online

 

Número 5
EDITORIAL
RESUMOS / ABSTRACTS
ARTIGOS


EDIÇÕES ANTERIORES
Todos os números >>

LINKS
Revistas Internacionais
Normas para Autores

DIRECTOR / EXECUTIVE EDITOR

José Mattoso
REDACÇÃO / EDITORS
Pedro Chambel;
Luís Filipe Oliveira;
Adelaide Miranda
ASSISTENTE DE REDACÇÃO / EDITORIAL ASSISTENT
Maria Coutinho
CONSELHO EDITORIAL /
REVIEW EDITORS

Maria de Jesus Viguera; Joseph Morsel; Stephane Boisselier; Patrick Geary; Maria João Branco; Mário Barroca; José Meirinhos; Gerardo Boto Varela; García de Cortázar; Hilário Franco; Teresa Amado; Maria Helena Coelho; Cláudio Torres; Ana Maria Rodrigues; A. Resende; Carvalho Homem
WEB DESIGNER
Ana Pacheco
CONTACTO

Instituto de Estudos Medievais
Faculdade de Ciências Sociais e Humanas - UNL
Av. Berna 26 C, 1069-061 Lisboa
medievalista@fcsh.unl.pt

ISSN 1646-740X

ano 4  ● NÚMERO 5  2008
ISSN 1646-740X
 

[COMENTAR ARTIGO]
◄◄ [INDICE]

Bronislaw Geremek (1932- 2008)

José Mattoso
Director da Medievalista
jjmtts@hotmail.com

Embora muitos medievalistas não franceses tenham procurado seguir as sugestões de Lucien Febvre, Marc Bloch, Fernand Braudel, Georges Duby ou Jacques Le Goff para renovar a temática historiográfica na segunda metade do século XX, poucos houve que tivessem assimilado tão completamente os princípios da chamada «escola dos Annales» como o polaco Bronislaw Geremek, falecido no passado dia 13 de Julho num acidente de automóvel, quando viajava para Bruxelas. A sua ligação ao medievalismo francês permanece ainda hoje como uma característica referencial, não só devido ao aparelho conceptual que usou, mas também porque o seu primeiro e um dos mais célebres livros teve por tema Les marginaux parisiens au XIVe et XVe siècles, isto é um tema francês. Foi a tese de doutoramento que defendeu em Paris em 1972. Já antes disso tinha publicado Le salariat dans l’artisanat parisien aux XIIIe-XVs siècles (1968). Vivendo em Paris desde 1962, desempenhava as funções de director do Centre de civilisation polonaise da Universidade de Paris (Sorbonne). Era desde 1950 membro do Partido Comunista Polaco, mas abandonou-o em 1968 como forma de protesto contra a purga anti-semita desse ano e contra o papel da União Soviética na «Primavera de Praga» também em 1968.

O seu interesse pelo grupo social mais baixo da população, tema até então quase desconhecido, mas bem em consonância com o género de questões que interessavam aos mentores dos Annales, permaneceu na sua carreira de investigador como a sua «imagem de marca». Não foi o primeiro a estudá-lo: em 1965 Michel Mollat publicava o seu Pauvres et pauvreté à la fin du XIIe siècle e viria a organizar uma larga rede de pesquisa acerca da «pobreza» na Idade Média, com a colaboração de medievalistas de vários países, o que lhe permitiu publicar outras obras sobre o mesmo tema em 1974 e 1978 e ainda uma outra sobre Les revolutions populaires en Europe aux XIVe-XVe siècles (1976). Com a colaboração da Prof. Virgínia Rau, Michel Mollat orientou, em Lisboa, um congresso luso-espanhol, hoje esquecido, sobre um tema aproximado: a pobreza e a assistência. Tratava-se de uma novidade, porque a história social era ainda, entre nós, nos últimos anos do regime salazarista, um assunto tabu. Aproveitando o ambiente marcelista e o «arejamento» trazido pelas reformas de Veiga Simão, Virgínia Rau tentava modernizar a temática da investigação histórica, admitindo que nem toda a história social e económica seria disfarce para a propaganda marxista, como pensavam os intelectuais doo regime. Entretanto veio o 25 de Abril, e as atenções viraram-se, entre nós, para outras matérias. Alguns dos congressistas, porém, não esqueceram o tema, como, por exemplo a Profª. Maria José Ferro Tavares. Entretanto, o Prof. Baquero Moreno estudava a marginalidade e, mais recentemente, o Prof. Luís Miguel Duarte tomava a criminalidade como tema de doutoramento.

Geremek, pelo seu lado, apesar de ter aderido ao movimento da Solidariedade desde 1980, tornou-se o mais conceituado especialista europeu da marginalidade medieval, como testemunham as suas obras mais conhecidas, Truands et misérables dans l’Europe moderne, 1350-1600 (1980) e La potence ou la pitié. L’Europe et ses pauvres du Moyen Age à nos jours (1987 ; traduzido em português nas ed. Terramar). O sucesso que com elas obteve valeu-lhe a nomeação como professor convidado de uma cátedra internacional no Collège de France acerca da «Histoire sociale: exclusions et solidarités» (1992-1993). Não se tratava de uma actividade meramente erudita (como era, até certo ponto, a de Michel Mollat, que se dedicou também a outros temas muito diversos), mas sim o resultado de um empenhamento pessoal de grande coerência e de grande generosidade, como se verá na segunda parte desta evocação.

O seu comprometimento activo inspirou-lhe, no plano intelectual, além do estudo do papel dos pobres e marginais na sociedade medieval e moderna, um especial interesse pelo problema da formação do conceito de Europa e, dentro deste, o problema da contribuição dos países de Leste para a formação do espírito europeu. Foi isso que o levou a estudar os fundamentos da cultura europeia numa obra sobre «As raízes comuns da Europa», uma série de estudos publicada, primeiro, em italiano em 1991, e depois em inglês em 1996 (The Common Roots of Europe). Antes disso, porém, tinha já procurado averiguar que contribuição havia dado a Polónia para a cultura europeia, o que lhe forneceu matéria para outra obra, terminada já na década de 80, mas impedida de publicar até 1997 («Cultura medieval polaca, séculos XIV e XV», Varsóvia) devido ao seu activo papel na contestação ao regime comunista desde as primeiras manifestação da Solidariedade.

Independentemente da posição ideológica que assumiu na Polónia e no Parlamento Europeu, Geremek tornou-se um modelo de empenhamento político e de seriedade intelectual, um pouco à maneira de Marc Bloch que, como se sabe, foi fuzilado durante a ocupação nazi da França, devido às suas actividades na Resistência clandestina. O seu perfil de historiador é inseparável do papel que desempenhou como actor da própria História. Para conhecer as suas actividades neste campo, damos a palavra a Jorge Almeida Fernandes, que, como especialista de política internacional, as conhece bem. Agradecemos a sua autorização para aqui transcrever a segunda e terceira partes do artigo que publicou no suplemento P2 do jornal Público três dias depois da sua morte, no dia 16 de Julho de 2008. Suprimimos apenas o parágrafo em que dá o elenco das principais obras de Geremek. O seu sentido da responsabilidade pessoal na defesa dos valores humanos e culturais fez dele uma referência ímpar para quem acredita que a melhor História não é a que colecciona e arruma factos do passado, como quem faz dela uma capela de ossos, mas a que nela procura o alimento necessário à preservação da nossa própria vida humana e à busca do seu verdadeiro sentido.

Como citar este artigo:
MATTOSO, José – “BRONISLAW GEREMEK (1932-2008)”. Medievalista [Em linha]. Nº5, (Dezembro 2008). [Consultado dd.mm.aaaa]. Disponível em http://www2.fcsh.unl.pt/iem/medievalista/. ISSN 1646-740X.