podem ser consultadas online no sítio de Faces de Eva. Centro de Estudos sobre a Mulher no endereço www.fcsh.unl.pt/facesdeeva.
[13] Maria Veleda, Estudos Psíquicos; Novembro-Dezembro, 1940, p. 235.
[14] Em 1919, o Grupo “Luz e Amor” destacou uma comissão, constituída por Maria Veleda, Adélia de Araújo Sampaio, Emília Marques, Ernestina Burguete, Margarida de Azevedo e Morais Castro Sarmento, a fim de angariar meios para a fundação de um orfanato destinado a recolher e educar crianças, cujos pais tivessem falecido, vítimas da influenza-pneumónica.
[15] Maria Veleda, A Asa; Janeiro, 1919, p. 1.
[16] Idem, ibidem, p. 2.
[17] O intercâmbio com os Centros e periódicos espíritas do Brasil parece ter sido intensa. Por exemplo, a revista brasileira A Verdade, órgão da União Espírita do Pará, transcrevia artigos de Maria Veleda publicados n’A Asa e Ecos do Além. O Centro Espírita “Luís Gonzaga” de Itapira - Associação Espírita Beneficente e Instrutiva de Cachoeira, Itapemirim - Estado do Espírito Santo, conferiu a Maria Veleda o título de sócia honorária, por unanimidade, numa assembleia geral extraordinária. Havia também intercâmbio com outras revistas espíritas de países europeus, sobretudo, Espanha, Itália e França.
[18] As correntes neo-espiritualistas incluiam espíritas, rosacruzes, teósofos e hermetistas, entre outros.
[19] Maria Veleda; O Futuro, n.º 8; Agosto, 1922, p. 3.
[20] Idem, ibidem.
[21] Magalhães Lima; A Asa, n.º 8; Agosto, 1919, p. 119.
[22] O Centro Espiritualista “Luz e Amor” tinha relações estreitas com a Sociedade Teosófica - Ordem da Estrela do Oriente em Portugal, cujo órgão oficial era a revista Isis, dirigida pelo coronel Óscar Garção, e com a Sociedade Portuense de Investigações Psíquicas. Quando, em 1939, o Centro Espiritualista “Luz e Amor” se reorganiza, o seu primeiro aniversário é comemorado no salão de conferências da Sociedade Teosófica, embora aquele disponha de uma nova sede na Rua do Salitre, 149, 1.º D.
[23] O Futuro, n.º 10, Fev.-Maio de 1923, p. 3.
[24] Há referências à existência da Federação Espírita, desde 14 de Maio de 1918, cujos estatutos teriam sido aprovados pelo Governo Civil de Lisboa. Havia que aprová-los também em Assembleia-Geral e pôr a Federação a funcionar, de facto. No 1.º Congresso Espírita Português, em Maio de 1925, foi eleita a Comissão Pró-Federação, encarregada de elaborar os novos Estatutos e cuja presidência e vice-presidência recaíram sobre o médico António Freire e Maria Veleda, respectivamente. Os novos Estatutos foram aprovados pelo Governo Civil em Maio de 1926.
[25] Maria Veleda, Estudos Psíquicos; Novembro-Dezembro, 1940, p. 236.
[26] Maria Veleda, A Asa, n.º 3; 1925, p. 59.
[27]
Maria Veleda, A Asa, n.º 1; Outubro de 1925, p. 2.
[28]
Tanto o Grupo Espiritualista “Luz e Amor” como depois o Centro com o mesmo nome levaram a efeito “sessões recreativas” ou de “confraternização”, geralmente constituídas por palestras, música, recitação de poesia e teatro. Em 1924, Maria Veleda fundou um grupo de teatro em que figuravam as jovens Leonor d’Eça, mais tarde actriz profissional, e as irmãs Laura e Cecília de Almeida Nogueira, para representar as peças de sua autoria: “Soror Angústias”, “Saudades”, “Na pele do Leão”, “Um desafio” e “Redenção”. O Centro também organizava festas infantis para as crianças do Asilo de Santo António e do Asilo de Cegos “Branco Rodrigues” e fazia donativos a famílias necessitadas. Na quadra do Natal, as mulheres do Centro encarregavam-se de comprar roupa, calçado e brinquedos para oferecerem às crianças que se encontravam com as mães na cadeia do Aljube ou internadas no Instituto Bacteriológico Câmara Pestana. Também se organizavam festas de propaganda, nas quais se faziam peditórios a favor do “Albergue das Crianças Abandonadas” e do “Albergue dos Inválidos do Trabalho”.
[29]
Maria Veleda, A Asa, n.º 3; Dezembro de 1925, p. 56.
[30]
Idem, ibidem, p. 57.
[31]
Idem, ibidem, pp. 59-60.
[32]
António Freire; O Espírita, n.º 7-8, Julho-Agosto de 1926, pp. 199-244; Ecos do Além, n.º 173, 174, 175; Agosto, 1926, pp. 97-121.
[33]
Maria Veleda; Ecos do Além, n.º 17, 30 de Setembro, 1926, pp. 176-178.
[34]
António Freire; Ecos do Além, n.º 18, 15 de Outubro, 1926, pp. 164-166.
[35]
Maria Veleda, Revista de Metapsicologia, Junho de 1949, p. 126.
[36]
Maria Veleda, O Mensageiro Espírita; Set./Out. 1946, p. 2.
[37] Maria Veleda, Estudos Psíquicos; Nov. 1943, p. 372.
[38]
D. José Policarpo; “Diálogos sobre a fé”; Diário de Notícias, 09.11.2003, p. 6.
[39]
Maria Veleda, Revista de Metapsicologia; Agosto de 1949, p. 175.
[40] Carta de Faure da Rosa a Maria Veleda, Espólio particular.
[41]
Maria Veleda, Revista de Metapsicologia; Maio de 1950, p. 107.
[42]
Idem, ibidem, p. 108.
[43]
Maria Veleda, A Vanguarda, 13.02.1909, p.1.

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