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Número 11 | Janeiro - Junho 2012 ISSN 1646-740X
 

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A imagem como instrumento de identidade 
- A figuração de São Jerónimo no manuscrito Bíblico ANTT, Lorvão 45

 

Inês Correia
Torre do Tombo; Instituto de Estudos Medievais FCSH – UNL
ines.icplanet@gmail.com

RESUMOTEXTOFONTES E BIBLIOGRAFIANOTAS PALAVRA-CHAVECITAÇÃO imprimir PDF imprimir mail indice
 
 
"E Deus criou o homem à sua imagem" (Gn 1, 27).

A preocupação com a problemática da imagem está no cerne da civilização cristã ocidental, assumindo um papel, de certo modo, fundador: o próprio Homem como imagem de Deus. No Novo Testamento, esse papel fundador da imagem é complementado em função da carne: "No princípio era o Verbo (...) e o Verbo se fez carne e habitou entre nós" (Jo 1, 1; 14); o Verbo, definição da divindade que se manifesta, se torna homem. Imagem e texto ocuparam a reflexão humana, sobretudo numa busca pela possível equivalência na função de transmitir, por um lado e por outro, conteúdos consonantes. Encontrar no significado das imagens o modo de funcionamento das palavras tem aberto o debate para o entendimento da imagem medieval na sua relação directa à palavra escrita.[1]

No Século VI, o argumento avançado pelo Papa Gregório Magno, na sua luta contra a destruição das imagens pela iconoclastia de Serenus, aquilo que a escritura é para os que lêem, a imagem é para os ignorantes,[2] reforça a ideia de inter-relação entre a palavra e a imagem. Alegando não só o seu poder instrutivo, Gregório refere o efeito salutar que a imagem produz através da sua contemplação.[3] E. Mâle ao aprofundar essa ideia, define a imagem medieval como um ensinamento doutrinal, submetendo-a à superioridade dos textos. Apesar de elaborada e útil, a concretização teórica de Mâle surge-nos redutiva para o entendimento da imagem medieval, pois os mecanismos da língua (oral ou escrita) e da figuração não são redutíveis uns aos outros. O discurso e a imagem complementam-se num universo conceptual com ou sem reciprocidade, e através de operações diferentes – ver e ler[4]. É desse funcionamento que se obtém a ideia da função da imagem. É na conexão, contrariamente à dependência, que se traduz a sua totalidade, função e forma.

Mas este funcionamento está longe de ser um funcionamento bem definido num sistema finito e racional. Atendendo à sua complexidade, as funções da imagem podem ser múltiplas, ambivalentes, polivalentes ou até contraditórias. O entendimento da imagem medieval como acto cognitivo, na perspectiva diacrónica do seu efeito singular e sistemático, parece-nos possível se atendermos às diversas relações que a sua natureza permite. Por um lado, encontramos a manifestação da síntese, a intenção conceptual e o carácter simbólico; por outro, a relação com todo um universo teológico através do recurso a equivalências, hierarquias e oposições. A imagem contrai-se e distende-se em função do observador, da menor ou maior complexidade a que está permeável. Pode situar-se entre a ‘mera’ ilustração de uma bíblia e um determinado paradigma da metalinguagem medieval.

 

A Imagem

Trata-se da imagem seleccionada para a entrada nº 10 do Inventário dos Códices Iluminados até 1500, vol.1, Distrito de Lisboa, p.37,[5] relativa à inventariação do manuscrito, Bíblia do Lorvão (ANTT, Lorvão lv. 45), onde se lê: “... no início do texto uma grande inicial ‘P’ com representação de um escriba (S. Jerónimo?)” . Esta entrada pode ser tomada como ponto de partida para o estudo desta imagem e, eventualmente, servir de paradigma para a reflexão sobre a iconografia da iluminura medieval. De facto, a dúvida sobre a identificação da figura, expressa por um sinal de interrogação, levanta algumas questões;

1. Esta dúvida será superficial, devida à leitura imediata e apressada da imagem - um monge sentado a escrever inscrito na inicial da Epístola de Jerónimo a Paulino de Nola; ou, por outro lado, será mais profunda, fruto de uma de uma análise inconclusiva sobre o sentido múltiplo da imagem?

2. Qual a proximidade e qual o distanciamento entre os diferentes sentidos – ‘Monge escriba’ e ‘S. Jerónimo’? Será o referente medieval semelhante entre as duas hipóteses?

3. Como se altera a recepção da imagem em ambas as interpretações? Terá um efeito opcional, entre um OU outro sentido, ou sobreposto, como um E outro sentido?

4. Quais os elementos iconográficos, símbolos e atributos que constroem o tema, para lá da interdependência com o texto?

 

Num varrimento primário - e, sem atender, em pormenor, ao seu envolvimento ornamental - a imagem, que faz a abertura do texto (f.1), apresenta-nos um homem com longas vestes, de tons escuros, sentado num banco, apresentando-se a três quartos e ligeiramente inclinado sobre uma pequena mesa de pé único, com instrumentos nas mãos, a escrever numa folha; está sob um arco de volta inteira e ladeado por colunas adornadas de capitéis de onde partem outros dois arcos menores e assimétricos; sob estes últimos estão suspensas cortinas brancas e sobre a arcaria é visível o apontamento de uma edificação com pequenas janelas.

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Fig.1 Escriba (Jerónimo?), ANTT, Lorvão lv. 45, f.1

 

A partir de um varrimento secundário, a imagem oferece um programa iconográfico com elementos, de certa forma, recorrentes, ao longo da Idade Média.[6] Um Monge tonsurado, de túnica azul e manto negro com capuz caído sobre as costas,[7] está no scriptorium sentado num banco que sugere a forma de capitel e apresenta-se a 3/4 ligeiramente inclinado sobre uma pequena mesa de pé único, configurando a estrutura de um pilar encimado de capitel – segurando os instrumentos usuais do escriba, cálamo e faca - a escrever num bifólio devidamente regrado; está sob um arco de volta inteira e ladeado por colunas adornadas de capitéis de onde partem outros dois arcos menores e assimétricos; sob estes últimos suspendem-se cortinas brancas, escoradas em suportes salientes como que permitindo a entrada da ‘Luz’[8]; sobre essa que seria uma arcaria claustral, apresenta-se uma edificação basilical, provavelmente de três naves, com clerestório.

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Fig.1a Contraste de pormenor da fig.1, destacando o referente.

 

Após estes dois níveis de leitura, sobretudo descritiva, a significação S. Jerónimo está ainda ausente, sendo inevitável aceder a um terceiro nível, interpretativo, com a finalidade de ver revelado, ainda que parcialmente, o significado (ou sentido) do tema representado. Embora seja apenas uma contribuição, no que respeita à exigente e demorada análise iconológica, ela revela-se determinante para compreender o funcionamento da imagem, e a partir daí tentar responder às questões levantadas. Para evitar recair em conjecturas originadas pela inter-relação dos vários elementos que compõem a imagem, nomeadamente os arquitectónicos, cingimo-nos à abordagem da figura-chave, até aqui entendida como monge escriba.

Ainda sem recorrer a uma análise comparativa que adiante nos permitirá propor um sistema padrão, servimo-nos apenas da imagem e de uma compilação de argumentos que justifiquem, mais do que a imagem do monge escriba, a figuração de S. Jerónimo. O referente, compreendido como aquele que escreve[9] – seja na posição de autor, de escriba ou de copista – integra-se no valor que adquire a palavra de Deus encarnada na escrita, sobretudo no texto bíblico e que aufere, nesse sentido, a designação de ‘Livro Sagrado’.[10]

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Fig.2 Cenas da vida de Jerónimo durante o período de preparação e apresentação da Vulgata. BNF, lat 1, f. 423v.

 

É amplamente tratado, nos estudos medievais, a importância do saber escrever,[11] de participar na perpetuação da Sagrada Escritura através da sua cópia e posterior difusão. A Palavra materializada na Bíblia pelo acto da escrita é como uma teofania em que Deus se revela como criador e ordenador, mas também se torna presente enquanto Verbo feito carne, como escreve S. Jerónimo (Strídon, c. 347 - Belém, 420), falando do povo judeu: “eles possuem a membranae[12], e nós, aquele que está na membranae”. O monge escriba, pelo acto de escrever, torna-se no mediador da palavra. A S. Jerónimo, patrono dos tradutores e Doutor da Igreja, é atribuída a compilatio da Sagrada Escritura. No século IV, S. Jerónimo traduz pelo menos o Antigo Testamento para o latim e revê os textos bíblicos, que à data constituíam a Vetus Latina. Desta demanda, comissionada pelo Papa Dâmaso I, deriva a Vulgata (termo apenas consolidado no século XVI), a primeira - e por séculos a única - versão da Bíblia que traduz o Velho Testamento directamente do hebraico e não da versão grega conhecida como a Septuaginta.

Se a sua intervenção foi directa, ou seja, por manu propria, ou indirecta, através do da habitual dictatio não tem que ser uma questão central. De resto, a paternidade dos textos era usualmente atribuída ao agente que ditava. Contudo, uma leitura atenta da sua obra mostra que este foi um autor sensível aos detalhes da escrita, da cópia e da edição. A sua relação com os materiais da escrita é colhida das referências ao tipo de suportes e seus propósitos - chartae, schedulae, tabulae, membranae – ou de instrumentos utilizados no registo – stilus e calamus.[13] S. Jerónimo surge na História no momento em que se dá a luta decisiva entre o papiro e o pergaminho. Face à elegância de um, está a resistência de outro, e, desde cedo os monges cuidaram para que fossem perenes os seus actos escritos. Por outro lado, os rolos do Antigo Testamento, escritos em pele de animal, convidavam a que se permanecesse fiel a este ponto da tradição bíblica. Mais tarde, com a difusão da Bíblia por Constantino, Escritura tornar-se-á mesmo sinónimo de codex e equivalente a membana. Recuperando a designação usada por Maria J. Azevedo Santos, estava definida a “trilogia da escrita: a matéria subjectiva, a matéria instrumental e a matéria aparente”, o tema, os instrumentos e os materiais.[14]

De grande utilidade para a integração da ideia mental ‘daquele que escreve’, foram ainda as referências de Jerónimo aos termos de librarius, ou scriptores, ou mesmo scribae, utilizados para a designação de copista. Em De viris illustribus[15], Jerónimo traduz a nota de Irineu ao seu tratado de Ogdoade:

Tu que transcreverás este livro, eu te esconjuro, em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, e de sua volta gloriosa, na qual virá julgar os vivos e os mortos: confronta o que tiveres copiado, e corrige-o com cuidado no exemplar em que o tiveres escrito. Transcreve também do mesmo modo esta súplica e coloca-a em tua cópia.[16]

A esta sequência de tarefas do escriba, tantas vezes confessadas como árduas, seria atribuída a grande responsabilidade de cópia fiel da Palavra. O Livro das Escrituras existe como objecto físico, mas porque contém o a Palavra de Deus, é objecto solene de veneração.[17]Experiências como tocar ou beijar a Sagrada Escritura estão na base desse entendimento e aceitação como dogma de fé. Assim, a Bíblia é um objecto irrefutável de Fé. S. Jerónimo – aquele que escreve – é o responsável pela compilação dos Livros que a constituem e a sua figuração, mais do que uma significação, é uma presença sobrenatural evocada através de um referente – ou protótipo segundo os teólogos.[18]

Perante o exposto, sugerimos esquematizar a metodologia de leitura proposta para a interpretação da imagem enquanto programa iconográfico e seu funcionamento face à eficácia supostamente pretendida.

Homem que escreve

I

Monge-escriba

I

Jerónimo

Homem que escreve

↙                                    ↘

Monge-escriba       ↔     Jerónimo

Esq.1 Leitura estratigráfica do programa iconográfico

Esq.2 Leitura anacrónica entre os estratos iconográficos

 

As leituras não se opõem, mas têm resultados distintos para o esclarecimento da nossa dúvida. Assim, partindo do esquema 1, somos levados a concluir que pode tratar-se da figuração de Jerónimo; no entanto, uma interpretação menos linear sugere o sentido múltiplo da imagem. Neste caso, a imagem tem significado ambivalente, resultando da conjunção de duas significações possíveis, monge-escriba e Jerónimo face ao referente, que de resto se inscreve num fenómeno frequente da representação medieval para assegurar as equivalências entre as figuras do Antigo e Novo Testamento e que, de forma esclarecedora, Jean Wirth denomina de hibridação iconográfica.[19]  Se nesses casos de equivalência, a hibridação iconográfica foi explorada, no caso de Jerónimo/monge escriba, o propósito para essa designação refere-se com alguma novidade. A imagem como suporte da figura de Jerónimo ganhará ao longo do tempo uma autoridade acumulada pelas alterações impostas na sua representação[20], mas no século XIII a sua figuração assume já um papel determinante ao revelar-se como uma espécie de ideograma que advém de figurações similares, nomeadamente dos Evangelistas (Esq. 3). A imago do escriba que vemos sobre o pergaminho contém a ideia do Doutor da Igreja, scriptor, apoiando-se directamente na concepção medieval de imagem, nomeadamente no estabelecimento do eixo terra-céu, ou mundano-divino, centrada pelo protótipo fundador da ideia – neste caso, a escrita ou, aquele que escreve. A sua eficácia no seio das comunidades culturais e religiosas do Século XIII, bem preparadas do ponto de vista teológico e exigentes quanto à escolha de recursos para transmissão da Palavra de Deus, fica bem atestada no modelo iconográfico que abre a Vulgata.

 

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Esq.3 A imagem de estrutura esférica.

 

 

Imagem / Texto[21]

O manuscrito em que se encontra esta imagem é identificado pelo título de Testamento Velho (de Lorvão) e é um códice truncado. Termina com as Parabole Salomonis e está subtraído de todo o conjunto que respeita aos Salmos. Datado do século XIII (1220-1251), “pertenceu ao Mosteiro de Santa Maria de Lorvão[22] e foi de lá recolhido pelo director aposentado do Real Archivo, Sr. José Manuel da Costa Basto”[23]. É um manuscrito regrado com 40 linhas, em pergaminho e escrito em letra gótica, a duas colunas, com o que identificamos outros dois manuscritos do mesmo fundo, ANTT, Lorvão, lv. 11 e lv. 46. O volume inicia com a Epístola de Jerónimo a Paulino de Nola, bispo dessa cidade italiana (409 d. C.). Neste texto, Jerónimo expõe a Paulino o modo de estudar a Sagrada Escritura resumindo cada um dos Livros do Antigo e Novo Testamento sendo este um dos argumentos que reforçam a ideia da figuração deste Doutor da Igreja ancorada na imagem do monge escriba.

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Fig.3 Imposição da imagem no f.1. do manuscrito ANTT, Lorvão lv 45.

 

Esta Epístola é utilizada como Prólogo noutras Bíblias latinas, observando-se frequentemente a representação do mesmo programa iconográfico, que iremos analisar como sistema de padrão.

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Fig.4 Bible (séc. XII), Bourges, ms 0003, f.1v.

 

A iluminura está localizada no fólio 1, ocupando, no topo, toda a largura da coluna da esquerda e preenchendo o quadro circunscrito pela letra ‘F’ de Frater Ambrosius.... Trata-se de uma inicial figurada com haste prolongada verticalmente pela margem e antecedida de título rubricado, De omnibus divine ystorie libris. A inicial historiada indica bem a reestruturação da página levada a cabo pelas oficinas francesas do século XIII. Aparece bem integrada no regramento, ocupando 8 espaços e bem definida pela comunhão da letra e do quadro onde se impõe o tema. Toda a letra é folheada a ouro desde a haste, que percorre verticalmente a mancha de texto, até ao corpo que enquadra a cena. Predomina a decoração vegetalista, formando uma espiral na extremidade superior sendo a extremidade inferior, já na margem, formada por uma espiral que inclui motivos fitomórficos e um animal híbrido. Sugerimos que a introdução desta Epístola patrística antes do próprio Génesis, reflecte no modelo iconográfico do Escriba – Jerónimo scriptor - a importância da revisão da Vulgata (1220) e da nova ordenação de Livros bíblicos e respectivos prólogos.  Com efeito, os manuscritos bíblicos saídos das oficinas parisienses do século XIII consolidam a escolha deste programa iconográfico que, juntamente com a ordem canónica de textos, se generaliza como imagem de abertura.

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Fig.5 Bible (séc. XII) Clermont-Ferrand, BM, ms.0002, f.1

Fig.6 Bible (séc. XII) Orleans, BM, ms.0013, f.1

Vale a pena observar que o mesmo texto (Frater Ambrosius...) presente na abertura de manuscritos bíblicos do século XII não é associado a esta imagem. Salvo num ou noutro exemplo, em que a inicial ‘F’ é figurada, nem sempre se confirma a figuração de S. Jerónimo[24] (veja-se no exemplo da Fig. 4, o valor de atributos como a Mitra), esta Epístola apresenta geralmente uma inicial bem ornamentada que destaca a importância do texto, verificando-se, por comparação com os manuscritos bíblicos dos séculos XI e XII, uma clara opção na introdução do ‘Monge scriptor’ como imagem de autoridade, que se mantém ao longo do século XIII.


 

O Códice

Dentro do mesmo fundo laurbanense, o manuscrito ANTT, Lorvão 45 está associado a dois outros manuscritos com os quais se complementaria originalmente para formar uma Bíblia[25]. O percurso do manuscrito é desconhecido, embora a sua origem seja atribuída (como parte de uma Bíblia) às oficinas de Paris. Esta conexão não é estabelecida pelas características que regularam a produção universitária do século XIII, tais como o suporte em velino ou os pequenos formatos, mas sobretudo pelas grandes dimensões e aproximação ao ‘estilo’[26] das Bíblias realizadas sob patronato régio. O estudo comparado dos seus elementos iconográficos ainda está em curso, mas as relações que se estabeleceram na comparação de quadros iconográficos e tratamento das figuras, apontam algumas paridades com as iluminuras das Bíblias Moralizadas (Oxford & Toledo), com particular similaridade com manuscritos do grupo Dominicano e do grupo Leber[27], assim como com os traços saídos de outros ateliês/oficinas parisienses bem caracterizados como o atelier Potocki e atelier Christine.[28]

Não obstante a escolha de Prólogos, a compilação de Livros, confirma a revisão feita com a nova edição da Vulgata (1220),  apontando a sua datação para o 2º quartel do século XIII.

A escrita gótica bem equilibrada numa empaginação com duas colunas, integra iniciais hierarquizadas, destacando-se as figuradas e historiadas para o início dos Livros, com programas iconográficos onde se reconhecem modelos em circulação nas oficinas atrás referidas. As iniciais ornamentadas em ‘rinceau’ (caules enrolados) marcam os prólogos e as iniciais filigranadas indicam os capítulos. Trata-se de um manuscrito de aparato evidente, não só no volume de quaternos pergamináceos, mas também na profusão de iluminuras – e que, além da provável presença de lápis lazuli[29] nos mantos das personagens, se fazia valer pela sistemática presença de folha de ouro no total preenchimento do fundo das iniciais historiadas. Correspondeu, por analogia a outros exemplos caracterizados por Branner (1997), a um investimento elevado na qualidade da execução o qual, certamente, encontraria paralelo no estimado valor de custo.

Os termos da sua chegada a Lorvão são igualmente desconhecidos, mas o carácter elaborado do códice revela-o como objecto de grande valor. Fruto de doação ou de testamento de algum elemento da alta nobreza ou patrono secular são hipóteses que se somam à possível pertença de D. Teresa (1181-1250), ex-Rainha de Leão que recolheu a Lorvão (1206) - após anulação do seu casamento com Afonso IX de Leão - aí introduzindo a observância de Cister e onde formou uma comunidade com cerca de 40 monjas. Lorvão aparece, então, como parte de uma cadeia de mosteiros femininos ibéricos, cujo impulso transformaria Cister na Ordem preferida das mulheres de sangue real e alta nobreza. Neste contexto, a presença de um manuscrito bíblico com as características enunciadas não representa uma questão tão premente para o nosso estudo como poderá significar o seu circuito. Assim, se atendermos à hipótese de ter sido realizada pela mestria de iluminadores do grupo Dominicano poderíamos relacionar o contexto cultural desta nova Ordem de Pregadores itinerantes com as casas filiais de Cister, como foi o caso do mosteiro misto de Prouille. Fundado em 1206 por São Domingos (1170-1221), reconhecido como o berço da Ordem Dominicana, foi fortemente influenciado pela presença quase exclusiva de cistercienses na região (Languedoc), nomeadamente das abadias femininas de Fabas, Frontfroide e Boulbonne[30]. Este facto, e, possivelmente outros contemporâneos de contornos similares, podem estimular a reflexão sobre o impacto da nova ordem emergente na difusão do manuscrito bíblico. Com efeito, independentemente da validade da equação sugerida, o manuscrito aqui descrito denuncia não só a actualização da comunidade que a usou, mas também as opções tomadas para sua utilização, como a separação do texto que corresponde aos Salmos[31]. Não tão óbvia foi o critério da divisão em dois volumes, feita entre o Eclesiástico e o Livro de Isaías  inicia o manuscrito ANTT, Lorvão 46.

Actualmente identificados e descritos como três manuscritos independentes (Testamento Velho, Psalterium e Sagrada Escritura, ANTT, Lorvão lvs. 45, 11 e 46, respectivamente), não seria seguro afirmar que haviam constituído um só códice se não fosse a análise da sequência do texto nos fólios extremos dos três volumes,[32] nomeadamente entre o Livro de Job (f. 293) e Parábola de Salomão (f. 294) de onde foram removidos os 34 fólios que constituem o manuscrito ANTT, Lorvão 11 (Psalms). Esta observação é complementada pela indicação de concordância na distribuição de furações da costura primitiva, correspondendo a cinco nervos e remates, observada igualmente nos três manuscritos. Outro elemento codicológico é o formato do folio, também indicador se tivermos em conta um estudo métrico de reconstituição e que pode adquirir especial significado no Testamento Velho onde o corte corresponde a uma diminuição superior a 60mm da altura original. Restam-nos ainda, como futuros elementos de análise, algumas medições inalteráveis colhidas no regramento (ex.: sistema de linhas) e justificação (ex.: margem interna).

De referir é ainda o códice designado por Sagrada Escritura, ANTT, Lorvão lv.46, que inicia com Isaías e incluí o Novo Testamento, terminando no Apocalipse de João (incompleto) onde é possível observar a relação iconográfica da figuração de São João Evangelista (Fig.7) com a imagem de abertura, ‘Monge escriba’ - Jerónimo scriptor.

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Fig. 7 Figuração do Evangelista São João. ANTT, Lorvão 46, f. 278.

 

Em termos codicológicos, mantém dimensões aproximadas daquelas que seriam as originais e as tábuas inteiras de madeira, usadas na encadernação, manifestam características formais na espessura (c. 10mm) e no entalhe (tipo de canais de empaste e sulco na goteira para fixação de cintas a partir do segundo plano) sugerindo que a separação dos textos pode ter sido realizada ainda no período medieval. As motivações que originaram esta divisão do códice original prendem-se, por ora, a suposições primárias associadas ao desconforto da dimensão primitiva (c. 480x340x200mm, sem contar com possíveis ferragens) e o excessivo peso do volume completo que, segundo uma previsão aproximada poderia rondar os 20Kg.

As práticas de uso da Bíblia no ambiente monástico feminino estavam ligadas sobretudo à salmodia ou às leituras dos Evangelhos pela abadessa em determinados momentos e locais como, por exemplo, o refeitório. Este facto é corroborado pelo estado de conservação do volume cujas páginas revelam marcas de elevada utilização quer pelo teor de manchas marginais acumuladas durante o manuseamento, quer pelo escurecimento geral do pergaminho. Este escurecimento, promovido pelo efeito cumulativo da luz durante os períodos de leitura, é ainda acompanhado de depósitos de cera associados a uma leitura à luz de velas, sobretudo nos fólios que correspondem aos Evangelhos. Já o volume que corresponde ao Psalterium, que se supunha ter sido encadernado com uma cobertura flexível em pergaminho para assegurar um manuseio ágil e mais frequente, apresenta um nível de conservação que atesta uma discreta utilização. São factos que não tendo uma relação directa com o presente estudo, auxiliam na interpretação de um possível contexto de uso; tratando-se de uma Bíblia, será pertinente levantar questões quanto à receptividade das orientações que levaram à produção bíblica num só volume, podendo esta identidade ficar comprometida pelas práticas da leitura no ambiente monástico feminino de Lorvão.

A divisão de uma Bíblia, concebida como um único volume, pode interferir na argumentação que defende a figuração de S. Jerónimo no seu início e o seu efeito aglutinante. Se isolarmos o códice truncado que inclui a imagem em causa e que consiste em parte do Antigo Testamento, ainda que se mantivesse a ideia de S. Jerónimo ancorada na imagem do escriba, a sua função seria tendencialmente reduzida ao efeito ad verbum – técnica de ilustrar as primeiras frases do texto. Por outro lado, se partirmos da imagem e da integração num sistema estruturado e lógico[33], que advém da linguagem artística e do pensamento da época, a sua eficácia não será comprometida, instrumentalizando-se, por fim, ao reconstituir (virtualmente) todo o volume Bíblico.

As intervenções de restauro a que foi sujeito ao longo do tempo não contemplaram esta análise mantendo, de forma compreensiva, os três códices individualizados por encadernações distintas, assim como não se encontra, até ao momento, qualquer inventário ou catálogo que integre os três códices como um único manuscrito. No entanto, a abordagem da figuração de S. Jerónimo justifica o repensar do título atribuído ao manuscrito, Testamento Velho, que apesar da dimensão parcial do seu conteúdo, se deve entender como manuscrito bíblico.

Como recurso incontornável da religião cristã, os manuscritos bíblicos foram produzidos ao longo da Idade Média confirmando a sua versatilidade formal, através das variações com que se apresentaram e compilaram os textos de base e da multiplicidade dos recursos iconográficos impostos nos seus fólios. No entanto, em nenhum outro espaço ou tempo, se produziu um número tão elevado de códices que apresentassem as consonâncias morfológicas como foram as Bíblias de Paris, no século XIII. No seio de inúmeros factores confluentes, impôs-se a revisão dos textos, das traduções do grego e das sequências de Livros, ficando apenas alguma flexibilidade associada aos Prólogos e Epístolas escolhidos para integrar o volume. A Bíblia gótica reclamava ainda a divisão de todos os livros da Bíblia, e não apenas dos que eram lidos nas reuniões de culto. Esta divisão da Bíblia em capítulos (1220), a cargo de Estevão Langton, professor da Sorbonne e futuro arcebispo de Cantuária obteve aceitação dos doutores da Universidade de Paris e acabou por ser consagrado o seu valor perante a Igreja. O sistema da sua produção por um grande número de copistas e iluminadores profissionais disponíveis na cidade de Paris e a regularização de programas iconográficos que serviam de modelos, por vezes itinerantes, constituíram uma verdadeira reforma tanto na forma como no uso deste manuscrito. No entanto, não seriam apenas os estudantes universitários que adquiriam estas ‘novas’ Bíblias, mas sobretudo clérigos, elementos da corte e, claro, os frades das novas ordens mendicantes, franciscanos e dominicanos, com responsabilidade na difusão destes manuscritos pela Europa. É neste contexto que podemos explicar as dimensões deste(s) manuscrito, que em nada atestam as comodidades dos modelos universitários.

No contexto português, o Testamento Velho de Lorvão é testemunho de um dos exemplares dessa herança, no formato de Bíblia de aparato. A actualização de alguma informação sobre o manuscrito não dispensa a análise comparada a que nos propomos de seguida.

Ainda antes de formalizar a metodologia utilizada na definição da amostragem, faz sentido apresentar exemplos paralelos (Bíblias, século XIII) observados no universo português.[34] Digno de nota é a designação escolhida para ‘Tema’, na base de dados, Imago: “S. Jerónimo copista”. Esta designação torna-se, à luz do presente estudo, distanciada da figuração de S. Jerónimo, uma vez que a sua ambiguidade é atribuída à imagem de monge escriba e não de copista. Salientamos, neste contexto, o papel de S. Jerónimo como autor de cartas, comentários, hagiografias e de tradutor; a iconografia desta figura decorre directamente da tradição escrita e da imagem que S. Jerónimo deixou de si mesmo nos seus próprios escritos, sobretudo como autor.

 

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Fig. 8. São Jerónimo. BNP, ALC. 455 (fl.1)

Fig. 9. São Jerónimo. BNP, IL 63 (fl.1)

 

Outras Bíblias, datadas do século XIII, guardadas na Biblioteca Nacional, na Biblioteca Pública de Évora, na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra (Fig.8 e Fig.9) ou na Biblioteca Pública Municipal do Porto poderão testemunhar o recurso a este programa iconográfico, assim como outras conformidades de origem parisiense. Porém, seria oportuno insistir na referência da característica que, numa primeira análise, individualiza o manuscrito 45 da Livraria de Lorvão. Em Portugal, trata-se do único exemplar descrito, comparável com as Bíblias Atlânticas ou com as nobres produções Dominicanas devido às suas dimensões (hoje, deduzidas por aproximação (480x300mm). Este facto poderá diminuir a validade de uma análise comparativa onde se procura reduzir as variáveis em função do respectivo objecto de análise. Assumir as imagens de forma individualizada, sem atender a tais características do suporte, pode condicionar a visão medieval das mesmas. No entanto, ao consultar as bases de dados[35] para manuscritos (sobretudo ao nível do manuscrito tridimensional), as dimensões parecem não constituir especial interesse, não sendo referidas de todo, ou aparecendo de forma incompleta (por exemplo, faltando a espessura do códice).

 


 

Sistema de padrão

O recurso à seriação para reportar continuidades entre centros de produção ou assinalar rupturas com os modelos anteriores à Reforma, possibilita avaliar melhor a relação da imagem com o seu protótipo, ou referente – aquele que escreve – e com o sistema para o qual foi criada. No primeiro caso, a comparação faz sobressair os elementos de continuidade face àqueles que se secundarizam ou que surgem de forma intermitente. No segundo caso, o triunfo da figuração de S. Jerónimo assenta na tendência crescente deste programa iconográfico a imagem de autoridade perante a qual se justifica debater o estatuto desejado na abertura da Bíblia.

Ao longo de toda a Idade Média a imagem do escriba, figurada ou não, insiste em acolher elementos iconográficos dos Evangelistas (Fig.10). A figuração revela bem a experiência do divino, profundamente humana, que o Cristianismo não deixou de desenvolver a partir da ideia de Cristo, feito Homem, imagem de Deus. Todas as figurações se revêem, então, na legitimidade dessa figuração inicial. Paralelamente, a Palavra e os seus mediadores dão continuidade à materialização do divino. Neste sentido, a analogia encontrada entre S. Jerónimo e os Evangelistas assenta no artifício de atributos materiais que veicularam a Palavra através do tempo, os suportes e instrumentos da escrita. Curiosamente, o espaço onde é escrita a Palavra adquire um sentido particular ao observar-se constante a representação da mesa e do banco.

Outro elemento que vale a pena registar ao observar a nova forma de integrar a imagem no manuscrito bíblico ao longo do século XIII, em contraste com as realizações do século anterior (Fig.11 e Fig.12), são as alterações formais na sua expressividade face ao texto.

 

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Fig. 10. São Mateus. Ebbo Gospels. Epernay 816/35, f.18v.

Fig. 11. Figuração de Jerónimo. Vida dos Santos, Dijon, séc. XII, Ms. 0002, f.006

Fig. 12. Figuração de Jerónimo. Biblia, Dijon, séc. XII, Ms. 0641, f.66

 

 

Por um lado, já nos finais do século XII, assistimos à diminuição da dimensão das imagens na composição do fólio em que o tema historiado ou figurado é inscrito no quadro formado pela letra, sistematizando-se durante o século seguinte e afastando-se do efeito particularmente conceptual e simbólico dos períodos anteriores.

Por outro, a dominação acentuada pela posição frontal, fazendo referência às imagens de Majestas Domini,[36], dá lugar ao naturalismo/humanismo  emergente.

 

No sentido de responder às questões iniciais e longe de constituir uma abordagem universal, concretizámos a pesquisa no universo limitado das Bibliotecas Municipais de França, não só por motivos de convergência geográfica da origem da imagem em causa (respectivo manuscrito), mas pela valia que representa a disponibilização de imagens em bases de dados devidamente trabalhadas em função do estudo de manuscritos. Com efeito, http://www.enluminures.culture.fr é o resultado de 30 anos de trabalho, disponibiliza 80000 imagens capturadas em alta resolução a partir de 4000 manuscritos descritos e representando cerca de 100 bibliotecas.

 Atendendo à diversidade de possibilidades previstas pelo motor de busca numa base de dados com esta escala, orientámos a pesquisa de forma a reduzir as variáveis em função das ocorrências na inicial ‘F’ da Epístola a Paulino de Nola.

Os campos foram ajustados a:

Título do manuscrito

Bíblia

Data

Século XIII

Origem

França, Paris

Contexto

Inicial ‘F’;

Epístola de Jerónimo a Paulino de Nola

 

Na presença de 62 resultados, que incluíram iniciais não historiadas, observámos que a designação atribuída ao campo ‘Tema’ fora Jerónimo escritor (Jerôme écrivant) para 42 ocorrências o que pode, desde já, destacar a correspondência entre a imagem e a figuração.

Na impossibilidade de apresentar todo o levantamento, agrupámos algumas dessas ocorrências em função de três subsistemas identificados que suscitarão matéria de análise.

São eles:

Figuração de S. Jerónimo ancorada na iconografia do monge escriba (tabela 1)

Figuração de S. Jerónimo escrevendo a partir da inspiração divina (tabela 2)

Figuração de S. Jerónimo escrevendo, aureolado (tabela 3)

 

Tabela 1

BM Alençon, ms 0054, f.003
BM Autun, ms 0146A, f .001
BM Beaune, ms 0023, f.003
BM Vendômems 0001, f.001
BM Dijonms 2246, f.003

c

c

c

c

c

 

Este subsistema é apresentado em primeiro lugar por ser aquele em que se poderá situar a imagem do Testamento Velho. Representa a maioria das ocorrências, caracterizando-se pela imposição da figura do monge-escriba em posição lateral, que se destaca dos fundos juntamente com os meios que simulam um ambiente preparado para a escrita. Embora não sejam dados elementos que façam a relação da imagem com a dimensão do manuscrito, ela está regularmente inscrita no quadro da letra “F” ocupando 8 espaços do regramento. Com maior ou menor artifício na decoração da letra ao longo das hastes, estas imagens parecem integrar a ideia base da humildade monástica ao serviço da escrita e perpetuação da Palavra Divina e cujo texto permite desenvolver pela alusão ao sábio monge, Hieronimus. Ao rever a imagem do manuscrito ANTT, Lorvão lv.45, em algo se excede o conteúdo da imagem. Primeiramente pelo impacto da imposição sobre toda a largura da coluna que recorre à epigrafia do seu nome para perfazer a forma quadrada atribuindo à dita coluna o efeito de capitel. Seguidamente, sublinhamos o cânone da figura cuja proporção 1/8, de cariz classicista,  se distancia das restantes ocorrências, normalmente inscritas na proporção 1/5 ou 1/6. Este facto é ainda observado em relação às restantes figuras do mesmo manuscrito, revelando claramente a intenção em comunicar a imagem com dignidade ou devoção particular.

Quanto ao subsistema em que a figura se apresenta a escrever sob influência de intermediários divinos como o Anjo ou o Espírito Santo, a atenção recai sobre a elevação que a postura adquire para interiorizar a mensagem divina, atribuindo-lhe um estatuto diferenciado do monge-escriba enquanto tal. Neste programa, não obstante a imagem ser parte integrante do texto, a figuração de S. Jerónimo adquire alguma independência, tornando-se ela própria integradora colhendo atributos de inspiração divina directos do Evangelista Mateus (anjo) e do Doutor da Igreja Gregório Magno (pomba).

 

Tabela 2

BM Angers, ms 0015, f.001 BM Valenciennes, ms 0008, f.004 BM Avranches, ms 0002, f.001

c

c

c

 

Quando confrontamos a imagem do manuscrito ANTT, Lorvão lv.45 com estas variantes, não assistimos a qualquer tipo de ruptura, mas sim a um fenómeno que será desenvolvido na iconografia de Jerónimo que é a sobreposição de atributos. Entre o monge-escriba (ou Jerónimo-scriptor) e ‘Jerónimo escrevendo sob inspiração divina’, a ambiguidade já referida dá lugar à complexificação da imagem, que se torna mais densa do ponto de vista iconográfico, respondendo a um desejo de figuração devocional depositado na imagem.

Por outro lado, no subsistema caracterizado pela figura aureolada, o interesse recai sobre o efeito decisivo da presença divina transmitido pela aureola. Seria arriscado desenvolver aqui o conceito histórico deste atributo e das suas variantes, no entanto podemos reflectir sobre a contribuição que, à luz do presente estudo, se pode conferir à sua presença/ausência. Quando falamos pois, sobre efeito decisivo, assumimos que a dúvida face à figuração de Jerónimo se anula, anunciando a presença irrefutável deste Doutor da Igreja, divinizado pelo seu efeito mediador. Talvez ainda se acrescente alguma variação na posição da cabeça da figura, por vezes sugerindo o acto de contemplação, elevando o acto para fora do plano terreno. Porém, outros exemplos mostram a posição curvada, focada no acto da escrita idêntica àquela que encontramos no subsistema referido em primeiro lugar. Em relação à sua imposição no texto, observamos nestes casos maior variedade face aos espaços do regramento o que, sem outros elementos, não se impõe interpretar.

 

Tabela 3

BM Mans (Le), ms 0262, f.001
BM Rouenms 0037, f.001
BM Besançon, ms 0004, f.002
BM Arles, ms 0001, f.001
BM Orlean ms 0007, f.001

c

c

c

c

c

 

 

Comentário Final

Procurando resposta às questões colocadas inicialmente sobre esta imagem, encontrámos algumas interpretações que clarificaram, pelo menos, a escolha deliberada deste programa iconográfico. Quanto à percepção do copista, parece-nos redundante nesta análise, apenas revelador pela função de agente de transmissão dos textos. A dúvida sobre a sua figuração dependerá sempre da profundidade de leitura da imagem, já que, embora sobreposta, a ideia decorrente de monge-escriba ou de Jeronimus-scriptor implica preparação teológica distinta. Longe de se esgotar, esta análise iconográfica de São Jerónimo anuncia aquele que viria a ser um triunfo de sedimentação iconográfica. Saído das Bíblias, irá figurar na imagem de monge anacoreta, cardeal, penitente, homem do deserto, sábio da cultura antiga. Quase dez séculos após a sua morte, conquistará os retábulos, os frescos das capelas e o centro das pinturas.[37] Aquilo que escreveu fará dele um dos autores mais lidos da cultura Cristã.

O século XIII atinge grandes transformações no ensino teológico coordenado pelas Universidades emergentes e fortemente influenciado pela novidade das Ordens Medicantes. Os Dominicanos revelam uma vocação evidente para a evangelização, cuja eficácia suportada pelo estudo aprofundado da Sagrada Escritura e pela itinerância da Palavra, foi reconhecida favoravelmente pelo Papa Inocêncio III e por toda a classe da Alta Nobreza, nomeadamente pelo patronato régio[38]. Branner permite-nos compreender a produção sistemática do manuscrito bíblico neste renovado contexto cultural sendo viável a reconstituição de dinâmicas sociais entre encomendadores e executantes a partir de uma análise integrada de programas iconográficos-padrão e circulação de modelos. Esta metodologia permitiu confirmar a unidade de um manuscrito bíblico, dividido em três volumes durante o período de uso, assim como estimular outras reflexões que podem subsidiar o estudo do impacto da doutrina dominicana no seio de comunidades monásticas cistercienses.

Da leitura iconográfica da imagem do monge-escriba, em si mesma, partimos para uma análise diacrónica. Por um lado, encontramos a integração (sistemática) da figuração de S. Jerónimo a iniciar a sequência iconográfica que acompanha a ordem canónica de Livros e Prólogos do manuscrito bíblico - de resto, conciliável com as orientações patrísticas e com a vertente exegética da Palavra Divina impulsionadas nas Universidades; por outro lado, observamos que esta opção iconográfica assumida com a autoridade do século XIII marca uma novidade relativamente às opções praticadas século anterior. A recorrência do tema no início de diversos textos não se verificou no início da Epístola a Paulino, cujas iniciais decoradas, embora bem destacadas na área escrita, raramente figuraram o scriptor. Na Bíblia do século XIII, a imagem/figuração de S. Jerónimo vem reforçar com eficácia o próprio texto epistolário em que o Doutor da Igreja disserta sobre o modo de estudar a Sagrada Escritura resumindo cada um dos Livros do Velho e Novo Testamento e que, no contexto emergente terá tido especial recepção.

Por fim, a partir do valioso recurso das bases de dados disponíveis, validámos um sistema de padrão. Perante os subsistemas identificados, não há dúvida sobre o efeito produzido pelos atributos da imagem do monge-escriba, na transmissão do acto de escrever - dar o traço à Palavra revelada[39]. Pelo conceito familiar dos objectos representados - cálamo, faca, pergaminho, mesa e banco - pela associação paradigmática com os Evangelistas ou pela contaminação com elementos de eficácia comprovada (como o Anjo ou o Espírito Santo), esta imagem celebra a consubstanciação de Deus na Palavra e na Bíblia. O referente, ou aquele-que-escreve, encontrou em S, Jerónimo o ‘não sujeito’, a figura universal capaz de reflectir aquilo que é espiritualmente pretendido.[40]

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Outras referências Bibliográficas:

GUGGENHEIM, Antoine: Entre lettre et esprit. Juifs et chétiens autour de la Bible aux IX-XIII siècles. Communio nº XXVI, 1 janvier-février 2001, pp. 75-88.

JOLLY, Penny Howell: Antonello da Messina's Saint Jerome in His Study: An Iconographic Analysis. The Art Bulletin, Vol. 65, No. 2 (Jun., 1983), pp. 238-253.

KURETSKY, Susan Donahue: Rembrandt's Tree Stump: An Iconographic Attribute of St. Jerome. The Art Bulletin, Vol. 56, No. 4 (Dec., 1974), pp. 571-580.

MICHOLETT, Bernard: Le statut du Livre dans les monothéismes: quelques enjeux. Lumière & Vie, nº 255, 2002, pp. 107-122.

WILLIAMS, Megan Hale: The monk and the book : Jerome and the making of Christian scholarship. Chicago: University of Chicago Press, 2006.

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[1] São dignos de nota três autores que se complementam para a presente abordagem da imagem medieval enquanto instrumento de cultura:  Jérôme Baschet, “Inventivité et sérialité des images médiévales. Pour une approche iconographique élargie”, Annales H.S.S., 1996, 1, p. 93-133.; Emile Mâle, “L’art religieux du XIIIè siècle en France. Etude sur l’iconographie du Moyen Age et sur ses sources d’inspiration” (1898), 8è éd., Paris, A. Colin, 1948 e Jean Wirth, “La représentation de l'image dans l'art du Haut Moyen Age”. Revue de l'Art, Année 1988, Volume 79, Numéro 1, p. 9 - 21.

[2] São Gregório Magno. Epistolae. Epistola ad Serenus. (Patrologia Latina 77, col. 1128-1130).

[3] Jérôme Baschet, L’Iconographie Medievale. Paris: Gallimard, 2008. p.27-28

[4] Santo Agostinho referia, já, a diferença entre contemplar uma imagem e ler um texto. Ver: Jean-Claude SCHMITT. "Écriture et image" in Le corps des images. Essais sur la culture visuelle au Moyen Âge. Paris: Gallimard, 2002, p. 97-108.

[5] Editado pela Secretaria de Estado da Cultura e Inst. Biblioteca Nacional e do Livro. Lisboa 1994.

[6] Christopher de Hamel, Scribes and Illuminators. British Museum Press, London, 1992.

[7] Se atendermos ao significado das ordens mendicantes neste período e à sua influência na difusão da Bíblia, a par da evangelização, podemos colocar a hipótese do manto ser um elemento simbólico do hábito  dominicano; apesar da túnica branca que caracterizou a Ordem, o uso do manto negro exprimiu a sua itinerância fora do Mosteiro de acolhimento.

[8] As cortinas suspensas e afastadas, inscritas na tendência de exaltar o drapeado dos tecidos, sugerem o aumento de luminosidade que passou a entrar nos espaços interiores, aqui representada pelo brilho da folha de ouro. Igualmente, o recurso de representar as figuras inscritas em arcaria, reforça o significado da luz na estética medieval. Ver, Alain Erlandee-Brandenburg, De pierre, d’or et de feu, la création artistique au Moyen Âge IVe-XIIIe siècle. Librairie Arthèm e Fayard, 1999. L esthétique de la lumière, p.274.

[9] Para referente, servimo-nos da ideia desenvolvida por J. Baschet em L’image-object in L’Iconographie Mediévale. Gallimard, 2008. p.60-61. O autor utiliza o referente como o conceito evocado e tornado presente durante a percepção da imagem integrando-o num sistema interdependente entre a imagem-mental, fruto de um contexto histórico e social, e imagem-material. Desta relação, depende a eficácia da imagem no âmbito colectivo do rito, ou individualmente, na contemplação, meditação ou devoção.

[10] John Sharpe, The Bible as Book. The Manuscript Tradition. The British Library & Oak Knoll Press. New Castle, 2002. p. 2-3.

[11] Ver a este respeito: Saul António Gomes, In Limine Conscriptionis. Documentos, chancelaria e cultura no Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra (Séculos XII a XIV) Centro de História da Sociedade e da Cultura; Palimage Editores. Coimbra, 2007, p.49, 187; J. F. Meirinhos, A Filosofia no Século XII (2) Em Portugal: os Mosteiros e a Cultura que vem da Europa, Faculdade de Letras da Universidade do Porto a partir de http://www.hottopos.com/mirand10/meirin.htm://, Eric Palazzo, Foi et Croyance au Moyen Age. Les médiations liturgiques. Annales. Histoire, Sciences Sociales. Année 1998, vol. 53, num. 6, p. 1135-1137.

[12] Membranae: membrana, pele fina, pergaminho preparado para a escrita. A esta antiga designação acrescentava-se, por vezes, a palavra perganena – membrana pergamena.

[13] Dom Paulo Evaristo Arns, A Técnica do Livro Segundo São Jerónimo, 2ª edição revista e ampliada. CosacNaity, 2007, p. 12, 31. Segundo Alfredo Bosi, o autor descreve com exactidão filológica o longo processo de composição da escrita, do suporte à difusão da obra, em que a técnica do livro constituí um instrumento apto para transmitir a palavra divina da revelação.

[14] Maria José Azevedo Santos, Catálogo da Exposição Santa Cruz de Coimbra: A cultura portuguesa aberta à Europa na Idade Média, B.P.M.P., As condições técnicas e materiais da cópia de manuscritos na Idade Média, Porto, 2001 (texto em português e inglês), pp. 29-45.

[15] Fonte: Translated by Ernest Cushing Richardson. From Nicene and Post-Nicene Fathers, Second Series, Vol. 3. Edited by Philip Schaff and Henry Wace. (Buffalo, NY: Christian Literature Publishing Co., 1892.) Revised and edited for New Advent by Kevin Knight. <http://www.newadvent.org/fathers/2708.htm>.

[16] Dom Paulo Evaristo Arns, Ob cit., p.58.

[17] Andrew Louth, The Theology of the Word Made Flesh, in The Bible as Book. The Manuscript Tradition. The British Library & Oak Knoll Press. New Castle, 2002. p. 227.

[18] J. Baschet, Ob cit., p.41.

[19] Jean Wirth, L’image médievale. Naissance et developments (VIe-XVe siécles). Paris, 1989, p. 16-17. Referência colhida em J. Baschet, Inventivité et sérialité des images médiévales. Pour une approche iconographique élargie. Annales. Histoire,Sciences Sociales, Année 1996. Volume 51, num. 1, p.104.

[20] Gabriel Audisio, a propósito de: Daniel Russo, Saint Jerome en Italie. Etude d’iconographie ET spiritualite (XIII-XV siecle), 1987. Revue de l’Histoire dês Religions, CCVII-1/1990.

[21] Para obter mais informação, consultar em anexo a Ficha do Manuscrito.

[22] O mosteiro de Lorvão adquire denominação de Santa Maria em substituição de S. Mamede após ocupação das monjas brancas de Císter em 1211, sendo que a maioria dos mosteiro cistercienses são consagrados à mãe de Deus – conforme ditado por Claraval.

[23] Pedro A. de Azevedo, António Baião, O Archivo da Torre do Tombo. ANTT, Livros Horizonte. Lisboa, 1992, p.75.

[24] Podendo também tratar-se do Bispo Paulino de Nola a quem se destina a Epístola e com quem Jerónimo se correspondia, ou de uma equivalência iconográfica a outro Doutor da Igreja, como São Gregório.

[25] Códices, igualmente truncados, pertencentes à Livraria do Mosteiro de Lorvão referenciados por Psaltério, ANTT, Lorvão lv. 11 e Sagrada Escritura, ANTT, Lorvão lv.46. Informação na Ficha do manuscrito, em anexo.

[26] Robert Branner, Manuscripts painting in Paris during the reign of Saint Louis. University of California Press. Londo, 1997.

[27] Principais analogias encontradas com a Bíblia de St.-Jacques, (BNF: latin 16719, f.85v. -16722, f.108v.) embora sejam igualmente identificados traços com o Evangeliário da St.-Chapelle, ‘Grupo Leber’ (BNF: latin 8892, f.6) ou mesmo com o Psalterio do Atelier Chistina (Copenhagen, Gl. Kgl. S. 1606-4º, f.20v.). R. Branner: Op. cit.

[28] Robert Branner, Op. cit.: A study of styles. University of Califórnia Press. London, 1977.

[29] Lápis-lazuli, uma pedra semi-preciosa importada do Afganistão durante a Idade Média que era moída para ser utilizada como pigmento em obras de grande valor, sobretudo em figurações de autoridade divina ou de estatuto social elevado (ex. encomendadores).

[30] M.-H. Vicaire, Les Prêcheurs et la vie religieuse des Pays d'Oc au XIIIe siècle, Toulouse, Privat, collection Cahiers de Fanjeaux, 1998, 429 pages.

M.-H. Vicaire, Histoire de Saint Dominique, Paris, Éditions du Cerf, rééd. 2004, 752 pages.

[31] Curiosamente, encontramos a mesma prática no ms. lat 16719-16722, já referido devido às analogias iconográficas estabelecidas e nos mss. Hague 10 E 33 e Glazier 15. Branner, Op. cit, Appendix IV.

[32] Consultar na Ficha do Manuscrito, em anexo, informação sobre a divisão do manuscrito original.

[33] J.-Claude Bonne, À la recherche de les images mediévales, Annales ESC, mars-avril 1991, nº2; La puissance logique de limage, p.359.

[34] Os exemplos foram obtidos a partir da base de dados online http://imago.fcsh.unl.pt

[36] François Boespflug, Sens et non-sens des images au regard de la parole, Lumière et Vie, nº 275, juillet-septembre 2007, p. 43-57. O autor refere a imagem como possível correspondência textual, mas distanciada de equivalência textual, apenas considerada na Magestas Domini. (p.46).

[37] Daniel Russo, Saint Jerôme en Italie. Étude d’iconographie et de spriritualité (XIIIe-XIVe siècles), Paris, La Decouverte/École francaise de Rome, 1987.

[38] Michel Poirier, Vingt siècles de christianisme, Cap.-3 L'Eglise au Moyen Âge (p.15), Le siècle de saint Dominique, saint François et saint Louis;
Fonte: http://www.scribd.com/doc/17277190/20-siecles-de-christianisme-1-LEglise-des-origines#archive_trial; Fonte do autor: http://michel-poirier.over-blog.fr/ext/http://www.dieumaintenant.com/vingtsiecles.html

[39] Jean-Claude Schmitt, Les images médiévales, Bulletin du Centre d’études médiévales d’Auxerre, Hors serie nº2, 2008.
URL: http://cem.revues.org/index4412.html.

[40] Christine Lapostolle, Médiévales, Année 1988, Volume 7, Numéro 14, p. 131 – 134.

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Referência electrónica:
CORREIA, Inês – “A imagem como instrumento de identidade - A figuração de São Jerónimo no manuscrito Bíblico ANTT, Lorvão 45”. Medievalista [Em linha]. Nº11, (Janeiro - Junho 2012). [Consultado dd.mm.aaaa]. Disponível em
http://www2.fcsh.unl.pt/iem/medievalista/MEDIEVALISTA11\correia1109.html.

ISSN 1646-740X.

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