Português
Migrações 7 - Música e Migração / Music and Migration
Revista do / Journal of the Observatório da Imigração


Alto Comissariado para a Imigração e Diálogo Intercultural, i.P.
PRESIDÊNCIA DO CONSELHO DE MINISTROS

Maria de São José Côrte-Real, Coordenadora Científica / Guest Editor
October 2010


Número Temático disponível em:
http://www.oi.acidi.gov.pt/modules.php?name=Content&pa=showpage&pid=119
Special Issue available at:
http://www.oi.acidi.gov.pt/modules.php?name=Content&pa=showpage&pid=120
 
ISSN: 1646-8104, pp. 298 (PT)/ 278 (EN) 
750 (PT) / 250 (EN) exemplares
Impressão: Fábrica das Letras
Depósito Legal: 274574/08
Contacto / Contact:
centro.documentacao@acidi.gov.pt


Migrações 7 (versão integral em Português e Inglês) contribui para um recente campo de interesse político e académico. Inclui artigos científicos, notas e artigos de opinião de boas práticas acerca de música e migração. Mais de três dezenas de autores convidados, provenientes de diversas escolas e experiências educacionais e artísticas europeias, americanas, africanas, indianas, australianas e do Médio Oriente, escreveram sobre questões estéticas, sociais, conceptuais, politicas e performativas. Os textos apontam e revelam estratégias de inclusão, integração, adaptação e multi/interculturalidade implicando aceitação socialmente justificada de movimentos populacionais através de processos musicais em diversos países e regiões do mundo, contribuindo para o entendimento de processos e produtos de organização humana em desenvolvimento. Refere experiências musicais em representações variadas, desde as primeiras práticas escolares aos festivais internacionais e à música de câmara residente. Discute categorias musicais usadas em Portugal, como noutros países, mencionando os contextos popular, folk/world, e erudito. Relaciona identidade e cidadania, questiona valores e modos de vida em torno da noção de nacionalidade, defende a revisão das relações entre grupos populacionais em prol de uma governação aberta e eficaz.
 
Dan Lundberg, Professor na Stockholms Universitet, apresenta a música como marcador de identidade entre músicos turcos, ex-jugoslavos e irlandeses, sublinha múltiplas identidades disponíveis individual e colectivamente. Silvia Martínez, Professora na Universitat Autònoma de Barcelona, refere bollywood e hábitos musicais de migrantes indo-paquistaneses em Barcelona e Las Palmas enquanto incubadoras de mistura. Susana Sardo, Professora Auxiliar na Universidade de Aveiro, discute memórias de identidades coloniais e pós-coloniais de goeses num caso de desenvolvimento de identidade e conciliação. Maria de São José Côrte-Real, Investigadora Auxiliar na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa assinala jogos de identidade, questiona representação de cidadania e relembra a “Consciência Nacional” na performação do fado em torno de Nova Iorque. Jorge Castro Ribeiro, Assistente Convidado da Universidade de Aveiro, refere a prática do batuque das mulheres de Cabo Verde em Portugal como expressão de saudade e conciliação entre tempos, espaços e pessoas. Ursula Hemetek, Professora da Universität Wien apresenta mundos musicais inesperados de Viena, disponibiliza dados históricos de migração e aponta a necessidade de revisão dos conceitos de etnicidade e identidade. Jorge de La Barre, Bolseiro de Investigação de Pós-Doutoramento na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, explora rituais urbanos dominados por companhias multinacionais, como a Red Bull Music Academy em Lisboa.
John Baily, Professor Emérito da University of London, propõe o conceito de música como fluxo de informação na sua apresentação da música afegã na Austrália. Marcello Sorce-Keller, Investigador Honorário na Università ta’ Malta e na Monash University, Austrália, reflecte na participação musical através de padrões de ajustamento social entre populações migrantes. Dieter Christensen, Professor Emérito da Columbia University in the City of New York, baseia-se na longa experiência académica de trabalho de campo com curdos para discutir o papel da música na representação da identidade multi-referencial complexa de populações desterritorializadas. Mark Naison, Professor na Fordham University em Nova Iorque, discute migração e música afro-americana no Bronx, referindo os bairros onde morou, estudou e se envolveu em actividades sócio-políticas. Jean-Michel Lafleur, Investigador da Université de Liège e Marco Martiniello Director do Centre d'Études de l'Ethnicité et des Migration - CEDEM – na mesma universidade, analisam o envolvimento político de músicos e música “migrada” no voto latino nas eleições presidenciais americanas de 2008; focam mecanismos de participação e mobilização de populações de origem migrante em campanhas eleitorais.
 
Godelieve Meersschaert, Vice-Presidente da Associação Cultural Moinho da Juventude, refere a história da associação fundada em 1987 para ajudar a luta pelos direitos económicos e sociais no Bairro do Alto da Cova da Moura em Lisboa; dá especial atenção às iniciativas musicais entretanto desenvolvidas. Miguel Magalhães, Agente Cultural na Fundação Calouste Gulbenkian, caracteriza o programa Próximo Futuro para a criação artística contemporânea e a produção teórica num eixo que inclui África, América do Sul, Caraíbas e Europa. Júlio Leitão, Bailarino, explica o projecto Batoto Yetu (“As nossas crianças” em suaíli), dedicado ao desenvolvimento da auto-estima e da consciência cultural em crianças através de danças africanas em Nova Iorque, Lisboa e Luanda. Alexei Eremine, Pianista do Moscow Piano Quartet, descreve a história do grupo internacional, mencionando desafios e detalhes da vida de um quarteto residente em Cascais. Carla Soares Barbosa, Directora da Academia de Música de Viana do Castelo, apresenta um projecto de formação de públicos jovens e infantis, através de actividades de composição e performação interculturais. Carlos Martins, Dirigente da Associação Sons da Lusofonia refere o Festival Lisboa Mistura que abriu portas a comunidades migrantes não lusófonas em Portugal e a Oficina Portátil de Artes que promoveu aprendizagem e performação de jovens em Lisboa. Ana Fernandes Ngom, Agente Sócio-Cultural refere o projecto Putos qui ata Cria (“Crianças que estão Crescendo” em crioulo de Cabo Verde) focado no mestre-de-cerimónias, promovendo coesão social e respeito pela diversidade cultural. Ana Fernandes Ngom e Lídia Fernandes, Aluna de Mestrado na Universidade Técnica de Lisboa, apresentam o programa MigraSons da Rádio Zero de Lisboa sobre movimentos migratórios, interculturalidade e diversidade cultural, promovido pela Solidariedade Imigrante (SOLIM) - Associação para a Defesa dos Direitos dos Imigrantes. João Jorge,  Engenheiro Aeronáutico da Thunderbird School of Global Management caracteriza a acção pedagógica dos OriAzul, a banda de músicos de Cabo Verde, Senegal, Gabão e Congo, que trabalha em escolas internacionais em vários países africanos, para integrar estudantes no ambiente musical.
 
Jorge Murteira, Antropólogo e Documentarista, dá um voto de boa década através do trabalho musical de Danae e os Novos Crioulos. Mafalda Silva Rego, Professora de Inglês da Escola Profissional de Música de Viana do Castelo conta como professores e alunos de Angola, Brasil, Bielorrússia, Cuba, França, Irão, Itália, Cazaquistão, Lituânia, Portugal, Rússia, Espanha, Ucrânia e Estados Unidos da América interagem na excelente escola de música. Maria da Luz Costa, Coordenadora da Escola EB1 nº 4 de S. João da Talha em Loures, e Maria de São José Côrte-Real, Investigadora Auxiliar na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, referem o projecto MUSSI, (financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia e pela Fundação Belmiro de Azevedo) sobre práticas performativas no currículo do 1º Ciclo do Ensino Básico, envolvendo drama, dança e música de diferentes culturas na escola. Paula Nascimento, Gestora Cultural e Directora do Africa Festival, refere as suas últimas edições em Lisboa para uma audiência média de 10.000 espectadores por dia. José António Fernandes Dias, Professor Auxiliar na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, refere o programa/projecto Africa.cont, emergido da vontade política para o estabelecimento de uma plataforma para a criação cultural contemporânea africana em Portugal. Gustavo Roriz, Músico Profissional, relata a sua experiência de cidadania migrante referindo a mais valia da música. Isabel Elvas, Professora na Escola EB 2,3 Miguel Torga na Amadora, menciona o seu estudo de mestrado na Escola Superior de Educação de Setúbal, sobre a implementação da Orquestra Geração, apoiada pela Fundação Calouste Gulbenkian e pelo Alto Comissariado para a Imigração e Diálogo Intercultural, numa escola local. Luisiane Ramalho, Professora de Música em Fortaleza, Brasil, refere-se à sua investigação de mestrado na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, sobre representações infantis de aprendizagem musical em diferentes nichos culturais no Carregado, pequena cidade densamente multicultural, próxima de Lisboa. Bart Vanspauwen, Aluno de Doutoramento no Departamento de Ciências Musicais da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa e colaborador especial neste volume, refere a sua investigação de mestrado desenvolvida na mesma escola, sobre músicas e músicos lusófonos em Lisboa.
 
Migrações 7Música e Migração, refere preocupações contemporâneas questionando e desafiando valores e fronteiras, modelos de participação, usos de manipulação de emoções, de categorias e de referências várias associadas ao binómio música e migração. Atentemos pois aos propósitos investigacionais, educacionais, emocionais, políticos, sociais e económicos que influenciaram os autores, dando voz não só à interpretação do significado como à própria música e aos seus numerosos agentes e ouvintes.
 
Fundado sobre reminiscências periféricas de civilizações mediterrânicas, o fulgurante Al-Andaluz entre outras mais longínquas e mais próximas, Portugal tem construído a sua identidade cultural numa diversidade notável. Apesar de indicadores vários revelarem a preponderância da emigração durante cerca de cinco séculos até à década de 1970 – expansão marítima e consequente era colonial incluídas – as últimas décadas sublinham retorno e imigração. Imaturo ainda como hospedeiro, Portugal mostra-se contudo interessado numa política de migração actualizada e satisfatória, bem assinalada já, em alguns pontos, em referências internacionais (MIPEX, Migrant Integration Policy Index, I, II e III, entre outros). Desta recente vontade política, associada ao conhecimento académico, social e artístico internacional de construir um enquadramento intercultural satisfatório, surge o presente número desta revista.  

Diferentes falhas acontecem na escrita como no comportamento humano performativo tanto mais quando se referem tantas e tão diferentes interacções culturais. Na incompletude lembremos Michel Foucault acerca da dimensão aberta da linguagem, ganhando significado apenas quando o fluxo se mantém e a interpretação vence a demonstração (Les Mots et les Choses, 1966). Contribuímos para o conhecimento e o relacionamento de ideias, pessoas e instituições em Portugal e no mundo, estimulamos o diálogo nos meios académicos, sociais, políticos e artísticos, usamos experiências musicais e migrantes para o desenvolvimento das cidadanias no mundo contemporâneo.
 
 
 

Maria de São José Côrte-Real, INET
 Faculdade de Ciências Sociais e Humanas,
Universidade Nova de Lisboa

 
 
 
 
 

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