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Número 24 | Julho – Dezembro 2018 ISSN 1646-740X
 

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Coleção Calouste Gulbenkian (1869-1955). Manuscritos Ocidentais

 

João Carvalho Dias
Universidade de Lisboa, Faculdade de Letras / Artis - Instituto de História da Arte
1600-214, Lisboa, Portugal
jcdias@gulbenkian.pt

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Data recepção do artigo / Received for publication: 24 de Janeiro de 2018

 

Uma biblioteca constrói-se ao longo de uma vida. Assim aconteceu com Calouste Gulbenkian. Há, no entanto, que evidenciar o facto de existirem várias bibliotecas com a sua chancela: uma dedicada aos livros de documentação, destinados ao estudo e investigação, hoje à guarda da Biblioteca de Arte e que constitui o seu núcleo fundador; as outras duas, constituídas por livros-objetos de arte, reunidas no Museu, que compreendem exemplares magníficos, muitos deles obras raras, provenientes do Ocidente e do Oriente, o que traduz as suas preferências e opções, presentes no conjunto da sua coleção.

Na génese da sua biblioteca encontram-se vinte e dois exemplares, obras de edição francesa do século XVIII, período que mereceu a particular atenção de Gulbenkian, provenientes da venda da Coleção Rendlesham (Londres, 1899). Todavia, o gosto pela iluminura e pela caligrafia despertou no Colecionador a vontade de adquirir “manuscritos do maior valor artístico”, como confessa ao antiquário e livreiro de Florença, Tammaro de Marinis, seu amigo e consultor (1946). Quando escreve estas palavras, já Calouste Gulbenkian havia reunido o seu núcleo de iluminados – entre 1919 e 1937 – embora permanecesse um comprador atento ao mercado e às oportunidades que podiam surgir, salienta, na mesma carta: “Não pretendo livros de primeira qualidade, mas sim obras-primas”.

Gulbenkian tivera uma estreia auspiciosa, quando vieram à praça, em Londres, entre 1919 e 1921, importantes lotes provenientes de uma das mais prestigiadas coleções inglesas – a de Henry Yates Thompson (Petrarca, Boécio, Apocalipse, Des Cleres et nobles femmes, Livro de Horas de René da Lorena, Livro de Horas de Haarlem, Breviário do duque Hércules de Ferrara, Livro de Horas da família Ayala). Este conjunto seria, por si só, digno de uma biblioteca de prestígio. A partir de então registam-se compras anuais até, praticamente, 1929, ritmo que é retomado em 1935.

Num memorando de 1929, quando se preparava para adquirir um dos mais significativos conjuntos de obras proveniente do Museu do Ermitage, em São Petersburgo, expressa a sua vontade: “Interessam-me sobretudo os melhores manuscritos franceses e flamengos dos século XV e do início do século XVI, com belas iluminuras da autoria dos melhores mestres destas épocas”.

A pequena coleção reunida por Gulbenkian é constituída por vinte e quatro livros manuscritos, um incunábulo e onze fólios soltos, produzidos entre o século XII e o século XVI, em Inglaterra, Holanda, Flandres, Itália e França, constituindo este último o núcleo mais numeroso. Incluem-se livros bíblicos, litúrgicos, devocionais, com destaque para os livros de horas, mas também literários e jurídicos, adquiridos entre as duas Guerras, sobretudo nos mercados livreiros londrino e parisiense. A proveniência (coleções Henry Yates Thompson acima referida, Chester Beatty, Poullier Ketele ou de Lord Elderham) é legitimadora da qualidade dos espécimes e da importância dos consultores e intermediários (Erwin Rosenthal, Léon Gruel, Henri Leclerc, K. Gudénian, Devgantz), a quem pedia conselho, expressava as suas dúvidas, ou dava instruções precisas sobre a forma de conduzir a aquisição; a qualidade artística das obras e o seu estado de conservação eram fatores que concorriam para decisões avisadas.

Embora não se registem aquisições de manuscritos ocidentais a partir de 1937, o interesse do colecionador manteve-se vivo, permanecendo atento às oportunidades, recebendo propostas de aquisição e continuando a examinar cuidadosamente os catálogos, tanto de coleções como de vendas, onde deixou importantes anotações, que permitem confirmar o seu fascínio pela arte do livro.

A maioria dos códices e fragmentos, que constituem o núcleo dos iluminados, acabariam por ser afetados pelas inundações de 1967 – ocorridas na região de Lisboa, em particular em Oeiras, no período em que a coleção se encontrava no Palácio do Marquês de Pombal, aguardando a sua transferência definitiva para o Museu. No entanto, continua a ser possível atestar a qualidade das iluminuras e o cuidadoso exercício de construção dos fólios, cuja harmonia resulta do perfeito entendimento da relação formal e iconográfica que se estabelece entre a imagem e o texto. Este foi certamente o desígnio que sustentou as opções do colecionador e que coube ao Museu preservar.

 

Ciclo de seminários

Antecedendo a publicação do catálogo da coleção, o Museu Calouste Gulbenkian, em colaboração com o Instituto de Estudos Medievais, unidade de investigação da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, organiza um ciclo de seminários, aberto e dirigido ao público em geral, com particular interesse para docentes, investigadores e estudantes na área de História da Arte Medieval. Os coordenadores, Luís Correia de Sousa e Maria Adelaide Miranda, decidiram intitulá-lo Tesouros em Pergaminho – A coleção de manuscritos iluminados ocidentais de Calouste Sarkis Gulbenkian. A iniciativa pretende dar a conhecer a excelência dos códices e fragmentos reunidos pelo colecionador. Embora estejam desde sempre acessíveis aos investigadores e já tenham sido estudados por especialistas, e muitos deles divulgados em circuitos internacionais e exibidos no contexto da exposição A Imagem do Tempo. Livros Manuscritos Ocidentais (em 2000), os exemplares desta coleção merecem uma maior divulgação junto da comunidade científica nacional e do público em geral.

Com este propósito, um grupo de investigadores especializados na área elegeu um conjunto significativo de manuscritos, cujos textos e imagens marcaram a Idade Média europeia. Em termos temáticos, as sessões compreendem um grupo abrangente de obras, com textos de referência no domínio da exegese bíblica, da espiritualidade, da filosofia, do direito, da liturgia e literatura profana, acrescentando-se, ainda, uma sessão sobre a problemática da conservação e do restauro a que muitos deles foram sujeitos. As sessões iniciaram-se em janeiro de 2018 e irão decorrer até 11 de abril de 2019, ao ritmo de uma sessão por mês, interrompendo-se apenas durante o mês de agosto.

https://gulbenkian.pt/museu/evento/ciclo-seminarios-tesouros-pergaminho/

 

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Referência electrónica:

DIAS, João Carvalho – “Coleção Calouste Gulbenkian (1869-1955). Manuscritos Ocidentais”. Medievalista 24 (Julho – Dezembro 2018). [Em linha] [Consultado dd.mm.aaaa]. Disponível em http://www2.fcsh.unl.pt/iem/medievalista/MEDIEVALISTA24/dias2411.html

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